O mercado brasileiro continuará bem ofertado de linhas de financiamento ao comércio exterior em 2006. O BNDES e o Banco do Brasil, que operam programas governamentais, manterão no ano que vem empréstimos à exportação em volumes semelhantes aos de 2005. Já entre os bancos que operam com linhas de “trade finance” de curto prazo, incluindo o próprio BB e instituições privadas, há indicações de que a demanda por crédito à exportação poderá cair em 2006.
Sérgio Meniconi, responsável pela área de câmbio e ativos internacionais do Unibanco, é um dos acreditam que pode haver redução de linhas de financiamento à exportação no ano que vem. Pelo lado da oferta, Meniconi acredita que os bancos no exterior podem passar a oferecer financiamentos diretos aos exportadores no Brasil. Seria uma resposta a uma maior pressão das empresas, no país, por reduções nos custos de operações como o Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC), que já é bem competitivo.
Do ponto de vista da demanda, o custo das linhas de “trade finance” não é mais tão vantajoso em relação a outros fontes de financiamento, como o capital de giro, quanto era há dois anos. Essa aproximação ocorreu por força da grande liquidez interna e externa de linhas de financiamento, cenário que deverá continuar no ano que vem. Hoje o custo de um ACC com prazo de vencimento de 180 dias equivale a cerca de 108% do CDI, enquanto o custo do capital de giro, sem levar em conta a CPMF, é de cerca de 111% do CDI.
A valorização do real também é um fator de desestímulo ao fechamento de ACCs pelos exportadores. Com dólar fraco, as empresas evitam de se pré-financiar, indo para outras fontes de financiamento. Em muitos casos, o exportador conta com uma forte geração de caixa e não toma o ACC, afirma Eric Striegler, responsável pela área de operações estruturadas e trade finance do HSBC. Apesar do câmbio apreciado e da boa situação de caixa de muitas empresas, o HSBC quer aumentar o volume de operações de comércio exterior em 2006 na comparação com 2005, diz Striegler. Esse movimento se apóia no crescimento da exportação e em ganhos de market share.
Meniconi, do Unibanco, diz que o primeiro semestre é tradicionalmente mais fraco e assim deverá ser em 2006, mas entende que a segunda metade do ano ainda é uma incógnita por força do ano eleitoral, que poderá aumentar a volatilidade da economia. Uma desvalorização do real poderia provocar uma corrida dos exportadores ao ACC. Para Airton Villafranca, superintendente da área internacional do Santander, o financiamento ao comércio exterior não deve crescer, em 2006, na mesma velocidade das exportações por força do câmbio apreciado.
Rogério Lot, diretor de comércio exterior do Banco do Brasil, também considera que pode haver uma redução nas operações de ACC e ACE em 2006, fenômeno relacionado à grande liquidez de linhas de financiamento no mercado. Lot informou que de janeiro até agora o BB desembolsou US$ 11 bilhões em 29,7 mil operações de ACC e ACE, o Adiantamento sobre Cambiais Entregues. A projeção do BB é fechar o ano com um volume de ACCs e ACEs de US$ 11,3 bilhão.
Segundo Lot, o Banco do Brasil tem participação de cerca de 27% do mercado de ACC/ACE estimado em pouco mais de US$ 40 bilhões por ano. Dados divulgados ontem pelo Banco Central sobre o movimento de câmbio no país indicam que as operações de exportação totalizaram US$ 110,6 bilhões de janeiro a novembro. Deste total, segundo estimativas de mercado, cerca de 30% ou US$ 33 bilhões correspondem a operações de ACC e ACE.
Lot mostra otimismo em relação ao cenário para os empréstimos de longo prazo por meio do Programa de Financiamento às Exportações (Proex). Neste ano o Proex, na modalidade Financiamento, tinha uma previsão orçamentária de R$ 1,5 bilhão. Deve fechar o ano com uma utilização da ordem de 80% a 85% dos recursos. Será o segundo ano consecutivo que sobra dinheiro no Proex.
Segundo Lot, essa sobra é resultado do fato de que o Proex Financiamento está limitado a empresas que faturam até R$ 60 milhões/ano. Até novembro 80% das operações do programa foram de até US$ 100 mil (cada uma).
Para o ano que vem, Lot não revela qual é a previsão orçamentária: “Os números serão próximos aos de 2005”, disse. A proposta já foi encaminhada ao Ministério da Fazenda e será incluída no orçamento da União para 2006. de janeiro a novembro de 2005, o Proex liberou US$ 441 milhões com crescimento de 54,8% sobre igual período de 2004. Foram 1.583 operações envolvendo 429 exportadores até novembro.
No caso do BNDES-Exim, a outra fonte oficial de financiamento à exportação, a estimativa é desembolsar em 2006 um volume semelhante ao previsto para 2005, da ordem de US$ 5,5 bilhões. Luiz Antonio Araujo Dantas, superintende da área de comércio exterior do BNDES, diz que a estimativa para o ano que vem está apoiada no financiamento às plataformas da Petrobras, na retomada dos empréstimos para o setor aeronáutico e o apoio ao setor de bens de capital, além da exportação de serviços.
Em 2006, o banco continuará a financiar a produção de veículos de passeio destinados à exportação. A linha foi criada em setembro, tem validade de dois anos e financia 30% do valor total a ser exportado com o custo indexado em 80% à TJLP e em 20% ao dólar. Segundo Dantas, em 2005 o banco deve liberar US$ 900 milhões para o financiamento de carros leves para a exportação, cerca de 20% do total a ser liberado pelo BNDES-Exim em 2005.
Francisco Crema, diretor do Unibanco que cuida de repasses do BNDES, avalia que a valorização do real não permitiu que a linha do BNDES para veículos leves tivesse o efeito esperado. Crema disse que, em 2006, o Unibanco deve repetir o volume de desembolsos nas linhas do Exim verificado em 2005, algo como R$ 1,2 bilhão. Crema não vê espaço para uma demanda maior nas linhas do Exim no ano que vem a não ser que o BNDES indexe 100% do custo de sua linha à TJLP, o que não está previsto.
Por Francisco Góes – Rio de Janeiro – NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.valoronline.com.br/veconomico.
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