Brasília – Com o propósito de “denunciar a perversidade de todo o modelo econômico que vise em primeiro lugar ao lucro” e estimular a sociedade a praticar “ações sociais e políticas” que levem a uma economia solidária, a Campanha da Fraternidade deste ano será lançada nesta quarta-feira (17).
Com o tema Economia e Vida – escolhido há dois anos – e sob o lema “Vocês Não Podem Servir a Deus a ao Dinheiro”, a campanha será realizada por cinco igrejas que integram o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Brasil (Conic) – Católica, Presbiteriana Unida do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil e Sirian Ortodoxa de Antioquia.
Em sua 46º edição, a iniciativa visa a orientar os fiéis a refletirem a preponderância dos valores éticos, morais e espirituais sobre o dinheiro, indicando que a economia deve servir à vida.
“O Conic não quer limitar-se a criticar sistemas econômicos. Principalmente, espera que a campanha mobilize igrejas e a sociedade a dar respostas concretas às necessidades básicas das pessoas e à salvaguarda da natureza, a partir de mudanças pessoais, comunitárias e sociais, fundamentas em alternativas viáveis derivadas da visão de um mundo justo e solidário”, diz o texto da campanha.
A Campanha da Fraternidade será lançada oficialmente em Brasília (DF), com a realização de uma celebração ecumênica no Santuário Dom Bosco, às 19h30 de Quarta-Feira de Cinzas.
Por Alex Rodrigues – Repórter da Agência Brasil. Enviado por Aécio Rodrigues…, seg, 15/02/2010 – 19:38
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Economia e Vida (I): a missão
Adital – Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre “economia e vida”. Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF.
Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc.
Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre “economia e vida”, vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia.
Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de “espiritualizar” a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um “ser incorpóreo” (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se “espiritualizando” (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma.
Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha.
Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do “cristianismo de libertação” ou como se “libertação” não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores).
A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano em corpo X alma, nos ensina que, na criação, Deus insuflou nas narinas do ser humano “um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Nós somos seres viventes e como tais lutamos contra a morte. E a imagem de “sopro de vida” nos lembra que a vida é o dom mais precioso que recebemos de Deus, que a vida vem de “dentro” de Deus (nosso Deus é Deus da Vida) e que, como sopro, a vida é algo frágil que precisa ser continuamente cuidada e preservada. Por isso, a Bíblia continua a narrativa dizendo que Deus fez brotar da terra “toda espécie de árvore formosa para ver e boas de comer”. A vida humana é para ser vivida na formosura, beleza, e com boa comida partilhada.
É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, “o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem”.
A vida humana depende do trabalho e da “natureza”, depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas.
Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia).
Por Jung Mo Sung, que é professor de pós-graduação em Ciências da Religião. (Autor, entre outros, de “Se Deus existe, por que há pobreza?”, Ed., Reflexão).
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Economia e Vida (II): Deus e ídolos na economia
Adital – No artigo anterior , eu tratei da “materialidade da vida”, que é um dos aspectos fundamentais do tema da CF deste ano: “Economia e vida”. Neste artigo, eu quero continuar a reflexão abordando um segundo aspecto, “o aspecto teológico-espiritual da economia”.
À primeira vista, falar em aspecto teológico-espiritual da economia soa estranho para a maioria da população. Pois a economia trataria das questões materiais e a teologia e a espiritualidade, das questões imateriais. Esta visão que separa e opõe a economia da teologia e espiritualidade é uma característica do mundo moderno, que separou os campos da vida social (por ex, o campo econômico e o religioso) de uma forma que os vê como independentes e autônomos. E, estranhamente, muitos dos grupos religiosos que se opõem ao mundo moderno assumem essa separação moderna como algo “natural” ou “divino”.
A afirmação de Jesus, “Ninguém pode servir a dois senhores. … Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro.” (Mt 6,24), mostra que na tradição cristã, e nas sociedades antigas, há uma relação entre a economia e teologia. E aqui é preciso prestar atenção: não é relação entre economia e ética ou entre a economia e a doutrina social da Igreja, mas sim entre economia e teologia! Jesus coloca uma disjuntiva: servir a Deus ou a Dinheiro. Isto é, Jesus mostra que dinheiro pode ser e foi colocado no mesmo nível de Deus. Por isso, há relações de seres humanos com o dinheiro que se tornam uma questão teológica, uma questão de discernimento entre o Deus verdadeiro e o deus falso, ou ídolo.
O que as Igrejas cristãs fazem normalmente, quando tratam das questões econômicas, é propor uma doutrina social, que costuma não ter o mesmo status de teologia. É como se fosse uma aplicação derivada da teologia aos problemas do mundo social, uma aplicação que não faria parte da essência da reflexão teológica e da evangelização. Entretanto, Jesus, ao colocar a oposição entre o “servir ao Dinheiro” e o “servir a Deus”, eleva a questão econômica ao coração da teologia e da evangelização.
Porém, é preciso tomar outro cuidado. Jesus não condena dinheiro ou economia de uma forma geral. O que ele condena é a transformação do dinheiro no sentido último da vida, no critério máximo para decidir o que é bom ou mal, quem deve viver ou morrer. Na Teologia da Libertação, essa discussão foi desenvolvida especialmente pela “escola do DEI” (Departamento Ecuménico de Investigaciones, em Costa Rica, com nomes como Franz Hinkelammert e Hugo Assmann), que cunhou a expressão “a idolatria do mercado”. A economia de hoje é muito diferente do tempo de Jesus, por isso, a melhor forma de criticar a idolatria que ocorre na ou via economia é a do mercado, e não mais a do dinheiro. Porém, é preciso lembrar que Assmann e Hinkelammert também criticam o fazer do mercado algo absoluto, o último critério para as decisões sobre a vida e a morte na sociedade (idolatria); mas não o mercado como tal. Pois, não é possível organizar a economia e a sociedade hoje sem mercado.
Servir a um “deus falso”, ídolo, deus que exige sacrifícios de vidas humanas, é um tema da teologia, mas também da espiritualidade. Pois “servir” a Deus ou ídolo implica em dedicar uma vida, em encontrar o sentido da vida e a motivação para viver nesse serviço. A questão central hoje, em termos de evangelização, não é anunciar a Deus a um mundo não-crente. Mas a de discernir entre uma espiritualidade e teologia que nos leva a Deus que se revelou na vida, morte e ressurreição de Jesus; e a outra que nos leva ao ídolo, que sempre se mostra como um deus poderoso, radiante e glorioso no mundo.
Esta breve reflexão nos mostra que há, pelo menos, dois níveis na discussão da economia. A tarefa teológica da crítica da idolatria – que pertence ao coração da tradição bíblica – que ocorre na economia e da proposição de uma nova noção de Deus como fundamento de uma nova economia. (Max Weber chega a dizer que as ciências sociais devem desvelar os deuses impessoais que estão por detrás das ações na economia e na sociedade, mas não propõe uma crítica a esses deuses.) Outro nível é o do campo técnico-operacional da economia. A discussão sobre a melhor forma de combater a inflação, de aumentar o nível de emprego ou melhorar a distribuição de renda, não é do campo da teologia, mas sim das ciências econômicas. Isto é, não podemos tirar da Bíblia, da teologia, ou até mesmo da doutrina social da Igreja, críticas ou propostas no campo operacional da economia.
É preciso fazer uso das “mediações”, como sempre insistiu a Teologia da Libertação. Da análise da economia, desvelar os seus fundamentos teológicos e econômicos; da reflexão teológico-bíblica, dialogar com as ciências econômicas, sociais, políticas e antropológicas para ver quais as diretrizes que melhor expressam os valores da fé. Diretrizes essas que não podem ser confundidas com “receitas” ou práticas econômicas concretas, pois esse é o campo da discussão e de resultados sempre provisórios. Devemos evitar a tentação de absolutizar as “nossas” propostas econômicas, negando diálogo e debate com grupos que, mesmo tendo valores convergentes, pensam de modo diferente os caminhos concretos da economia.
Por tudo isso, para uma boa reflexão teológica socialmente relevante hoje, é fundamental estudarmos as interfaces entre a teologia e economia.
(No próximo artigo, espiritualidade nas experiências econômicas do cotidiano).
Por Jung Mo Sung, que é professor de pós-graduação em Ciências da Religião. [Autor de “Cristianismo de Libertação: espiritualidade e luta social”].
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