Carolina Coronel – CNB/CUT
A falta de dinamismo da economia nacional aliada a falta de regulamentação das tarifas cobradas pelas instituições financeiras por parte do Banco Central e também pela sociedade são os principais fatores que caracterizam o Brasil como um paraíso para os bancos.
Nos anos oitenta, a rentabilidade dos bancos era garantida pelos altos índices de inflação. O ajuste estrutural, caracterizado principalmente pela automação e pelas agressivas transformações tecnológicas, que começou naquela década, adaptaria os bancos para o novo cenário que estaria por começar a partir do Plano Real.
No artigo “As receitas de prestação de serviços nos bancos no contexto do Plano Real”, elaborado pela economista da subseção do Dieese do Sindicato dos Bancários de Brasília, Ana Quitéria Nunes Martins, registra-se que, entre 1994 e 1995, o ganho estimado dos maiores bancos, decorrentes dos recursos captados, praticamente sem remuneração, despencaram de R$ 9,538 bilhões para menos de um bilhão (R$ 903 milhões).
Isso por conta das mudanças no ambiente inflacionário, que por si só garantia taxas de retorno altamente lucrativas (ganhos com floating).
Era das tarifas – Nesse cenário, os bancos já começam a se articular para manter a alta lucratividade do setor. Começa então a era da cobrança das tarifas, setor que é hoje um dos maiores responsáveis pela lucratividade no setor.
Dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) demonstram que nos últimos doze meses, até janeiro de 2004, os bancos promoveram reajustes médios de 14,5% nas tarifas que cobram dos clientes, superando com folga a inflação acumulada de 8,01%, de acordo com o ICV/Dieese.
Em 1994, as receitas de prestação de serviço representavam 6,25% no total das receitas dos bancos, subindo para 11,21% no final de 2003.
De acordo com o presidente da CNB/CUT, Vagner Freitas, o Banco Central deveria regulamentar de forma específica o custo das tarifas bancárias no país.
Segundo ele, os clientes são os maiores prejudicados nesse contexto e muitas vezes nem são avisados das altas na cobrança desses serviços.
“O alto custo das tarifas não é a garantia de um bom atendimento, nem de segurança nas agências, pelo contrário, os clientes pagam tarifas exorbitantes para receber um atendimento de má qualidade, em função da demora nas filas, e da insegurança nas agências. O cliente espera qualquer coisa hoje em uma agência, até mesmo ser baleado”.
Ganhos com tarifas ultrapassam gastos com despesas de pessoal – A prestação de serviços cobre os gastos com despesas de pessoal.
De 1994 para 2003, a participação dessas receitas sobre as despesas de pessoal, em média, evoluiu de 26% para 93,3%. Ou seja, em nove anos os bancos passam a custear os gastos com pessoal somente com a arrecadação das tarifas bancárias.
No Itaú, a receita de prestação de serviços foi de R$ 1,4 bilhões no primeiro trimestre deste ano (15,9% superior a 2003). No ano de 2003, o valor arrecadado pelo Itaú daria para pagar quase duas vezes o quadro funcional, já que corresponderam a 162,0% das despesas com pessoal. No Bradesco, o que é arrecadado com prestação de serviços cobre 87,7% das despesas.
De vento em popa – A economista do Dieese, da Subseção do Sindicato dos Bancários de Brasília, Ana Quitéria Nunes Martins, afirma que desde o Plano Real, a intensificação de contratações terceirizadas e a ampliação dos correspondentes bancários reduziram o número de postos de trabalho do bancário.
Outros fatores também contribuíram para isso como a introdução de novas tecnologias, a privatização, as fusões e as aquisições realizadas no período. No final dos 80, eram 730 mil empregados nos bancos. Em 1995, 560 mil.
Em 2003, são 400 mil bancários. “Em contraste com o acontece nos outros setores da economia que amargaram um fraco resultado diante das grandes dificuldades dos últimos anos, os bancos são amplamente favorecidos pela conjuntura econômica, e por isso seguem de vento em popa”.
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