Centenas de mulheres fazem na noite de hoje (19) uma manifestação de apoio à presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. O ato começou pouco depois das 18h. De acordo com a Polícia Militar, 400 pessoas se encontravam em frente ao prédio, por volta das 19h, entoando cantos e palavras de ordem.
Com cartazes de apoio à presidenta como “Dilma fica” e “Juntas pela democracia”, as manifestantes estão com botões de rosa de diferentes cores para, simbolicamente, oferecer a presidenta.
Um grupo de 20 mulheres será recebido por Dilma. “Eu vivi os anos de chumbo da ditadura no Rio de Janeiro e sou a favor da democracia, por isso estou aqui hoje. Eu vou dizer: ‘Dilma, estamos com você, muita força e confiança que a gente vai vencer essa batalha”, disse Tereza Pereira, uma representantes do grupo que irá participar do encontro com Dilma, no palácio.
Além de palavras de ordem, como “golpistas, fascistas, não passarão”, e “mulheres unidas jamais serão vencidas”, elas cantaram o Hino Nacional e um dos cânticos que costumam ser entoados em eventos de apoio a Dilma: “No meu país, eu boto fé, porque ele é governado por mulher”.
Segundo a organização do ato, a ideia surgiu nessa segunda-feira (18), após a abertura do processo de impeachment de Dilma ter sido autorizado pela Câmara dos Deputados. “A gente é de um grupo de defesa pela democracia, e ontem batendo um papo as pessoas estavam tristes, chateadas. Uma das meninas falou assim: ‘Nossa, eu queria tanto dar um abraço na Dilma’. Aí falamos em dar um abraço coletivo”, contou Crsitina Moreira, uma das organizadoras.
PT e movimentos sociais retomam manifestações e dizem não reconhecer Temer
O PT divulgou hoje (19) uma resolução política em que diz que irá retomar as manifestações populares em conjunto com movimentos sociais contra o processo de impeachment da presidenta da República Dilma Rousseff. O documento diz que, caso a oposição insista na “rota golpista”, o PT não respeitará um governo “ilegítimo e ilegal”.
A decisão foi tomada durante a reunião do Diretório Nacional do PT, na sede do partido em São Paulo, para discutir estratégias de enfrentamento ao processo de impeachment. Participaram da encontro, entre outros, o presidente do partido, Rui Falcão; a senadora Regina Sousa; o vice-presidente do partido, Alberto Cantalice; o tesoureiro do PT, Márcio Macedo; e o assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“O Partido dos Trabalhadores tem reaprendido. Nesta jornada, antiga lição que remete à fundação de nosso partido: o principal instrumento político da esquerda é a mobilização social, pela qual a classe trabalhadora toma em suas mãos a direção da sociedade e do Estado”, diz o texto. “Se a oposição de direta insistir na rota golpista, reafirmaremos que não haverá trégua nem respeito frente a um governo ilegítimo e ilegal”.
Mais manifestações
De acordo com o presidente do PT, as manifestações contra o impeachment poderão aumentar tendo em vista que, segundo ele, a sociedade está agora vendo com mais claridade o que está ocorrendo. “As manifestações podem crescer em intensidade porque está ficando mais nítido para a sociedade o que representa esse golpe. Confiamos que uma mobilização ainda maior e novas formas de luta popular podem convencer os senadores”, disse.
Falcão disse que, caso o processo de impeachment prospere, o partido irá permanentemente deslegitimar o futuro governo e não permitirá retrocessos. “Nós não podemos permitir que depois de anos de avanço venha um cara sem voto, traidor, retirar direitos que foram conquistados com muita luta nesse país. Não vamos permitir”, disse. “É muito mais do que oposição parlamentar só. É dizer para a população, para a sociedade que, com governo ilegítimo não tem paz, não tem estabilidade, não tem tranquilidade, tem luta.”
Temer e Cunha
O presidente do PT disse que a votação do impeachment na Câmara dos Deputados violou o sentimento democrático na nação e evidenciou que o processo de afastamento da presidenta da República está sendo liderado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e pelo vice-presidente Michel Temer.
“O que aconteceu na Câmara dos Deputados é um golpe contra a democracia, violou todo sentimento democrático da nação e colocou na frente daquele processo um presidente denunciado por vários crimes, réu de vários crimes no STF [Supremo Tribunal Federal] e um vice-presidente que trai seu próprio programa pelo qual foi eleitor e sua companheira de chapa”, disse Falcão.
Antecipação das eleições
O presidente do PT disse ainda que o partido não tirou nenhuma conclusão a repeito de uma proposta de antecipação de eleições presidenciais. Segundo Falcão, a sigla irá esperar, inicialmente, a apreciação no Senado Federal do processo de impeachment. Segundo ele, o partido só poderá deliberar sobre o tema caso haja um pedido da própria presidenta da República.
“Qualquer discussão a respeito de encurtamento de mandatos, porque é disso que se trata, não pode ser travada, não pode ter nenhuma deliberação a menos que isso viesse a partir da presidenta da República”, disse.
Novas eleições
Sobre a possibilidade de se convocar novas eleições, o deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP) disse que seria por meio de uma PEC, mas o processo seria demorado. “A PEC tem que tramitar e ser votada duas vezes em uma casa e na outra, então ela demora. Estou apenas analisando independentemente de concordar ou não com a tese”, disse.
Chinaglia disse que pensou na alternativa de se convocar um plebiscito para consultar a população sobre a convocação de novas eleições. “Acho que aí teria legitimidade. A população brasileira quer ou não novas eleições?”. Segundo ele, o Congresso Nacional não necessariamente representa a vontade popular. “Mas se você faz um plebiscito, aí não tem nenhuma dúvida que, se a população decidir por novas eleições, isso pode e deve acontecer”.
O deputado disse que, com o processo de impeachment chegando ao Senado, o desafio será maior, porque é necessário somente maioria simples para haver abertura do processo. “Na minha opinião, e eu fiz sugestão nesse sentido, nós temos que concentrar trabalho junto aos senadores e com mobilização de rua. Não é para defender o PT, não é para defender o governo, é pela consciência democrática”, disse Chinaglia. O deputado federal avaliou que a estratégia de enfrentamento da oposição agravou a atual crise econômica.
Governo Temer
Rui Falcão teceu críticas a um eventual governo Temer, em caso de afastamento da presidenta Dilma, apesar de apostar em uma reversão do processo do impeachment no Senado. Segundo o presidente do PT, setores da sociedade que apoiam o impeachment agora começam a se “envergonhar” diante das propostas do atual vice-presidente da República e do presidente da Câmara dos Deputados.
“Fala em mexer com os direitos dos trabalhadores, fazer um orçamento a cada ano para discutir se tem recurso para a Saúde, para Bolsa Família, assim por diante. Já anuncia privatizações, o que coloca em risco a Petrobras e o sistema de partilha, para recomeçar com a questão das concessões. Enfim, muito daquilo que foi construído em termos de conquistas e direitos nos últimos 14 anos começa a ser dissolvido, corroído”, disse.
Já o ex-prefeito de Porto Alegre e um dos fundadores do PT, Raul Pont, diz que o rompimento com partidos que apoiaram o impeachment “é uma questão mínima de moralidade, inclusive de respeito com os eleitores”. “Como é que nós podemos [fazer aliança] com um partido [PMDB] que é golpista, com um partido que patrocina um golpe? Com um partido que está no governo, constrói um governo junto conosco durante uma década e patrocina um golpe?”.
* Colaborou Camila Bohem
Dilma Rousseff: Brasil tem um “veio golpista adormecido”
A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (19) que o Brasil tem um “veio golpista adormecido” e que não houve um presidente após a redemocratização do país que não tenha tido um processo de impedimento no Congresso Nacional.
“Se nós acompanharmos a trajetória dos presidentes no meu país no regime presidencialista a partir de Getúlio Vargas, nós vamos ver que o impeachment sistematicamente se tornou um instrumento contra os presidentes eleitos. Tenho certeza que não houve um único presidente depois da redemocratização do país que não tenha tido processos de impedimento no Congresso Nacional. Todos tiveram”, afirmou Dilma, em entrevista a veículos estrangeiros no Palácio do Planalto.
Dilma também ressaltou que se crise econômica fosse argumento “para tirar presidente da República não teria um único presidente da República nos países desenvolvidos que sobrevivesse à profunda crise econômica com desemprego”. Para ela, não é por causa da crise econômica que está ocorrendo a crise política.
A presidenta destacou que a crise atual está acontecendo pelo fato de a eleição de 2014 ter sido vencida por uma margem estreita, de pouco mais de 3 milhões de votos. A petista recebeu 54 milhões de votos. “Essa eleição perdida por essa margem tornou no Brasil a oposição derrotada bastante reativa a essa vitória e por isso começaram um processo de desestabilização do meu mandato desde o início dele. Este meu segundo mandato, há 15 meses, tem o signo da desestabilização política”, afirmou.
Os deputados aprovaram neste domingo (17), por 367 votos a favor e 137 contra, o prosseguimento do processo de impeachment contra a presidenta Dilma. Em uma entrevista concedida à imprensa ontem (18), Dilma disse se sentir indignada e injustiçada com a decisão da Câmara dos Deputados.
Se a admissibilidade do afastamento for aprovada também pelos senadores, a presidenta será afastada do cargo por até 180 dias, enquanto o Senado analisa o processo em si e define se Dilma terá o mandato cassado.