Quem sabe um dia a história política do século XXI poderá mostrar os resultados do que está para acontecer e ganhar corpo nestes dias 17 e 18 de abril, em Barcelona. Sob o céu da Catalunha, o Global Progressive Mobilisation (GPM) não é apenas mais um fórum de debates; é a materialização de uma contraofensiva há muito esperada. Se por anos o campo progressista pareceu acuado pela ascensão de discursos de ódio e pelo populismo autoritário, a cúpula impulsionada pelo espanhol Pedro Sánchez, pelo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e pela mexicana Claudia Sheinbaum sinaliza que o jogo pode ser virado sim. A meta é ambiciosa: coordenar uma resposta internacional estruturada, unindo governos, partidos e movimentos sociais em uma frente única que promete ser o maior pesadelo dos movimentos ultraconservadores.
Pesos-pesados de ouro: Do Palácio do Planalto ao México
O que confere ao GPM uma estatura diferenciada é o calibre de seus protagonistas. Não se trata de uma reunião de acadêmicos ou de ativistas isolados, mas de um encontro de quem detém a caneta e o poder de Estado. A presença do presidente Lula, por si só, um divisor de águas. O chefe de Estado brasileiro, alçado à condição de líder natural do Sul Global, traz para Barcelona a experiência de quem recuperou a democracia em um país continental após anos de obscurantismo. Ao lado dele, Pedro Sánchez consolida-se como a voz mais firme e resiliente do progressismo europeu, demonstrando que é possível governar com foco no bem-estar social mesmo sob o fogo cruzado de uma oposição radicalizada.
A lista de presenças é um verdadeiro “quem é quem” da nova esquerda global. A confirmação de Claudia Sheinbaum, a presidenta do México, traz o frescor de uma liderança que combina rigor científico com compromisso social, simbolizando a força das mulheres na linha de frente da política contemporânea. Somam-se a eles figuras como Gustavo Petro, estadista da Colômbia, que traz a urgência da transição ecológica, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul, essencial para o diálogo sobre uma nova governança econômica mundial. A presença de oito chefes de governo e representantes de mais de 100 partidos políticos de todos os continentes transforma Barcelona em uma espécie de “Conselho de Segurança” das causas sociais, onde o objetivo não é o veto, mas a construção de pontes sólidas.
Novo Internacionalismo: Muito além da foto oficial
Diferente de fóruns passados, o GPM foca na “entrega”. O mundo progressista compreendeu que a solidariedade retórica já não é suficiente para conter o avanço das redes de desinformação e das políticas de exclusão. A pauta em Barcelona é pragmática: como taxar grandes fortunas em nível global? Como garantir que a transição energética não aprofunde a desigualdade entre o Norte e o Sul? Como proteger o processo eleitoral contra a manipulação tecnológica? A cidade, um dos maiores bastiões progressistas do mundo há mais de um século, ferve nestes dias. Hotéis lotados e câmeras e jornalistas de todo o mundo.
A articulação entre partidos, sindicatos e a sociedade civil organizada em Barcelona visa criar uma infraestrutura de resistência. Trata-se de um “novo internacionalismo” que busca transformar valores em políticas públicas replicáveis. Quando Lula fala em reorganizar as forças para proteger a democracia, ele não está apenas discursando para a plateia de 3.000 delegados; ele está enviando um recado aos mercados e aos movimentos autoritários de que existe uma alternativa viável, estável e popular ao modelo de desmonte social.
Recalque da extrema direita: “Dor de Cotovelo” de quem perdeu o monopólio
É quase fascinante observar a reação colérica dos setores mais radicais da direita diante do GPM. Figuras como o eurodeputado Hermann Tertsch e outros arautos da ultradireita latino-americana e europeia correram às redes sociais para desqualificar o encontro. O tom elevado e os adjetivos depreciativos escondem, na verdade, uma profunda “dor de cotovelo” política. Por muito tempo, a extrema direita vangloriou-se de ter ocupado o espaço da articulação internacional. Eles criaram o seu próprio circuito de eventos, com reuniões frequentes em Budapeste, na Polônia e, claro, com a ruidosa CPAC nos EUA, que tentam exportar para o Brasil e outros cantos da América Latina.
A verdade é que a direita radical acreditava ter o monopólio da mobilização global. Eles se acostumaram a ver o progressismo fragmentado, enquanto eles próprios se organizavam em redes internacionais de financiamento e desinformação. Ao verem Barcelona lotada, com lideranças de alto escalão e uma pauta que ressoa com a vida real das pessoas, o desespero se instala. A crítica de que o GPM é “ilegítimo” soa vazia diante de oito chefes de governo eleitos democraticamente. O que incomoda o campo conservador não é a existência da cúpula em si, mas o fato de que o progressismo parou de apenas lamentar e começou a se organizar com a mesma agilidade e alcance que eles tanto prezam.
Enquanto a extrema direita se reúne para discutir como erguer muros e restringir direitos, Barcelona discute como abrir caminhos. O incômodo de nomes como Tertsch é o maior atestado de sucesso da Global Progressive Mobilisation. Eles sabem que, a partir deste 18 de abril, quando o evento se encerrar, o campo de batalha das ideias não está mais desequilibrado. A “Internacional Reacionária” acaba de encontrar um rival à altura, com mais densidade política, mais apoio popular e, definitivamente, com muito mais visão de futuro. Barcelona não é apenas uma cidade anfitriã; é o ponto de partida para um novo tempo onde a esperança, finalmente, aprendeu a falar todas as línguas e a se organizar em escala global.
Foto: GPM/Divulgação
Texto: Henrique Rodrigues
Fonte: Revista Fórum