Especialistas defendem integração de ações e melhor aproveitamento das oportunidades criadas pelas novas tecnologias
“Somente a burguesia reconheceu completamente o poder estratégico da mídia. Nos campos social e popular, quando se trata de comunicação, o que se observa é um grande atraso.” Foi com essa preocupante assertiva que o jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, Bernardo Kucinski, iniciou o 2° Encontro Nacional de Comunicação, organizado pelo Contraf/CUT. O evento, realizado ontem (16) em São Paulo, reuniu secretários de imprensa do movimento bancário de todo o país, jornalistas e demais profissionais da comunicação atuantes nas entidades sindicais para promover o debate ideológico do campo comunicacional.
Kucinski, primeiro palestrante do dia, iniciou as discussões chamando a atenção para um fato característico da sociedade contemporânea: a ampla democratização da comunicação propiciada pela revolução tecnológica. No entanto, o professor enfatizou que é urgente que os movimentos sociais, os sindicatos e os partidos políticos progressistas deem mais atenção a esse processo e, mais do que isso, aproveitem as oportunidades que ele oferece. “Precisamos investir em uma comunicação democrática. Temos que ter os nossos jornais, que permitam o florescimento de todas as formas de expressão”, disse.
Diante de um cenário em que a mídia tradicional ainda detém um grande poder, mas que já começa a ficar limitado pelas novas tecnologias, Kucinski pontuou ainda o descompasso entre as discussões sobre a comunicação e as questões realmente importantes para a área, além de um esvaziamento crítico nas cobranças de responsabilidade do governo. “O que se nota é uma decadência ética entre os profissionais e uma articulação da máquina política com a comunicacional. E isso é fruto, justamente, da falta de cultura comunicacional da esquerda brasileira”, acrescentou.
Conferência Nacional de Comunicação – O segundo palestrante do Encontro foi o subchefe executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Ottoni Fernandes Junior. Após a crítica feita por Kucinski ao desempenho do governo federal no que tange as políticas de comunicação nacionais, o jornalista – que também apontou para a falta de unidade do campo popular frente à hegemonia da grande imprensa – apresentou as ações de mídia e publicidade que têm sido implementadas no Governo Lula.
Mas o destaque da palestra de Ottoni foi mesmo a Conferência Nacional de Comunicação a ser realizada em dezembro. Ao apresentar os principais objetivos do evento, que deverá reunir representantes da sociedade civil eleitos de todo o país, ele afirmou que será um momento importante para se debater o fim da propriedade cruzada, a concessão para os rádios e a televisões educativas, a mudança do marco regulatório, com a inclusão de legislação para a Internet, e convergência de mídia. “Será um grande fórum em que cada setor da sociedade deve se manifestar. É também o momento para que os movimentos populares se organizem e façam propostas para que sejam debatidos na mesa”, disse.
Desafios das novas tecnologias – Frente às profundas transformações impostas por esta nova configuração do campo comunicacional, um segundo momento de reflexão e debate do dia foi o painel Novas tecnologias e a batalha da comunicação, com o sociólogo e jornalista Venício Lima. O professor iniciou a exposição explicando o papel que as novas ferramentas podem desempenhar na disputa da hegemonia do discurso da sociedade. Segundo ele, a perda de poder dos tradicionais ‘formadores de opinião’ e a desestabilização da credibilidade da grande imprensa são as principais mudanças causadas pelo surgimento e desenvolvimento tecnológico. “Os jornalistas e articulistas dos grandes meios já não são mais os únicos formadores de opinião, pois a chegada da Internet embaralhou esse processo. Mas, apesar das novas tecnologias já estarem desempenhado um papel de contraposição à grande mídia tradicional, ainda não sabemos o tamanho dessa mudança”, concluiu.
Campanha Salarial 2009 – O Encontro Nacional de Comunicação foi finalizado com a apresentação do projeto Rede Brasil Atual – mantido por mais de 50 entidades sindicais e que envolve a Revista do Brasil, um portal na Internet e uma rádio – e da proposta de mídia nacional da Campanha Salarial 2009, que será levada para a 11ª Conferência Nacional dos Bancários, iniciada hoje (17). O secretário de imprensa da Contraf-CUT, Ademir Wiederkehr, também debateu com os dirigentes sindicais e jornalistas a importância de se realizar um trabalho de comunicação integrado com sindicatos e federações, respeitando a autonomia das entidades.
A integração defendida por Wiederkehr começa a ser posta em prática já na cobertura da Conferência Nacional, que está sendo realizada pela Rede de Comunicação dos Bancários. O trabalho conjunto deve ter sequência no decorrer da Campanha Salarial, quando os profissionais da comunicação desenvolverão ações integradas que facilitem a disseminação das informações corretas para a base. “O Encontro representou o início de uma reflexão ideológica sobre a importância da comunicação para que o movimento sindical ocupe de maneira hegemônica esse espaço que vem sendo dominado pela grande imprensa. Essa reflexão, certamente, culminará em um trabalho mais consciente, eficiente e integrado durante a campanha, bem como em uma atuação fortalecida em todos os âmbitos da nossa comunicação”, avalia Sonia Boz, secretária de imprensa do Sindicato dos Bancários de Curitiba.
Por Renata Ortega, com informações da Contraf/CUT.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.bancariosdecuritiba.org.br.