Dentro de poucos dias estará sendo realizada a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que setores do empresariado midiático estão tentando boicotar, por motivos óbvios. De uns dias para cá, os órgãos de imprensa conservadores intensificaram as matérias contrárias à realização da Confecom. Jornais e canais de televisão se valem da velha técnica da mentira muitas vezes divulgada até que vire uma verdade.
É o caso da matéria de O Globo, que para rebater tese do PT sobre o atual marco regulatório das comunicações, a ser apresentada na Confecom, chama para opinar Carlos Alberto Di Franco, da Universidade de Navarra, notoriamente vinculado ao grupo ultraconservador Opus Dei. O que se poderia esperar de sua opinião a não ser uma crítica sem sentido, como toda a matéria em si do jornal, manipulador por excelência?
No mesmo diapasão, outras publicações se valem de mentiras e meias verdades para tentar indispor a opinião pública contra os movimentos sociais e governos de países onde a legislação midiática está em discussão, como na Argentina, onde depois de muitas discussões o Congresso aprovou uma nova legislação disciplinando o setor e esvaziando o poder das grandes corporações. Está sendo assim também no Equador, quando o Congresso discute uma nova legislação midiática.
No jogo da manipulação entra em cena a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) para “denunciar” o que a entidade empresarial considera “perigo para a liberdade de imprensa”, um sofisma para esconder o verdadeiro objetivo, ou seja, a defesa incondicional do lucro fácil das grandes empresas midiáticas.
A propósito da SIP, acabou de ser escolhido para a presidência do conselho da entidade Alejandro Aguirre Baca. Este senhor é diretor do Diário das Américas, um jornal editado em Miami vinculado à extrema direita estadunidense e aos setores mais reacionários das oligarquias latino-americanas. Na equipe de colaboradores encontram-se figuras notoriamente vinculadas aos serviços de inteligência dos Estados Unidos e a grupos de extrema direita do exílio cubano.
Aguirre Barca não vai deixar em paz Cristina Kirchner, o presidente equatoriano Rafael Correa e qualquer outro dirigente latino-americano que ousar democratizar os meios de comunicação. Já estão fazendo coro com ele os grandes proprietários de veículos de comunicação destas bandas como João Roberto Marinho, os Mesquitas, de O Estado de S. Paulo, e os Frias, da Folha de S.Paulo, entre outros.
Mas se o leitor imagina que o esquema do conservadorismo midiático se resume à SIP está muito enganado. A criminalização dos movimentos sociais brasileiros, sobretudo do MST, se insere no contexto da manipulação midiática.
Nas últimas semanas, sobretudo depois do episódio da Cutrale, uma transnacional do agronegócio que exporta laranja, a grande mídia e a direita parlamentar representada pela bancada ruralista do Congresso conseguiu abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o que já foi feito há anos, e não deu em nada, ou seja, as supostas verbas do governo recebidas pelo MST. Em um só momento, os parlamentares que assinaram o pedido da CPI colocaram em questão o fato da Cutrale estar plantando laranjas em terras roubadas do Estado brasileiro.
Para se entender melhor a manipulação e o linchamento midiático que vem sofrendo o MST vale uma navegada na Internet, mais precisamente acessar o site da Abag, a Associação Brasileira do Agronegócio (http:/www.abag.com.br).
Neste endereço o leitor ficará sabendo que a Globo Comunicação e Participações e a Agência Estado (do grupo O Estado de S. Paulo) são integrantes da Associação, juntamente com empresas transnacionais como a Monsanto, Bayer e Syngenta, entre outras. O leitor será informado também que o colunista global Arnaldo Jabor este ano foi um dos palestrantes na abertura do congresso dos empresários de agronegócio. Será por quê?
As Organizações Globo e o grupo O Estado de S. Paulo, mais do que simples apoiadores do setor de agronegócio, são partícipes, ou seja, têm interesses que os lucros do setor sejam cada vez maiores, mesmo que isso aconteça em detrimento da agricultura familiar. Como o agronegócio precisa se expandir, muito em função da crise econômica mundial quem está na frente (como os trabalhadores sem terra) deve ser varrido. A mídia conservadora tem papel de destaque.
Por estas e muitas outras é que a leitura sobre a SIP e a criminalização do MST, bem como os comentários de Jabor sobre os mais variados temas devem ser melhor entendidos depois de se conhecer os detalhes mencionados neste artigo. Da mesma forma que os posicionamentos da SIP sobre liberdade de imprensa.
Por Mário Augusto Jakobskind, que é jornalista, no Direto da Redação.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.vermelho.org.br.
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Aliado da Globo, Serra é campeão da vaia na Confecom
publicada domingo, 22/11/2009 às 23:28 e atualizado segunda, 23/11/2009 às 21:42 | Comentários 15 Comentários
Passei o fim-de-semana na Assembléia Legislativa de São Paulo, a acompanhar a etapa paulista da Conferência de Comunicação (Confecom)*. Foi um processo ríquissimo. Lá não estavam só jornalistas e empresários de comunicação. Não. Parece que a sociedade brasileira (ou, ao menos, seus setores mais organizados) despertaram para um fato: a comunicação é assunto importante demais para ser deixado nas mãos (apenas) dos jornalistas. Ainda bem.
Como em todos os Estados, houve escolha de delegados pelos três setores: sociedade civil, setor governamental e setor empresarial (hipocritamente chamado de “sociedade civil empresarial”).
Na semana passada, escrevi aqui que os grandes empresários (ligados às “teles” e ao grupo Bandeirantes) tentaram dar um golpe: queriam excluir pequenos e micro empresários da delegação que vai a Brasilia – http://www.rodrigovianna.com.br/forca-da-grana/tim-oi-e-telefonica-querem-dar-golpe-na-confecom-elas-ja-entraram-para-o-pig-vamos-reagir.
Só que os pequenos fizeram barulho, bateram o pé, ameaçaram ir pra Justiça… E aí as “teles” recuaram. Na última hora (pressionadas pelo governo Lula, é bom dizer), aceitaram que os pequenos tivessem 20 representantes. As”teles” e a Band ficaram com 64 representantes.
Interessante notar: São Paulo foi o único Estado (até agora) que elegeu representantes empresariais não-alinhados com o grande capital. Uma vitória estratégica. Por que?
Pelo regimento da Confecom, qualquer proposição, para ser aprovada na etapa nacional, em Brasília, precisará cumprir dois requisitos: votos de metade mais um do total de delegados e (atenção!) pelo menos um voto em cada setor representado (empresarial, sociedade civil e govenamental).
Os 20 micro e pequenos empresáriso eleitos por São Paulo, portanto, poderão ter um papel decisivo. Certamente, muitos deles vão votar ao lado dos movimentos sociais (“sociedade civil), o que pode determinar um resultado mais avançado para a Conferência.
Mas, quando falei que o processo que assisti em São Paulo foi riquíssimo, referia-me a outra coisa. Terminadas as negociações entre os empresários (eu participei nesse campo, no lado dos “pequenos”, evidentemente), fui acompanhar as plenárias da sociedade civil. Ali, havia movimentos de moradia, psicólogos, sindicalistas, gente ligada ao Hip Hop, a turma do movimento negro, quilombolas, feministas, associações de rádios comunitárias… Até jornalistas havia!!! Todo mundo louco pra debater e criticar a comunicação que se faz no Brasil.
O mais incrível: no meio desse caldeirão de idéias e tendências, o pessoal da sociedade civil de São Paulo (eram mais de 500 inscritos) teve maturidade para eleger uma chapa única de 84 delegados que irão à Brasilia em dezembro – tudo na base de negociação, exaustiva.
Vi movimento de mulheres aceitando ceder delegados para determinada corrente sindical. Vi uma intensa capacidade de negociação, e um respeito impressionante pelas diferenças.
É algo novo no Brasil.
Um veterano (mas animadíssimo!) militante que acompanhava a plenária a meu lado observou: “esse processo não existe em lugar nenhum da América Latina. É típico do Brasil.”
Interessante observar isso. Na Venezuela, por exemplo, tudo parece mais “politizado”. Só que tudo depende da figura de Chavez. Se ele resolve enfrentar a mídia, aí os chavistas partem pro confronto. Parece (pra quem já esteve lá, e eu estive) muito mais “emocionante”.
O processo no Brasil é mais pactuado, com menos enfrentamento. Em compensação, não precisamos de um líder a apontar o caminho. Não. Plenárias como as que eu assisti em São Paulo ajudam a formar dezenas de militantes que -por anos e anos – estarão combatendo por mudanças, por democracia. Cada um a seu modo. Sem centralismo. Novos “lulas” podem surgir de assembléias como a que acompanhei…
Talvez, as coisas sejam mais lentas assim. Mas acho que devemos (os brasileiros) nos sentir orgulhosos. Do nosso jeito, estamos construindo instâncias muito ricas.
Bem, mas isso tudo não significa que a política passe longe da Conferência. Não. Ao contrário.
Concluídos os debates sobre Comunicação, na sessão de encerramento da etapa paulista, foram apresentadas várias moções (de apoio ou repúdio), sobre temas variados: do apoio à Palestina à memória de Zumbi dos Palmares.
Mas, advinhem qual moção teve mais apoio? A que condenava o governador José Serra por não ter convocado a etapa paulista da Conferência. Sim! Serra, prestando um serviço aos grandes grupos de mídia que fugiram da Conferência (Globo, Abirl, Folha e outros), preferiu se fingir de morto. A Assembléia Legislativa é que teve de convocar a etapa paulista.
Serra recebeu uma vaia consistente. Ah, pura implicância de militantes esquerdistas, dirão alguns. Não. ATé porque o deputado que comandou os trabalhos em nome da Assembléia é do DEM. E foi tratado com muita cordialidade por todos.
Aécio em Minas, por exemplo, convocou a conferência estadual. Serra não. Por isso, foi o campeão da vaia.
Serra pode ter errado no cálculo. Assimo como a Globo, a Abril, a Folha e outros grupos que ficaram de fora da Confecom. Já que falamos em Venezuela, a atitude deles lembra-me a da oposição a Chavez, que se recusou a disputar eleições. Ficou sem representação no Congresso (poderia ter feito 40% dos deputados). Ganhou que com isso? Nada. Só perdeu espaço… O mesmo pode acontecer com Serra, Globo e a turma deles.
Mas isso é e problema deles…
Quase ao fim dos trabalhos neste domingo, a deputada Luiza Erundina (que cumpre um papel importante na Comissão de Comunicação da Câmara Federal) fez um pequeno discurso, e lembrou um nome que tinha passado quase batido até ali: Erundina (que nem é mais do PT) lembrou que a Confecom existiu porque Lula topou convocá-la (contra a vontade da Globo e dos velhos jornais, que boicotam a Conferência).
Erundina foi interrompida para longos aplausos a Lula.
Serra foi o campeão da vaia. Lula ganhou aplausos.
Mas aplausos mesmo merecem os movimentos sociais que toparam comprar essa briga. A guerra será longa.
Reproduzo aqui o discurso de Joaquim Palhares (diretor do site “Carta Maior), na abertura dos trabalhos da etapa paulista. É uma espécie de manifesto, que resume os desafios que teremos pela frente – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16252.
E, para encerrar, lembro a frase de Laurindo Leal Filho (professor de Comunicação da USP), que também falou da abertura: “um país que caminha para se transformar na quinta economia do Mundo não pode mais conviver com uma comunicação de quinta categoria”.
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* A Confecom, é bom explicar, não terá caráter deliberativo. Como acontece com outras conferências nacionais já convocadas por Lula (Saúde, Direitos Humanos, Mulheres…), ela servirá para nortear o debate. A Confecom pode estabelecer diretrizes, por exemplo, para se rever a política de concessões ou de distribuição de verbas públicas. O governo poderá ganhar força para fazer mudanças, porque poderá dizer: “não sou eu que quero, é a sociedade”.
Não se deve, entretanto, esperar mudanças rápidas. Trata-se de processo longo, de acúmulo de forças. Mas a tampa da panela de pressão foi aberta. O vapor não volta mais pra dentro. Pra azar do Serra e da Globo.
Por Rodrigo Vianna, que é jornalista.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.rodrigovianna.com.br.