Dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpar o “comodismo” da população pelos elevados juros cobrados pelos bancos, levantamento feito pelo Banco Central mostra que é cada vez maior o número de pessoas que trocam dívidas contraídas no cheque especial e no cartão de crédito por financiamentos cujas taxas são mais baixas.
A saída encontrada pelos devedores é o empréstimo com desconto em folha de pagamento, cujos juros chegam a ser 50% menores do que as taxas cobradas nas operações tradicionais de crédito pessoal.
O problema é que mesmo a opção mais barata oferecida pelos bancos ainda é cara: juros de 37,1% ao ano, em média, segundo o levantamento. “A taxa é alta? É. Mas é bem mais baixa que as outras”, afirma o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. No cheque especial, por exemplo, os juros médios são de 146,1% ao ano.
Para acompanhar a evolução dos empréstimos com desconto em folha, o BC consultou 13 dos maiores bancos do país. No mês passado, de acordo com a pesquisa, o saldo de financiamentos concedidos chegou a R$ 15,421 bilhões, um crescimento de 22,3% em relação ao valor de dezembro de 2004.
Lopes afirma que essa maior procura reflete, justamente, as menores taxas de juros cobradas nesse tipo de empréstimo. “As pessoas estão buscando crédito mais barato para poder quitar dívidas mais caras”, diz o funcionário do BC.
Na última terça-feira, o presidente Lula disse que um dos motivos para as elevadas taxas de juros bancárias praticadas no Brasil era o “comodismo” da população, que seria “incapaz de levantar o traseiro de uma cadeira” para, na hora de contrair uma dívida, procurar o banco que cobra as menores taxas.
Segundo levantamento feito pelo BC com todas as instituições financeiras que atuam no país, os juros médios praticados nos empréstimos bancários subiram de 47,5% ao ano para 47,8% entre fevereiro e março. Foi o terceiro mês seguido de alta.
Em setembro do ano passado, a taxa média estava em 45,1% ao ano. Foi naquele mês que o BC deu início a uma série de elevações da taxa Selic, que, de lá para cá, passou de 16% ao ano para os atuais 19,5%. A Selic é a taxa praticada nas transações entre os bancos e o BC e serve de parâmetro para os juros cobrados nas demais operações de crédito.
“Spread”
Além do aumento da Selic, os juros bancários também foram influenciados pelo aumento do chamado “spread”, que é a diferença entre as taxas pagas pelos bancos para captar dinheiro no mercado e os juros cobrados dos clientes. Esse “spread”, que, em setembro último, era de 27,7 pontos percentuais, passou para 28,8 pontos no mês passado.
Isso significa que, dos juros médios de 47,8% ao ano cobrados pelos bancos em março, 28,8 pontos percentuais foram apropriados pelos bancos, que usam o dinheiro obtido com essa cobrança para pagar impostos e cobrir seus custos.
Também é do “spread” que sai o lucro obtido pelas instituições financeiras. Os outros 19 pontos percentuais representam o custo que as instituições financeiras tiveram para captar recursos.
Crédito em alta
Mas, mesmo com a elevação das taxas, a procura por empréstimos tem aumentado. De acordo com o Banco Central, o total de crédito disponibilizado pelo sistema financeiro chegou a R$ 506 bilhões no mês passado, o que equivale a 26,7% do PIB (Produto Interno Bruto).
A proporção entre o crédito e o PIB é a maior registrada no país desde maio de 2002. Ainda assim, ela fica atrás dos números observados em outros países emergentes. No Chile, essa relação está próxima de 70%.
Fonte: Folha de São Paulo – Ney Hayashi da Cruz
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