Enquanto Flávio Bolsonaro (PL) questiona o resultado das urnas, a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganha reconhecimento internacional em larga escala. Um levantamento divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta quinta-feira (29) revela que 107 países e 11 organismos e blocos multilaterais já haviam enviado manifestações oficiais e saudações pelo resultado do segundo turno, realizado no último domingo (25).
O reconhecimento atravessa fronteiras e diferenças ideológicas, reunindo algumas das principais potências mundiais e governos de direita. Para acompanhar essas manifestações, a Justiça Eleitoral desenvolveu um painel que monitora continuamente as declarações internacionais, com atualizações automáticas a cada 15 minutos.
Potências mundiais reconhecem vitória de Lula
Entre os países que se manifestaram estão China, Alemanha, França, Espanha, Canadá, Rússia, Austrália, Portugal e Reino Unido. Segundo o TSE, as mensagens enviadas por lideranças internacionais destacam a maturidade democrática brasileira e a eficiência do processo eleitoral que garantiu a reeleição de Lula.
As congratulações também partiram de governantes de direita, como José Antonio Kast, do Chile; Keiko Fujimori, do Peru; e Daniel Noboa, do Equador. Apesar das divergências políticas com o presidente brasileiro, os três reconheceram sua vitória e defenderam a continuidade da cooperação entre os países.
O movimento contrasta com a postura de Flávio Bolsonaro, que anunciou após a derrota que não reconheceria o resultado e buscaria a anulação do pleito. O próprio PL, entretanto, divulgou uma nota na segunda-feira (26) reconhecendo oficialmente a vitória de Lula, embora tenha mantido questionamentos sobre aspectos da disputa eleitoral.
TSE cria painel para acompanhar reconhecimento internacional em tempo real
Para dar transparência à repercussão mundial das eleições, o Tribunal Superior Eleitoral colocou em funcionamento o Painel de Acompanhamento de Manifestações Internacionais sobre os Resultados Eleitorais, ferramenta que reúne as declarações de governos e instituições multilaterais.
O sistema realiza varreduras automáticas a cada 15 minutos, identificando notas de congratulação, pronunciamentos de chefes de Estado e manifestações de chancelarias estrangeiras. Os dados permitem acompanhar a evolução do reconhecimento internacional ao resultado das urnas brasileiras.
Acesse aqui o painel de reconhecimento internacional das eleições de 2026, disponibilizado pelo TSE.
Entre as 11 organizações e instituições multilaterais que se manifestaram estão a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia, o Sistema das Nações Unidas (ONU), a União Africana, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Conselho Europeu e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
Para a juíza Renata Gil, diretora de Assuntos Internacionais do TSE, a abrangência das manifestações “demonstra a credibilidade internacional em nosso sistema eleitoral”. A magistrada também destacou que a participação popular expressa a confiança dos brasileiros na Justiça Eleitoral e fortalece o trabalho de consolidação da democracia.
Mais de 64 milhões de votos confirmaram reeleição de Lula
A dimensão do reconhecimento internacional ocorre após uma eleição decidida por mais de 4,4 milhões de votos de diferença. Lula conquistou 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A vitória matemática do presidente foi confirmada às 21h09 de domingo (25), quando a totalização dos votos atingiu um estágio em que a vantagem do petista já não poderia ser revertida. O resultado foi posteriormente proclamado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.
O segundo turno mobilizou aproximadamente 128,2 milhões de eleitores, de um universo superior a 158 milhões de brasileiros aptos a votar. A abstenção ficou em 19,2%, abaixo dos 21,08% registrados no primeiro turno.
Ao anunciar oficialmente o resultado, Nunes Marques destacou o papel dos eleitores e agradeceu aos profissionais envolvidos na organização da votação. Para o TSE, a rapidez da apuração, a participação popular e as manifestações recebidas de governos e organismos internacionais reforçam a confiança no processo eleitoral brasileiro.
A marca de 107 países e 11 organismos, registrada na tarde de quinta-feira (29), representa o alcance das manifestações contabilizadas naquele momento. Com o monitoramento automático do painel, novos reconhecimentos podem ser incorporados ao levantamento.
Trump e Milei silenciam, mas Embaixada dos EUA reconhece vitória de Lula
Entre as principais ausências na lista de manifestações internacionais estão os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, que até esta quinta-feira (29) não haviam parabenizado Lula pela reeleição. O silêncio de Trump, porém, contrasta com a avaliação da própria Embaixada estadunidense em Brasília, que classificou a vitória do petista como “definitiva” e “surpreendente” em relatório enviado ao Departamento de Estado na segunda-feira (26). O documento destaca que observadores internacionais não levantaram dúvidas sobre o resultado e que a prorrogação do horário de votação, utilizada por Flávio Bolsonaro para contestar a derrota, não teve impacto significativo na apuração.
A postura de Trump também ocorre em meio à fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, após descumprir uma determinação do STF para entregar seus passaportes. O senador desembarcou em Miami na quarta-feira (28), depois de deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina. Trump e integrantes de seu governo ajudaram o candidato derrotado a entrar em território estadunidense, onde recebeu uma autorização temporária de permanência. Enquanto o presidente dos EUA evita reconhecer publicamente a vitória de Lula, sua representação diplomática no Brasil registra a legitimidade do resultado eleitoral.
Foto: Ricardo Stuckert
Texto: Ivan Longo
Fonte: Revista Fórum