A uberização do trabalho não nasceu com os aplicativos e tampouco se limita a motoristas e entregadores. Ela faz parte de uma transformação mais profunda das relações de trabalho, marcada pela informalização, terceirização, transferência de riscos e custos para os trabalhadores e pelo uso crescente de tecnologias para controlar e organizar a força de trabalho.
Essa é a avaliação da pesquisadora Ludmila Costhek Abilio, da Unicamp, que há anos estuda as transformações no mundo do trabalho. Para ela, compreender a uberização exige olhar menos para os aplicativos e mais para a forma como o trabalho passa a ser organizado.
“Eu entendo que ela é um novo tipo de controle, gerenciamento e organização do trabalho. E o principal elemento dessa nova forma de organização do trabalho é reduzir os trabalhadores a trabalhadores sob demanda”.
Na prática, isso significa uma mudança profunda na relação entre trabalhador e empresa. Em vez de uma relação claramente estabelecida, com contrato, jornada, remuneração e responsabilidades definidas, cresce uma força de trabalho que permanece disponível e é acionada conforme a necessidade.
“São trabalhadores que não têm nem mesmo um contrato de trabalho claramente estabelecido e que não têm nenhuma definição acordada sobre qual o tempo de trabalho deles, qual o valor desse trabalho e quanto eles ganham por dia”.
A discussão ganha outra dimensão quando envolve serviços essenciais, como energia elétrica, saneamento, manutenção urbana e outros serviços públicos submetidos a processos de privatização, terceirização e externalização como já vem ocorrendo em São Paulo.
Ludmila considera que é preciso cautela para afirmar que o Estado já esteja completamente uberizado. Para ela, porém, existem sinais concretos de aproximação com essa lógica, especialmente quando a terceirização cria formas de trabalho sob demanda.
“O Estado, eu não sei se ele já tem um mecanismo que possibilite usar dessa forma o trabalho amador. Ele deve estar bem perto disso. Mas eu não sei se ele já conseguiu institucionalizar esse tipo de uso”.
A pesquisadora ressalta, entretanto, que a uberização já pode ser observada dentro de determinados serviços públicos.
“Estamos caminhando para uma uberização dos serviços públicos há muito tempo. Um dos exemplos são professores na rede pública que são usados sob demanda, que ficam ali à disposição do Estado e são utilizados somente quando necessário para substituição de alguém que faltou. Isso já é um exemplo de uberização”.
O caso dos professores temporários, segundo ela, ajuda a compreender como uma força de trabalho pode permanecer disponível para ser acionada conforme a necessidade do serviço, sem necessariamente contar com as mesmas garantias de um servidor efetivo.
Quando essa lógica é aplicada a setores como energia, água e manutenção urbana, os efeitos podem ultrapassar a relação entre empresa e trabalhador. A precarização da força de trabalho pode atingir a própria qualidade do serviço prestado à população.
Emprego formal, informalidade e terceirização convivem
Na avaliação da pesquisadora, empresas e instituições podem combinar diferentes modalidades para obter a força de trabalho de acordo com suas necessidades.
“Então você tem articulações que vão conseguir combinar, dependendo do melhor uso da força de trabalho, emprego formal com trabalho informal, com diversos tipos de terceirização”.
Essa combinação é particularmente importante quando se observa o avanço das concessionárias privadas sobre serviços essenciais.
“Serviços essenciais da população estão sendo altamente terceirizados, isso a gente já sabe. A gente sabe o quanto isso degrada tanto o trabalho como a qualidade dos serviços”.
Para Ludmila, a experiência cotidiana da população permite questionar a promessa de que a privatização e a terceirização necessariamente produziriam serviços melhores.
“A gente vive cotidianamente a prova de que essa ideia de que é ineficiente e as empresas privadas irão prover o melhor serviço. Cotidianamente a gente vive o fato de que são monopólios que vão precarizando as nossas condições de vida e as condições de trabalho dos trabalhadores desses setores”.
O trabalhador que aparece como usuário
Uma das novidades que a pesquisadora identifica é a possibilidade de empresas utilizarem pessoas que não são reconhecidas formalmente como trabalhadores, mas que realizam tarefas úteis para a atividade empresarial.
“Ela mostra hoje que as empresas já detêm meios tecnológicos e políticos de englobar na sua força de trabalho essas figuras que vão aparecer meio como consumidores, meio usuários, meio trabalhadores que estão aí disponíveis.”
O resultado é uma fronteira cada vez mais difícil de identificar entre consumidor, usuário e trabalhador.
“E que ela vai recrutar sem custo algum, sem risco algum, sem proteção nenhuma. São figuras que vão ocupar um espaço que é meio indistinto e complexo”.
Para a pesquisadora, esse processo também se articula com mecanismos de vigilância e exploração.
“Então, de repente, eu estou fotografando uma coisa que o meu vizinho denunciou. Olha como as coisas vão se articulando: vigilância, exploração do trabalho, novas formas do trabalho. Tudo isso vai se articulando de uma forma muito nova, mas, para o lado da empresa, é muito racionalizada.”
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A estabilidade do funcionalismo como barreira à uberização
Nesse cenário, a estabilidade do funcionalismo público aparece como um dos principais limites à expansão dessa lógica.
“O reduto ainda protegido da uberização, de alguma forma, é o funcionalismo público que conta com uma estabilidade que lhe garante todas as determinações sobre tempo de trabalho, remuneração, tempo de descanso e férias”.
Esse espaço, porém, está permanentemente em disputa, afirma a pesquisadora. Mudanças na gestão, novas formas de avaliação e contratação, terceirizações e parcerias podem alterar progressivamente as relações de trabalho dentro do Estado.
“As parcerias público-privadas, as ONGs, várias formas de arranjos vão possibilitando, de alguma forma, esse uso da força de trabalho no modo sob demanda para o Estado”.
Por isso, Ludmila evita tratar a transformação como um processo linear em que um modelo simplesmente substitui outro. O que ocorre, segundo ela, é a combinação de diferentes formas de contratação e organização do trabalho.
“Eu acho que é importante a gente não ter um pensamento evolucionista como se uma forma de organização fosse substituindo a outra. O que nós estamos vendo é algo mais complexo”.
O trabalho que se informaliza
Para Ludmila, a principal característica da uberização é justamente esse processo de informalização, que pode atingir inclusive trabalhadores que continuam formalmente empregados. O problema, segundo ela, não está apenas no tipo de contrato, mas na perda de referências sobre jornada, remuneração, responsabilidades e direitos.
“Eu chamo isso de processo de informalização. Mas, para o lado das empresas, tudo isso são informações. E daí a importância hoje dessas novas tecnologias que possibilitam transformar em dados uma enormidade de elementos da vida social”.
A pesquisadora chama atenção para uma diferença fundamental. Enquanto o trabalhador perde garantias e passa a assumir riscos e custos que antes eram das empresas, estas conseguem transformar as informações sobre o trabalho em instrumentos de gestão.
“Empresas hoje externalizam, terceirizam esse serviço e transformam tudo isso numa gestão altamente racionalizada, eficiente e cada vez menos custosa para ela e com cada vez menos riscos na gestão da força de trabalho”.
É nesse ponto que, para Ludmila, tecnologia e precarização se encontram. A plataforma ou o aplicativo não são a origem do processo, mas instrumentos que permitem aprofundar uma transformação que já vinha ocorrendo há décadas.
“A gente precisa compreender isso com profundidade. E a uberização vem na esteira de um processo de vários elementos que regem os processos de trabalho. Isso não se iniciou com o aplicativo”.
Do home office aos serviços sob demanda
A pesquisadora destaca que a precarização também pode avançar dentro do emprego formal. O home office é citado como exemplo de uma transformação na qual custos e responsabilidades podem ser deslocados para o trabalhador.
“Eu, o trabalhador, passo a ficar com uma série de custos sobre o meu trabalho que não são mais contabilizados e até muitos deles são difíceis de contabilizar. O café, a água, a luz da minha casa, meus móveis, tudo se torna parte do meu trabalho e eu fico com aquilo”.
A questão não se restringe aos gastos. Também há mudanças na própria relação com o tempo de trabalho.
“Quando não há esse controle, o que está acontecendo é uma nova forma de gerir esse tempo de trabalho que vai se articular com um monte de outras atividades e você já não sabe mais quantas horas. O trabalho vai colonizando todo o seu tempo”.
Para Ludmila, esses processos produzem uma combinação de extensão não contabilizada da jornada, intensificação do trabalho e transferência de riscos e custos.
“São processos, dentre muitos outros, que correm tanto pelo lado do trabalho informal como do trabalho formal e que vão transformando as relações de trabalho e se traduzindo em transferência de riscos e custos para os trabalhadores, extensão não contabilizada do tempo de trabalho, formas difíceis de identificar de intensificação do trabalho”.
A conta da precarização
A pesquisadora defende que a discussão sobre uberização não pode ficar restrita ao trabalhador que perde direitos. É necessário também observar quem assume os custos sociais decorrentes da precarização.
“Voltando aí nosso olhar para o Estado, que é como o Estado e a sociedade vão arcando no presente e no futuro com a degradação do trabalho e da saúde dos trabalhadores que está sendo promovida nessas novas formas de gerenciamento do trabalho”.
Nesse sentido, discutir a chamada “uberização dos serviços públicos” significa observar não apenas quem presta o serviço, mas também como esse trabalho é organizado, quem assume os riscos e quais consequências recaem sobre a população.
Para Ludmila, a questão central é compreender que a uberização não representa simplesmente a substituição do emprego tradicional por aplicativos. Trata-se de uma transformação mais ampla, que pode combinar emprego formal, terceirização, informalidade, tecnologia, vigilância e trabalho sob demanda. Ela chama atenção para a experiência dos trabalhadores terceirizados e para os impactos que novas formas de gestão podem produzir sobre a saúde.
“Então nós estamos vendo os processos de adoecimento, nós estamos vendo, no caso dos motoboys, os trabalhadores se quebrarem todos os dias, num movimento crescente de aumento de acidentes, de aumento de mortes que estão associados a essas novas formas de controle e gerenciamento do trabalho”.
Ludmila destaca que os problemas não terminam no local de trabalho. Quando as condições de trabalho se deterioram, os custos podem ser transferidos para toda a sociedade.
“A gente está vendo um processo de deterioração dessas condições de trabalho e isso tem custos enormes para o SUS, para todo o sistema previdenciário, para a sociedade como um todo”.
A experiência dos motoboys é, para ela, um alerta sobre o que pode ocorrer quando novas formas de gerenciamento aprofundam uma atividade que já era marcada por riscos.
“Os motoboys sempre tiveram condições de trabalho altamente arriscadas, insalubres, se acidentavam muito, mas isso está crescendo.”
“Nós estamos vendo os processos de adoecimento, no caso dos motoboys, os trabalhadores se quebrarem todos os dias”, alerta a pesquisadora, ao destacar que os efeitos dessas mudanças ultrapassam o local de trabalho e atingem famílias, serviços públicos e toda a sociedade.
A multidão disponível e o trabalhador just-in-time
É nesse contexto que Ludmila utiliza o conceito de “trabalhador just-in-time”. A expressão ajuda a explicar uma força de trabalho que permanece disponível e é acionada de acordo com a demanda.
“E aí a gente tem que olhar para essa multidão. Isso também é um elemento muito importante da uberização. Você passa a ter uma multidão de trabalhadores não contratados que estão ali disponíveis”.
Segundo ela, não se trata apenas da informalidade tradicional. Há uma perda ainda mais profunda de reconhecimento da própria condição de trabalhador.
“É uma informalidade em que você nem reconhece esse cara como trabalhador. Mas ele está ali executando um trabalho para a empresa”.
O conceito de just-in-time vem das formas de organização da produção associadas ao Toyotismo (modelo de produção industrial, focado em eliminar desperdícios e produzir apenas o necessário conforme a demanda, criado no Japão nas décadas de 1950 e 1970, na montadora Toyota). Em vez de produzir antecipadamente, busca-se organizar a produção de acordo com o momento da demanda. Aplicado ao trabalho, o conceito ajuda a compreender a disponibilidade permanente de trabalhadores que são mobilizados quando necessários.
“Essa é uma discussão muito importante e que ajuda a gente a compreender transformações contemporâneas do trabalho”.
Ludmila lembra que o sociólogo Francisco de Oliveira já discutia, no início dos anos 2000, a figura do “trabalhador just-in-time”.
“E ele já no início dos anos 2000 falava nesse trabalhador just-in-time. Que trabalhador que está ali vai sendo recrutado, numa perda de limites sobre o que é, o que não é tempo de trabalho”.
A uberização antes dos aplicativos
A pesquisadora ressalta que a uberização é anterior à própria Uber. Em sua pesquisa de doutorado, concluída em 2011, ela estudou as revendedoras de cosméticos e identificou uma forma de organização do trabalho que antecipava elementos hoje associados às plataformas digitais.
“Então a uberização precede essa conversa sobre as plataformas digitais. As empresas de cosméticos que contratam revendedoras já são exemplos de uberização sem nem ter esse nome ainda. É muito mais antigo que isso”.
Essas empresas conseguiram organizar uma enorme rede de revendedoras sem que elas fossem reconhecidas socialmente como trabalhadoras da mesma forma que os empregados tradicionais.
“Do lado de fora é isso. É uma multidão de mulheres que não são realmente reconhecidas como trabalhadores que deveriam ter proteções, direitos organizados, etc. Mas que realizam toda a distribuição dos produtos”.
O modelo também transfere para as revendedoras riscos que normalmente estariam associados à produção e à comercialização.
“Quem corre esses riscos são as mulheres. Os estoques estão nas gavetas de dois milhões de mulheres. Então isso é a produção just-in-time”, conclui.
Texto: Rosely Rocha
Fonte: CUT