A esquerda brasileira, latina e mundial tem dois processos centrais de combate relativos à produção de seu projeto de classe
A esquerda brasileira, latina e mundial tem dois processos centrais de combate relativos à produção de seu projeto de classe. 1. Para fora, a luta, ruptura e superação dos princípios e práticas burguesas. 2. Para dentro, a disputa dialógica com os pares, em que o cultivo, o estudo, a formação, os encontros coletivos sejam o fundamento da compreensão sobre a necessária produção de uma nova sociedade que nos interesse enquanto classe.
Mas como sonhar com um novo processo social-econômico-cultural, projetar o ainda não realizado, em meio à aparente vigência onipotente do capital? Como ser, se sentir, pertencer à classe trabalhadora se a realização do trabalho e o sonho sobre o devir estão, em geral, subordinados ao poder do capital que extrai, expropria, rouba o tempo do trabalho?
Estas perguntas nos remetem a alguns desafios que necessitam ser refletidos em conjunto para que seja consolidada uma práxis renovadora tanto das esperanças, quanto dos caminhos possíveis das trilhas do caminhar revolucionário.
1º. Desafio: Diálogo rigoroso, claro, e sem desqualificação do divergente. Um dos principais problemas da esquerda está na forma de explicitação entre seus pares de seu conteúdo de classe. Em muitos momentos a esquerda reproduz o que de mais perverso há no processo burguês de produção linear: a capacidade de tornar o outro invisível, a partir do aniquilamento da escuta-fala-reflexão.
O desafio dialógico entre camaradas tem a intenção de aprofundar os temas gerais, mas não tornar superficial as relações entre os que tomam partido em favor da classe que vive do trabalho.
Este tema é central, dada a dificuldade em pleno século XXI de se dialogar a partir da escuta real do que o outro quer dizer. Isto nos remete a uma característica chave do bom diálogo que é o de não responder imediatamente, com a pressa comum própria da sociedade do roubo do tempo.
Isto requer para os que falam e escutam o tempo do silêncio. Tempo que nos remete à calma, ao cuidar específico da compreensão sobre o que se diz e como se estrutura a forma e o conteúdo deste dizer da maneira em que faz o interlocutor.
Esta reflexão sobre o dito e o posterior comentário de quem escuta para depois falar, requer um ponto de referencia do diálogo relativo à manifestação do pensamento e da linguagem que envolve este dizer. São, pois, sujeitos dialógicos mediados por conceitos, conteúdos, métodos que o aproximam, ou afastam, na compreensão real dos fenômenos relatados.
2º Desafio: Disciplina e concentração. A disciplina é central para, assim como se necessita qualificar o ouvir, também se necessita qualificar o falar. E para tanto é necessário um processo de imersão no conhecimento acumulado sobre o processo vivido pelos trabalhadores ao longo de seu caminhar histórico.
Tratamos da disciplina que nos educa para a arte de buscar nossas referências, enquanto compreendemos as que pautam a qualificação de nossos interlocutores. Disciplinar para a qualificação da fala e da escuta, nada tem a ver com educar para uma única lógica e um único conteúdo de classe. Tem a ver com o rigor no método, na problematização, na compreensão da totalidade do processo.
Disciplina para compreender o que ainda não se compreende, tanto sobre como funciona a sociedade protagonizada pelo trabalho e dominada pelo capital, quanto como funcionará a sociedade cujo poder esteja concretamente nas mãos da classe trabalhadora.
Tempo de disciplina é tempo de nos educarmos-formarmos juntos para termos referências comuns nos diálogos que pautamos.
Toda disciplina requer uma concentração para realmente estarmos envolvidos naquilo que fazemos. Concentrar-se no quefazer significa não fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Eleger o prioritário e atacá-lo em conjunto demanda tempo e estudo sobre as estratégias e táticas da ação reflexiva.
A concentração é chave, tanto porque fomos educados para a dispersão, quanto porque ao longo do nosso caminhar histórico, mediado pelo domínio do capital, a artimanha encontrada para a opressão e exploração, foi a alienação através do roubo real do tempo de pensar, agir, refletir.
3º desafio: paciência histórica. A paciência é avessa ao imediato. Portanto, coloca as coisas nos seus devidos lugares. Quanto mais se rouba o tempo e se dimensiona o viver sob a lógica imperante do ter sobre o ser, tanto mais temos o compromisso de cuidar para não aniquilar ainda mais nossos encontros como classe, com sujeitos que já não se sentem pertencentes a ela.
A paciência histórica requer da esquerda que não nos vejamos como inimigos por falta de referenciais, mas que consigamos, juntos tecer estes referenciais que nos conectam, com base em pautas, lutas, formações concretas. Sem paciência não se aprende nada.
A paciência nos remete à condição histórica de nossa formação, enquanto sujeitos que se sabem inacabados. E como tais, tecem, aos poucos, com o cuidado necessário, o processo de um caminhar convicto, cujas bases não se desmancham no ar, por falta de referencias que vão, pouco a pouco, tomando a forma necessária do conteúdo de classe.
Paciência, para dentro da esquerda, é cultivo que não aceita transgenia, nem aceleração de um tempo de aprendizagem que não pode ser tomado como único, de cima para baixo, dadas as condições reais de vida da classe trabalhadora na atualidade.
4º. Desafio: práxis reflexiva-revolucionaria-propositiva. A práxis é uma característica chave da filosofia marxista que não separa, nem distingue a teoria da prática; o saber popular do saber acadêmico; o processo histórico e a atualidade; a ação e a reflexão; a ética e a moral pública e privada.
A filosofia da práxis ao ser aprofundada nos remete tanto ao que fizeram de nós, enquanto classe, quanto ao que nós mesmos fomos consolidando sobre nós.
Se, por um lado o capital foi ousando em sua pretensão de nos invisibilizar como sujeitos da ação-reflexão, por outro lado nós trabalhadores, ao tomarmos partido e falarmos como classe também não fomos capazes de, ao estar juntos, nos reconhecermos para além daquilo que fizeram de nós.
Uma síntese dos complexos desafios:
Fomos formados em uma cultura de formatação da aprendizagem e do saber. Como tais, o pouco que sabemos não se conecta com uma totalidade manifesta na relação dos homens consigo mesmos, com a natureza e com os demais seres.
Quebrar os compartimentos do saber e colocá-los em permanente diálogo, é redescobrir pontos comuns em diversas áreas que não são divergentes. Instituir o diálogo entre saberes e construir a partir disto, novos elementos que em conjunto sustentam renovadas bases de conformação de outro projetar sobre o real vivido.
Por isso, estes quatro desafios conectados nos remetem a um processo central de um pensar coletivo da esquerda sobre o significado de uma ética e uma moral de classe que não tolere mais a separação para dentro, a degradação de nossos sentidos de pertença e de projeção sobre nosso caminhar, nas mesmas bases burguesas consolidadas pelo capital.
Ética e moral que nos permitam o rigoroso enfrentamento de ideias na conformação de nosso projeto, mas que não nos separem no processo dialógico de pensar nosso atual, e futuro, referencial prático-reflexivo de classe.
Sabemos que instituir uma sociedade sem opressores nem oprimidos, sem explorados nem exploradores, em que o direito social e humano seja preponderante, são elementos constitutivos da luta protagonizada pela classe trabalhadora, em seu afã de romper e superar os mecanismos do capital.
Para tanto, vale a pena repensarmos os ensinamentos de marxista filósofo alemão Ernest Bloch sobre a arquitetura da esperança, “uma arquitetura que se realiza na nova terra. Nos sonhos de uma vida melhor sempre residiu o anseio de felicidade, que só pode ser inaugurado pelo marxismo.”
Por Roberta Traspadini, que é economista, educadora popular e integrante da consulta popular-ES.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.brasildefato.com.br.
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2010: afinal, o que estará em disputa?
Há uma análise recorrente que procura convencer a todos que não há diferenças significativas entre os possíveis candidatos à presidência em 2010. Ciro Gomes, José Serra e Dilma Roussef teriam perfil idêntico. Todos teriam um histórico de esquerda, seriam executivos, ativos no campo administrativo, mas neófitos no campo da política, diferentemente de FHC e Lula, animais políticos.
A diferença estaria em Marina Silva, com perfil ético e ambiental, mas sem condições de debater os temas que terão mais força na campanha eleitoral, como o desenvolvimento econômico e social, o papel do Estado como indutor desse desenvolvimento e a integração física da América do Sul. Em vista disso, a agenda posta para a campanha seria aquela determinada pelo grupelho que monopoliza a economia do país, constituído pelo agronegócio, sistema financeiro e grande indústria.
Diferentemente dos anos 1950 e 1960, quando a questão nacional teria se relacionado com a questão popular, e ocorrera disputa entre ambas pela hegemonia, hoje esta hegemonia estaria nas mãos dos grandes potentados. Estes estariam em condições de impor o que quiserem em relação ao desenvolvimento, ao Estado e às relações com os demais países. O que tenderia a transformar a campanha de 2010 numa batalha entre marqueteiros.
Por outro lado, os autores dessa previsão não conseguem negar que Lula conseguiu impor ao agronegócio a questão ambiental e o convívio com a agricultura familiar, elevando 30 milhões de pessoas a um novo patamar de consumo e enfrentando a questão social como um todo. Nem se deram conta que só isto bastaria para colocar em dúvida a análise de que o grupelho que monopoliza a economia do país determinaria a agenda nacional.
Porém, para fugir dessa armadilha que eles mesmos armaram, ao admitir que o governo Lula impôs ao agronegócio, ao sistema financeiro e à grande indústria algo que não lhes passava pela cabeça, realizando uma harmonização entre contrários, os autores dessa análise concluem que tal harmonização não poderá persistir por muito mais tempo.
Porém, não porque os potentados irão se insurgir contra ela, forçando o governo a voltar atrás, ou a enfrentá-los com o apoio dos milhões de beneficiados pelas políticas sociais. Nada disso. Tal harmonização não persistirá, afirmam, principalmente porque Dilma não estaria vocacionada para tanto. Ela pensaria o desenvolvimento e a questão nacional de forma tecnocrática e desvinculada da sociedade civil e dos movimentos sociais, o que seria perigoso, por fortalecer o Estado burguês.
Assim, essa análise aparentemente neutra consegue dizer que Serra e Dilma possuem o mesmo perfil, mas conclui que apenas Dilma estaria vocacionada a fortalecer o Estado burguês, por ser incapaz de relacionar a questão nacional com a questão popular. Ou seja, ela estaria fadada a sucumbir nos esforços para manter a harmonização entre contrários, que o animal político Lula teria conseguido.
Implicitamente, a esquerda estaria cometendo um erro brutal se optar por ela. O mesmo erro em que incorrerão os movimentos populares se não considerarem que Dilma, embora em condições de participar do debate sobre os grandes temas nacionais e sociais, tenderia a ficar atrelada à agenda predeterminada pelos potentados do agronegócio, do sistema financeiro e da grande indústria.
Esse certamente será o núcleo do ataque a Dilma, seja do esquerdista Serra ou Aécio (é impressionante como ainda há gente que divulga que os tucanos são de esquerda), seja da ambientalista Marina, partindo-se do pressuposto de que Ciro talvez não dispute a presidência. No tema social, os tucanos, sempre aliados aos demos, se esforçarão para demonstrar que a continuidade do campo político que apóia o governo Lula somente beneficiará aos potentados.
Eles já vêm praticando esse discurso, cada vez mais parecido com o discurso de Collor em 1989. Citam a lucratividade do sistema financeiro, do agronegócio e da grande indústria, e comparam isso às migalhas que os programas sociais do governo Lula supostamente distribuem entre os pobres. Continuam dizendo que o governo gasta muito e presta poucos serviços, e mal. E denunciam, a toda hora, o mensalão e casos de corrupção envolvendo petistas e seus aliados, como se tucanos e demos fossem o exemplo supremo da ética pública.
Aproveitam-se, e muito, do discurso de uma parte da esquerda, que acusa os planos de desenvolvimento da infra-estrutura como parte daquela subordinação à agenda dos grandes grupos econômicos. Embora com dificuldade, incorporam a seu ideário a agenda ambientalista, a exemplo do que já vem sendo feito por um grupo considerável de empresários, que fala muito na defesa do meio ambiente, está ingressando no PV, mas pratica a poluição desbragada.
Na questão nacional, acusam a política externa brasileira de ideológica. Ela esqueceria os interesses nacionais ao ajudar governos de esquerda e ditatoriais (realizar plebiscitos ou referendos populares teria se tornado uma tendência ditatorial), estimulando negócios escusos com governos condenados pela comunidade internacional.
Olhando em perspectiva, as eleições de 2010 tendem a ser extremamente polarizadas. Elas podem até ter quatro ou cinco candidatos. Porém, muito mais do que em 1989, 2002 e 2006, devem estar em contraposição dois projetos. A direita e parte da esquerda se esforçarão para demonstrar que são elas, e não Dilma, Lula e o PT, que estão do lado das camadas populares. Contam com que Lula não consiga transferir a totalidade ou a maior parte de seus votos para Dilma, e que esta não esteja mesmo vocacionada para levantar com firmeza a bandeira popular.
A grande questão consiste, então, em saber se Dilma e seus apoiadores, tendo o PT à frente, mesmo sem perder a ternura, serão ou não capazes de esclarecer o projeto que os diferencia de seus opositores.
Por Wladimir Pomar, que é escritor e analista político.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.