O terceiro dia de atividades da 8ª Jornada de Agroecologia, que reúne 3.500 pessoas no Centro de Exposição de Francisco Beltrão até amanhã (30), deu continuidade ao ciclo de conferências iniciadas ontem. Hoje (29) as plenárias se concentraram na questão do uso ostensivo do agrotóxico e a importância das sementes na construção da soberania alimentar.
O professor e sanitarista, Alfredo Benatto, que ministrou uma palestra sobre a contaminação dos alimentos e suas conseqüências para a população. Após um breve relato sobre as condições de existência do ser humano, Benatto, discorreu sobre o modelo agrícola atual que foi adotado após a 2ª Guerra Mundial devida a produção de venenos e maquinários que, com o término da mesma, precisavam de destino.
Com a chegada da Revolução Verde, a lógica de cultivo passou a ser pautada no uso de agrotóxicos com o intuito de aumentar a quantidade de alimentos, no latifúndio e na monocultura. Segundo o palestrante, na época a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção crescia em progressão aritmética, ou seja, com esta diferença estabelecida não teríamos alimentos disponíveis para todo o mundo. “A Revolução Verde veio com a proposta de acabar com a fome no planeta, mas não acabou.”
Uma questão ainda pouco discutida na sociedade geral são as consequências reais que este modelo de produção tem causado para a população mundial. “O uso de venenos para produzir deixa a planta, o alimento doentes, nós consumimos e depois vamos atrás de medicamentos nas farmácias para curar alergias, por exemplo.”
O consumo de alimentos produzidos com agrotóxicos e o aumento no desenvolvimento de doenças estão diretamente ligados. “Câncer, alergias, problemas com fertilidade. É isso que o agrotóxico faz”, ressaltou.
Segundo Benatto, o herbicida Alacor, muito utilizado em lavouras de milho, favorecem o câncer de fígado, assim como organosfosfatos (substância encontrada nos agrotóxicos) e carbonatos, usados em lavouras de fumo, causam neurotoxidade. “Já existem casos em que o contato direto com estas substâncias estimula a depressão. Sendo que, o aumento no índice dos suicídios em algumas regiões já é fato consumado.”
A concentração de inseticidas em alguns alimentos é preocupante. O pimentão está no topo da lista com 64,36%, seguido do morango (36,05%), e da uva (32,67%).
De acordo com o sanitarista as multinacionais que dominam a fabricação de agrotóxicos faturam U$ 39 bilhões com a venda do produto. Este grupo de oito empresas tem um faturamento maior que o Produto Interno Bruto (PIB) de 130 países. No Brasil, de 2000 a 2007, as empresas tiveram um aumento na considerável arrecadação. A Bayer, por exemplo, obteve lucro de U$ 22,3 milhões.
Hoje o que vemos são os resultados da Revolução Verde. A perda do material genético, a contaminação das águas e dos alimentos, a alteração na qualidade biológica destes, a redução da absorção de trabalhadores na atividade agrícola que gerou o empobrecimento desta classe, além do êxodo rural, resultaram nas crises social e ambiental vivenciadas. “Somos especialmente dotados de sabedoria, portanto responsáveis pelo futuro dos nossos filhos.”
“Precisamos construir outro modelo de agricultura”
A fala é do Frei Sérgio Görgen, representante da Via Campesina durante a conferência sobre a As Sementes e a Soberania Alimentar. De acordo com o Frei, o mistério das sementes está no segredo da multiplicação. “A partir de uma única semente, se produz inúmeras dela.”
Frei Sérgio lembrou que não é fácil, diante do atual modelo, produzir alimentos a partir de uma outra lógica. Conforme ele é preciso ter persistência e luta diária. Mas por onde começar? Para o palestrante o primeiro passo é produzir para o consumo próprio, seguido do armazenamento e conservação das sementes. “Temos que espalhar e multiplicar sementes crioulas. O debate é importante, mas precisamos enfrentar e partir para a prática.”
A questão da terra, da água, das sementes ou mudas e da energia são as quatro principais batalhas que temos de enfrentar, segundo Frei Sérgio. “Esses elementos, que ao longo de décadas foram tiradas de nossas mãos, são do povo e nós já somos vitoriosos porque a humanidade precisa dessa mudança diante das atuais crises ambiental e do alimento. Nós temos a solução nas mãos”, finalizou.
Fonte: Assessoria de Comunicação CPT Paraná
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cpt.org.br.