No último ano de Governo FHC, em 2002, a economia cresceu 2,7%. Em 2011, o PIB crescerá algo semelhante. O Brasil fará um pibinho. O Governo da presidente Dilma sabe que o País não pode voltar a era dos pibinhos de FHC, quando a economia crescia em média por ano, 2,3%.
O PIB brasileiro crescia na Era Lula 2 (2006 a 2010), em média por ano, 4,5%. Em 2010, cresceu 7,5%. No início de 2011, o Governo tomou uma decisão correta: desacelerar o ritmo de crescimento econômico. O objetivo era neutralizar parte da inflação que era causada pelo excesso de demanda. Mas, também, objetivava-se recompor as taxas de crescimento do PIB aumentando a taxa de crescimento do investimento e reduzindo a taxa de crescimento do consumo das famílias. Reduzir o crescimento da economia, em 2011, para algo entre 4,5 e 5% era desejável.
O Governo tomou um conjunto de medidas restritivas. Fez, em fevereiro, um corte preventivo de R$ 50 bilhões em gastos previstos. Depois, elevou a meta de superávit primário em R$ 10 bilhões. Mais ainda, reduziu o aporte de recursos do Tesouro ao BNDES. E o Banco Central? Elevou a taxa de juros Selic em cinco reuniões consecutivas, de janeiro a julho. A taxa Selic alcançou 12,5% ao ano. Além disso, o Banco Central adotou medidas macro prudenciais para conter a expansão do crédito. A elevação dos juros Selic e o ambiente de austeridade atraíram recursos estrangeiros especulativos que valorizaram a taxa de câmbio, comprimindo produção e planos industriais.
Política econômica deve ser feita com paciência, cuidado, cautela e “canja de galinha”. Mas, as medidas adotadas no primeiro semestre pareciam ser excessivas: davam uma freada brusca na economia. Em trajetória de frenagem, a economia foi atingida pela crise financeira européia. O canal inicial de contaminação é o canal das expectativas, do humor e do desânimo. Em meados do mês de setembro, a crise das dívidas européias foi percebida pelo mundo. Os efeitos econômicos efetivos ainda estão por vir. Em breve, o crédito internacional vai secar, o valor das exportações de commodities vai cair, a pressão de produtos importados sobre o mercado doméstico vai aumentar e o investimento privado vai ser reduzido.
É preciso, portanto, deixar claro que o PIB nulo do terceiro trimestre, quando comparado com o PIB do trimestre anterior, não tem nada a ver com a crise financeira internacional. A crise se espraiou pelo mundo somente nos últimos quinze dias do trimestre. A responsável pelo resultado pífio foi, quase que exclusivamente, a política econômica adotada no primeiro semestre. O PIB do terceiro trimestre, comparado com o PIB do trimestre anterior, mostrou uma contração da indústria de transformação de 1,4% e do comércio, de 1%. Foi um desastre este PIB. Basta comparar o resultado nulo do Brasil com os resultados de alguns países da Europa (em crise). A União Européia cresceu 0,2%, a Espanha, 0%, a França, 0,4%, Reino Unido, 0,5% e a Alemanha, 0,5%.
No último ano de Governo FHC, em 2002, a economia cresceu 2,7%. Em 2011, o PIB crescerá algo semelhante. O Brasil fará um pibinho. O Governo da presidente Dilma sabe que o País não pode voltar a era dos pibinhos de FHC, quando a economia crescia em média por ano, 2,3%.
Para reagir, desde o final de agosto, o Banco Central iniciou um processo de redução da taxa de juros Selic. Recentemente, o Governo adotou medidas de isenções tributárias para a linha branca e fez um alívio no custo do crédito ao consumo. A Caixa disponibilizou recursos para fins de crédito pessoal. Foi dado também um incentivo fiscal para a construção de casas populares. O Plano Brasil Maior, um plano excelente, lançado em agosto pela presidente Dilma, tem o mesmo caráter: desonerar e reduzir juros para a atividade empresarial.
Essas medidas, contudo, não serão suficientes para enfrentar a crise. O mundo desenvolvido adormeceu: Europa em crise, Estados Unidos atolado e o Japão, há décadas, somente suspira. A China e os asiáticos vão atacar com voracidade o nosso mercado doméstico e a nossa indústria. O Governo sabe disso, mas vai esperar os impactos que serão positivos do aumento vigoroso de mais de 14% do salário mínimo, que ocorrerá em janeiro, para reavaliar sua política econômica. Medidas fiscais mais arrojadas serão necessárias, assim como medidas excepcionais de defesa da indústria. O ano de 2012 será um ano de enormes preocupações e fortes emoções. De tédio, não morreremos. Há uma preocupação política no ar: o Brasil não poderá repetir em 2012 o pibinho que fará em 2011.
Por João Sicsú, que é Professor-Doutor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br
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PIB zero causa pressão por corte maior do juro e mais gasto público
Estagnação no terceiro trimestre aumenta insatisfação de trabalhadores e empresários contra política de juros do Banco Central e controle exagerado de despesas pelo ministério da Fazenda, que registra recordes de superávit primário. Na ata do Copom, BC desanima expectativas: insiste em ‘ajuste moderado’ do juro e, com demanda em queda, repete que alta de salário é ‘risco’.
André Barrocal
BRASÍLIA – No dia em que se soube que o Brasil tinha tido crescimento zero no terceiro trimestre, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu entrevista coletiva para comentar o resultado e disse: a estratégia principal do governo para reverter a estagnação é “crédito”. “Haveria então condições de o Banco Central acelerar o corte do juro, ministro?” “A pergunta deve ser feita ao Banco Central.”
Ao divulgar nesta quinta-feira (8) a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu o juro em meio ponto, o BC deu uma boa indicação do que pensa. E a resposta parece ser “não”. “O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, ajustes moderados no nível da taxa são consistentes com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012.”
A frase contida na ata, uma das poucas formas de comunicação oficial do BC com a sociedade, repete exatamente o que o banco dizia na curta nota em que, dia 30 de novembro, depois da última reunião do Copom em 2011, anunciara juro menor. As palavras-chaves são “ajustes moderados”, a indicar que o banco descarta, por ora, elevar o ritmo de redução da Selic e, assim, contribuir para esquentar a economia.
O pé no acelerador é uma cobrança de setores preocupados com a parada total do produto interno bruto (PIB) de julho a setembro. Os mesmos que, no início do ano, reclamavam contra o que viria a ser um ciclo de cinco altas seguidas do juro, contribuição decisiva para zerar o PIB, em associação com a crise global. Os mesmos que, a partir de outubro, passaram a criticar a covardia do banco, que só corta a taxa em meio ponto.
“O PIB do 3º trimestre foi zero porque o governo errou na mão ao adotar receita passada pelo mercado”, escreveu em seu blog o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique da Silva Santos, defensor de apertar o passo na rebaixamento da Selic, a maior taxa de básica juros do planeta.
Na cruzada contra o Banco Central, junta-se a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), parceira da CUT em manifesto lançado em outubro contra a política de juros altos do BC praticada sem tréguas desde 1995.
“Há meses a Fiesp vem alertando a sociedade e o governo sobre os efeitos nocivos dos juros altos”, disse o presidente da entidade, Paulo Skaf, em nota depois do PIB zero. “Não podemos mais perder tempo, é preciso aprofundar a queda dos juros e os estímulos à produção.”
Até a Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais moderada que a Fiesp, não se conteve após a notícia do PIB zero. “A desaceleração da economia já era esperada pelo comportamento de outros indicadores, mas é preocupante a intensidade da queda de 1,4% na indústria de transformação”, avaliou a entidade, para quem é “urgente” que o governo adote ações mais eficazes.
Arrocho fiscal excessivo
Além da intensificação da queda do juro do BC, uma alternativa para salvar o PIB em 2012 poderia ser o alívio na poupança que o governo faz do que arrecada em impostos e depois usa para pagar de juros da dívida ao “mercado” (superávit primário). Foi o que defendeu, por exemplo, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, em entrevista recente à Carta Maior.
A redução do superávit primário levaria a uma injeção de recursos na economia real, colaborando, assim, para esquentar a atividade econômica e o PIB. Este ano, o governo federal sozinho já separou R$ 86 bilhões de sua arrecadação para pagar juros ao “mercado”. Quando estados e municípios entram na conta, o valor sobe para R$ 118 bilhões.
Quando a crise econômica global dava os primeiros passos, o governo Dilma montou uma estratégia de enfrentar a situação de uma forma um pouco diferente do que o governo Lula fizera em 2008/2009. Mais ênfase na redução de juro do BC do que em política fiscal. Diante do resultado recente do PIB e da “moderação” do Banco Central no manejo do juro, já se observam insatisfações com a avareza no gasto público.
No terceiro trimestre, os três grupos de consumidores categorizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – cidadãos, governo e empresas que compram para investir – gastaram menos do que no trimestre anterior. “Mais uma preocupação é o recuo do consumo, que tem sido o motor do crescimento, inclusive do consumo do governo”, disse a CNI, depois do PIB zero.
“O PIB caiu porque, além da crise internacional, o governo deu ouvidos ao receituário do mercado, amplamente defendido pela mídia, de que era necessário cortar gastos – o que invariavelmente leva a cortes de investimentos”, afirmou Artur Henrique, da CUT.
Num ambiente consumidor destes, chama a atenção outro trecho da ata do Copom – e de novo o BC contribui para minar expectativas. Salário, essencial para o mercado interno que o governo diz que protege o Brasil na crise, preocupa. “Um risco importante reside na possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade e suas repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação.”
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