A mobilização nacional do Julho das Pretas reúne, ao longo do mês, movimentos sociais, entidades e organizações em defesa dos direitos das mulheres negras e pelo enfrentamento ao racismo e às desigualdades de gênero. A iniciativa faz referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, data que também homenageia Tereza de Benguela, liderança quilombola e símbolo da resistência negra no Brasil.
Com o tema “Escrevivências do Bem Viver”, a edição deste ano reúne debates, atividades culturais e ações voltadas à promoção da igualdade racial e da autonomia das mulheres negras. A programação presta homenagem à escritora mineira Conceição Evaristo, referência da literatura brasileira contemporânea e da produção intelectual negra.
A CUT, que também participa das mobilizações do Julho das Pretas, destaca os impactos das políticas públicas na vida da população negra. Entre os temas que integram a programação estão trabalho, renda, moradia, educação, saúde, proteção social e participação política, áreas apontadas por pesquisadores e movimentos sociais como fundamentais para reduzir as desigualdades raciais e de gênero.
“O Julho das Pretas é um momento de reafirmar que a luta das mulheres negras precisa estar no centro das políticas públicas. Celebrar essa data também significa dar visibilidade às desigualdades que ainda marcam a vida dessas mulheres”, destaca Julia Nogueira, secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT.
Dados de diferentes levantamentos mostram que as mulheres negras seguem entre os grupos mais afetados pela pobreza, pela informalidade, pelo desemprego e pela violência.
Em 2022, por exemplo, o Brasil voltou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), cenário que passou a orientar a retomada de políticas voltadas à segurança alimentar e à redução das desigualdades.
Após um período de redução de investimentos sociais e da extinção de estruturas como os ministérios das Mulheres e da Igualdade Racial durante o governo anterior, o governo do presidente Lula retomou programas de transferência de renda, combate à fome, promoção da igualdade racial e fortalecimento da proteção social, políticas que impactam diretamente a vida da população negra.
Para Julia, a retomada de políticas públicas voltadas ao combate à fome, à promoção da igualdade racial, à valorização do trabalho e à proteção social representa um passo importante para enfrentar desigualdades que se aprofundaram nos últimos anos.
“São medidas que impactam diretamente a vida das mulheres negras, historicamente as mais vulnerabilizadas”, afirma a dirigente.
Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, as mulheres negras continuam enfrentando os maiores índices de desemprego, informalidade e baixos salários no país, segundo levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Entre as medidas implementadas pelo governo federal estão a política permanente de valorização do salário mínimo, a Lei da Igualdade Salarial, mecanismos de transparência remuneratória entre homens e mulheres e programas de qualificação profissional, como o Pronatec e o Mulheres Mil, além de iniciativas de economia solidária e inclusão produtiva.
Para Amanda Corcino, secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, a retomada desses programas pelo governo federal contribui para ampliar a renda, reduzir vulnerabilidades e garantir melhores condições de vida às mulheres negras.
“O racismo estrutural está enraizado na nossa sociedade, e as mulheres negras, apesar do passar do tempo, ainda continuam tendo menos oportunidades de estudo e de acesso ao mercado de trabalho. Por isso, essas políticas sociais retomadas no governo Lula são muito importantes, porque são integradas, contribuem para o aumento da renda e garantem mais dignidade às mulheres”, afirma.
Igualdade racial
A política nacional de igualdade racial passou a contar novamente com estruturas específicas após a recriação do Ministério das Mulheres e do Ministério da Igualdade Racial. As duas pastas coordenam ações voltadas ao enfrentamento da violência de gênero, ao combate ao racismo institucional, ao fortalecimento de comunidades quilombolas, à promoção da autonomia econômica e à ampliação do acesso a direitos.
A participação da sociedade civil ocorre por meio de instâncias como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Neste ano, a realização da V Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Conapir) reuniu representantes do poder público e de movimentos sociais para discutir diretrizes voltadas ao enfrentamento do racismo e à formulação de políticas públicas.
Marcha das Mulheres Negras
Após uma década da primeira edição, realizada em 2015, a Marcha Nacional das Mulheres Negras voltou a ocupar as ruas de Brasília em 2025, reunindo milhares de mulheres de diferentes regiões do país.
A mobilização reforçou a defesa do enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às desigualdades sociais, além de cobrar o fortalecimento de políticas públicas voltadas à garantia de direitos.
A retomada da marcha foi construída por organizações do movimento de mulheres negras, movimentos sociais e entidades sindicais de todo o país.
Foto: Dino Santos/CUT
Fonte: CUT