O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou uma reunião extraordinária de emergência na manhã desta quinta-feira (5/11), no Palácio do Planalto. O encontro de urgência com ministros e conselheiros econômicos foi motivado pelo avanço da dívida pública brasileira, que ultrapassou a marca histórica de 80% do Produto Interno Bruto (PIB). O governo corre contra o tempo para alinhar o discurso e acalmar o mercado financeiro, que reage com volatilidade e forte pressão por medidas de ajuste fiscal.
Para desenhar uma estratégia de contenção da crise, Lula reuniu os principais nomes da condução econômica atual e figuras históricas de gestões petistas anteriores. Participam do encontro o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan; o ex-ministro da pasta, Fernando Haddad; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante; o ministro do Planejamento, Bruno Moretti; e o ex-ministro Guido Mantega, que voltou a ser consultado diretamente pelo chefe do Executivo.
Queda na Bolsa e embate sobre os juros
O Palácio do Planalto tenta estancar o pessimismo que tomou conta do mercado, refletido nas quedas recentes da Bolsa de Valores. O núcleo do governo debate como controlar a trajetória da dívida sem descumprir as promessas sociais que elegeram a atual gestão. Contudo, há divergências internas sobre a melhor fórmula para alcançar esse equilíbrio.
De um lado, a equipe do Planejamento e da Fazenda defende um freio mais claro nas despesas públicas para recuperar a credibilidade junto aos investidores. De outro, Guido Mantega lidera uma corrente que minimiza o peso dos cortes de gastos. Para o ex-ministro, o verdadeiro vilão do equilíbrio fiscal são os juros elevados, que encarecem o custo de carregamento da dívida. Mantega argumenta que a saída estrutural deve focar no estímulo ao crescimento econômico e em investimentos produtivos.
Diante do clima de incerteza, boatos de que o governo poderia adotar medidas heterodoxas começaram a circular nos bastidores de Brasília. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, agiu rapidamente para conter os rumores e negou categoricamente qualquer possibilidade de intervenção artificial ou tabelamento da taxa Selic. Como alternativa de receita, o governo estuda acelerar planos para atrair capital estrangeiro focado em setores estratégicos, como energia limpa e mineração de terras raras.
Pronunciamento em rede nacional
As conclusões desta rodada de aconselhamento servirão de base para calibrar o plano de voo da economia para os próximos anos. Lula pretende usar o consenso costurado nesta quinta-feira para se dirigir diretamente à população e aos agentes financeiros.
O presidente fará um pronunciamento oficial em rede nacional de rádio e televisão no próximo domingo. A expectativa em Brasília é que o discurso de Lula tente equilibrar duas mensagens centrais: um aceno firme de responsabilidade fiscal para estabilizar os mercados e a garantia de que o Orçamento preservará os investimentos em programas sociais.
Próximo mandato
Além das medidas fiscais e monetárias, a definição da equipe econômica do quarto mandato também está no horizonte das discussões. Lula ainda não anunciou quem ocupará o Ministério da Fazenda a partir de janeiro.
A permanência de Durigan é considerada uma possibilidade, enquanto Haddad continua sendo um dos principais interlocutores do presidente na área econômica. Bruno Moretti e Mercadante também integram o grupo de conselheiros que participa das discussões sobre os rumos da economia.
Lula tem recorrido principalmente a esse núcleo de interlocutores e não pretende antecipar as escolhas para o próximo governo. A expectativa de auxiliares é que as indicações sejam feitas mais perto do fim de novembro.
Foto: Ricardo Stuckert
Texto: Julinho Bittencourt
Fonte: Revista Fórum