Ela é uma das mulheres entrevistadas no documentário Mãe Solo. O curta-metragem traz para a tela a realidade de mulheres que são responsáveis pelo sustento e criação dos filhos, sem a participação efetiva dos pais dessas crianças. Essa é a realidade de muitas mães numa sociedade em que o abandono paterno é amenizado, justificado e naturalizado pelo patriarcado. Julgamento, falta de estrutura e de rede de apoio, abandono do poder público que resulta em falta de vagas nas creches. O trabalho assalariado e mal pago, junto com o trabalho de cuidado não pago. São alguns dos desafios diários dessas mulheres, sempre intensificados pela condição racial.
“O empobrecimento tem gênero e tem raça”. Mulheres negras sofrem, também, as consequências do racismo. Encontram-se de modo geral, já na infância, em situação precarizada, resultado de anos de escravização de seus ancestrais, são subestimadas e subalternizadas de forma estrutural, sujeitadas ao emprego informal, mal pago e sem direitos trabalhistas.
É dentro dessa realidade que elas superam expectativas e exercem a maternidade com autonomia, responsabilidade e amor. Nos relatos que se pode ouvir no filme, mais do que o contato com a dura realidade dessas mulheres, o espectador se depara com o compromisso ético dessas mães, tanto no dia a dia da família, quanto na determinação de mostrar que podem ser vitoriosas, mesmo sem apoio algum.
Mas não é essa realidade que se quer para o futuro. A romantização da superação das pessoas pretas, pobres, subalternizadas seja lá por quais marcadores sociais a que pertençam não nos serve. O que nos serve é que ao olhar para produções como essa se perceba a urgência na solução desses problemas. O que nos serve é que esse tipo de história seja colocada no passado, que mulheres negras tenham as mesmas condições de vida e oportunidades de sucesso e bem estar que os integrantes das chamadas elites do país. Isso passa, sim, pela responsabilização dos genitores, mas depende ainda mais da erradicação do racismo estrutural e do machismo estrutural, os verdadeiros responsáveis pela precariedade que leva essas mulheres à condição de mães solo.
O filme está disponível gratuitamente na plataforma YouTube:
Além do documentário, recomendo conhecer a Música Dona de mim, citada pela entrevistada Keisiane:
Regina Maria Miranda é formada em Letras, pela UFPR, e especialista em Educação à Distância. É bancária do Banco do Brasil, dirigente sindical e professora particular de Produção de Texto.
Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região