Alçado por Lula à direção de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou em depoimento à Polícia Federal no dia 25 de maio que tanto ele quanto o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, não confiavam em Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, diretores da gestão anterior, de Roberto Campos Neto, e apontou uma sistemática de “vazamentos sistemáticos” a Daniel Vorcaro durante o processo de liquidação do Banco Master.
Segundo Aquino, Belline Santana e Neves de Souza sequer foram comunicados da decisão do presidente do BC em liquidar o Banco Master, tomada em novembro, por receio de que houvesse vazamento ao banqueiro. A solvência do Master foi comunicada ao mercado em 18 de novembro, um dia após a primeira prisão de Vorcaro.
“Ao ser indagado se os servidores Paulo Sérgio e Bellini Santana tinham conhecimento de que havia uma decisão tomada pela liquidação do Banco Master, afirma categoricamente que não; que o depoente e o presidente Gabriel não confiavam em ninguém naquele momento, e que poucas pessoas chegaram a saber da decisão; que nem a própria Diretoria do Banco Central sabia, o que é natural em procedimentos dessa natureza, dada a enorme preocupação com vazamento de informações”, afirmou Aquino no depoimento, divulgado nesta quarta-feira (12) em reportagem de Aguirre Talento, no Estadão.
Belline Santana e Neves de Souza faziam parte do grupo de WhatsApp “A Turma”, uma espécie de milícia comandada por Daniel Vorcaro para investigar e retaliar desafetos, que era comandada pelo primo Fabiano Zettel e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, que apareceu morto na prisão. Após ação da PF, o grupo passou a ser comandado pelo pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, que também foi preso.
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Segundo Aquino, o envolvimento dos dois diretores com o escândalo do Master foi comunicado pela PF ao Banco Central em 7 de janeiro deste ano. Na ocasião, Galípolo e o procurador do BC, Cristiano Cozer, informaram a ele a suspeita de pagamentos de propinas aos dois diretores remanescentes da gestão Campos Neto.
“No dia 7 de janeiro de 2026, às 14h30, foi convocado pelo presidente do Banco Central para uma reunião em que foi comunicado, na presença do procurador Cristiano, ter recebido verbalmente informações de interlocutores sob condição de anonimato no sentido de que os servidores Paulo Sérgio e Bellini Santana haviam recebido valores de Daniel Vorcaro; que, ao ser comunicado, declarou ao presidente que tomaria o depoimento de ambos ainda naquele dia”, diz o relatório da PF sobre o depoimento de Aquino.
Reunião antes da prisão
Aquino ainda narrou aos investigadores a reunião virtual com Vorcaro no dia 17 de novembro, horas antes da prisão do banqueiro, quando a decisão de liquidar o Master já havia sido tomada. Belline Santana, subordinado a Neves de Souza, também estava na reunião, em que o banqueiro anunciou que o Master seria comprado pelo grupo Fictor.
“Vorcaro insistia em perguntar ao depoente qual era sua opinião e o que achava da proposta, como se buscasse uma manifestação favorável; que, internamente, o depoente já havia tomado a decisão pela liquidação, de modo que a reunião foi encerrada sem qualquer comprometimento de sua parte”, diz o relatório.
“Seguindo a governança interna, o presidente Gabriel convocou reunião de diretoria, o depoente apresentou o voto de liquidação e a decisão foi tomada naquele mesmo dia; que a decisão de liquidação nunca foi comunicada previamente ao banqueiro, pois o banqueiro não pode ter ciência antes da execução — ele só tomaria conhecimento na manhã seguinte, às 7h, quando a equipe do Banco Central já estivesse na porta da instituição, pois, se soubesse antes, o procedimento não funcionaria”, segue o documento da PF.
Segundo Aquino, havia um “ambiente hostil” e que, por suspeitas de vazamentos”, a decisão não foi comunicada a Belline Santana e Neves de Souza.
“A razão principal era a existência de vazamentos sistemáticos de informações internas do Banco Central; que tudo vazava — decisões, análises, votos ainda em fase de minuta —, chegando ao conhecimento tanto dos fiscalizados quanto da imprensa; que era um ambiente hostil e muito difícil”, disse.
“O sentimento geral era de que, antes mesmo de um voto ser concluído como decisão formal, uma ou outra pessoa já ficava sabendo, e a imprensa também tomava conhecimento de assuntos relativos ao Banco Master”, seguiu, sobre os vazamentos seletivos que chegavam à mídia.
Aquino ressaltou porém que “a identidade do responsável pelos vazamentos nunca foi apurada, pois é da natureza da situação que a fonte não se revele; que foi justamente esse quadro que levou à decisão de manter a liquidação em círculo absolutamente fechado”.
Em nota ao jornal, a defesa de Neves de Souza afirmou que os pagamentos de Vorcaro seriam por causa da venda de “propriedade rural em janeiro de 2020 a cunhado de Daniel Vorcaro”.
“No caso, foram travadas sérias negociações com o comprador interessado a respeito de valores e de área a ser vendida e, ao fim, a compra e venda do sítio foi celebrada de forma absolutamente legítima com Fabiano Zettel, o qual, no momento da assinatura do contrato em 17 de janeiro de 2020, se apresentou como pertencente ao ramo imobiliário, demonstrando particular interesse na realização de projeto de loteamento no terreno. Em pesquisas naquele contexto, não foi localizada qualquer vinculação com o Banco Master, mas somente sua atuação como pastor”, diz, sobre a relação de Zettel com a Igreja Lagoinha.
Já a defesa de Belline Santana afirma que “todos os esclarecimentos acerca de suas atividades, integralmente lícitas, já foram apresentadas ao Banco Central do Brasil (“BCB”), estando igualmente à disposição da Polícia Federal para o que for necessário”.
“O Sr. BELLINE SANTANA jamais recebeu qualquer pagamento de DANIEL VORCARO ou do Banco MASTER e tampouco praticou qualquer ato destinado a favorecer seus interesses, confiando que a análise técnica dos fatos, desprendida de subjetivismo, permitirá o completo esclarecimento das circunstâncias ora apontadas”, diz em nota.
Aquino virou alvo da mídia liberal por vazamentos
Funcionário de carreira desde 1998 e primeiro negro a ocupar uma cadeira na direção do Banco Central, Ailton de Aquino Santos foi alvo de um levante da mídia liberal após a primeira prisão de Daniel Vorcaro, em 17 de novembro, e a liquidação do Banco Master, um dia depois, pelo Banco Central.
Em meio a uma série de vazamentos seletivos, a jornalista Malu Gaspar, no jornal O Globo, chegou a publicar que “Aquino, que não é formalmente investigado no caso Master, era visto no BC e por agentes do mercado financeiro como um aliado do banco de Vorcaro”, mesmo com o diretor de Fiscalização do BC tendo votado pela liquidação da instituição – aprovada de forma unânime pela instituição.
Colega de Lauro Jardim, que foi ameaçado por Vorcaro nas conversas do grupo de WhatsApp “A Turma” divulgadas na decisão que levou o dono do Master de volta à cadeia, a jornalista ainda levantou suspeitas sobre a reunião de Aquino com o banqueiro em 17 de novembro, horas antes dele ser preso ao tentar embarcar em um jatinho no aeroporto de Guarulhos rumo a Malta, de onde partiria para Dubai.
“Acareação: Vorcaro se reuniu com diretor do BC no dia em que foi preso”, diz a chamada do artigo sobre a reunião que já estava marcada, teve a presença do chefe do departamento de supervisão bancária do BC, Belline Santana, e conta com registro no próprio Banco Central.
“A reunião virtual durou 40 minutos e nela, conforme um documento do próprio banco que acabou sendo usado pela defesa do executivo para livrá-lo da cadeia, Vorcaro informou das negociações em curso ‘na busca de uma solução de mercado para o Conglomerado Master’”, insinua.
Belline Santana
Personagem até então obscuro no caso Master, o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (DESUP) do Banco Central Belline Santana, é citado como um dos participantes do grupo “A Turma”, que teria recebido dinheiro do banqueiro para prestar “consultoria estratégica ao investigado, discutindo temas relacionados à situação regulatória do Banco Master, fornecendo orientações acerca da condução de processos administrativos e participando de tratativas voltadas à definição de estratégias institucionais do banco Master perante o Banco Central”.
“Também foi constatado que BELLINE SANTANA participou de reuniões privadas com DANIEL BUENO VORCARO, inclusive fora das dependências institucionais do Banco Central, nas quais foram discutidos temas estratégicos relativos à atuação e ao posicionamento do Banco Master perante a autoridade reguladora”, diz a decisão de Mendonça.
Segundo o documento, que determinou a prisão de Vorcaro e Fabiano Zettel, que “operacionalizava” o grupo, mesmo com cargo no Banco Central, Belline “revisava documentos e comunicações institucionais elaboradas pelo Banco Master” e “participava de discussões relativas a estratégias adotadas pelo banco Master perante o órgão regulador”.
“As investigações também apontam que BELLINE SANTANA demonstrava acompanhamento próximo de decisões administrativas e movimentações institucionais envolvendo o Banco Master, mantendo o controlador do Banco Master informado sobre temas relevantes relacionados à atuação da supervisão bancária”, diz.
Ou seja, o funcionário do BC atuava como uma espécie de consultor estratégico de comunicação para repassar a narrativa decidida diretamente com Vorcaro e “pelos serviços prestados à estrutura criminosa, BELLINE recebia uma remuneração”.
Disputa no Banco Central
Na estrutura do Banco central, Belline foi subordinado a Paulo Sérgio Neves de Souza, que comandou a diretoria de Fiscalização entre 2019 e 2023, durante a presidência do bolsonarista Roberto Campos Neto.
Foi Souza quem oficializou no Banco Central, em outubro de 2019, a compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro, que o transformou em Banco Master
Alvos da operação da Polícia Federal nesta quarta-feira, Belline e Souza já haviam sido afastados de suas funções em janeiro por decisão administrativa do atual presidente, Gabriel Galípolo, em meio aos avanços das investigações sobre o Caso Master.
Ambos se tornaram alvos de uma investigação interna justamente pela conduta interna em relação ao Master. Segundo a PF, Souza também prestava consultoria informal ao banqueiro e “participava de grupo de mensagens com DANIEL VORCARO e BELLINE SANTANA, criado para facilitar a comunicação direta entre os envolvidos e permitir a discussão de estratégias relativas a temas de interesse do Banco Master”.
Ainda durante a gestão de Campos Neto no BC, Belline Santana trabalhava internamente para ser o sucessor de Neves no comando da Diretoria de Fiscalização, órgão responsável justamente por avaliar os movimentos na Faria Lima e decidir pela abertura de investigações sobre transações suspeitas.
A disputa se deu justamente com Ailton de Aquino, nome do governo Lula para assumir o cargo, que tem mandato de quatro anos, com possibilidade de uma recondução por igual período.
Voltando aos vazamentos seletivos para atacar Aquino, Santana também estava na reunião com Vorcaro horas antes do banqueiro tentar empreender fuga e ser preso no fatídico 17 de novembro de 2025.
Diferentemente do que aconteceu com Aquino, no entanto, Belline Santana não foi alvo de campanha seletiva da mídia liberal e tampouco acusado de favorecer Daniel Vorcaro, de quem “recebia uma remuneração” pelos “serviços prestados à estrutura criminosa”.
Texto: Plinio Teodoro
Fonte: Revista Fórum