Duas medidas de política econômica recentes, adotadas com explícita referência à pressão dos preços dos alimentos, dão o tom e a dimensão da resposta oficial a um problema ainda mal explicado. A primeira classe de medidas (de nítido caráter restritivo ao consumo interno em geral) refere-se à sucessão de elevações da taxa de juros que o Banco Central vem operando desde maio-junho, com promessas de continuidade por todo o segundo semestre. No biênio 2009/2010 também continuaria a mesma política, haja vista a meta inflacionária fixada para estes dois anos (4,5% como centro da meta).
Uma outra medida que também faz referência explícita à elevação dos preços dos alimentos e pretende combatê-la é o chamado Plano de Safra Agrícola – 2008/2009. Este se propõe a incentivar a elevação e recomposição da produção agrícola a partir do segundo trimestre de 2009. Neste entremeio ocorrem decisões econômicas de plantio e colheita, que ainda precisam ser sancionadas pelas condições climáticas.
A recomposição da oferta agrícola, prometida pelo Ministério da Agricultura, revela um problema implícito, carregado nos últimos anos, que é a necessidade de recuperar a produção semi-estagnada das culturas mais diretamente provedoras da cesta básica (arroz, feijão, trigo e milho), todas, à exceção do milho, deslocadas pelo “boom” das exportações primárias. Os produtos agrícolas também revelam níveis praticamente nulos de estoques públicos até o final do ano.
Mas o arranjo antiinflacionário ora proposto peca por um certo mecanicismo de senso comum, do tipo “diminua a demanda e eleve a oferta que os preços fatalmente cairão”. Ademais o enfoque agrícola terá de ser complementado por medidas muito firmes de recomposição dos estoques de alimentos, sem o quê o poder público vira expectador das crises de abastecimento, sem instrumentos físicos para exercer algum grau de controle na formação dos preços da cesta básica.
Por sua vez, a abordagem monetária dos preços dos alimentos, praticada pelo Banco Central, na ausência dos instrumentos clássicos da política agrícola, tem forte probabilidade de gerar a pior das combinações: estagnação e a mesma inflação.
A estagnação é muito provável de ser alcançada pelas sucessivas e pré-anunciadas elevações da taxa básica de juros, como de resto o Banco Central já operou com eficácia (pró-desaceleração econômica) em outras conjunturas.
Mas a contenção dos preços dos alimentos não decorre nem se deduz da queda da demanda global que o Banco Central eventualmente venha a provocar. Isso porque a demanda agropecuária externa (as exportações de grãos, carnes, álcool, celulose de madeira etc.) e dos produtos da mineração continua a ser imprescindível à política comercial externa. É basicamente com acesso às exportações primárias que o país vem socorrendo o déficit estrutural da Conta Serviços do Balanço de Pagamentos, que agora também se exacerbou (expande-se fortemente no biênio 2006/2007). Por seu turno, a expansão do déficit dos Serviços (fortemente explicado pela remessa de lucros e dividendos) também está associada à elevação do passivo externo do país (diferença entre o estoque de capital estrangeiro no país e deste no exterior), que também é incrementado pela política de juros do Banco Central.
Certamente, a abordagem do BACEN, de contenção da demanda agropecuária pela política de juros, é no mínimo contraditória com o arranjo geral da política externa.
Com relação à demanda interna (por produtos da cesta básica), há uma racionalidade perversa dessa política, a de cortar salários e empregos com a desaceleração econômica. Mas isto tampouco garante que os principais alimentos da cesta básica irão baratear.
Há determinantes externos na formação dos preços das commodities, tais como petróleo e cereais, cujos níveis elevados atuais não parecem reversíveis a curto prazo. Mas, ainda que o fossem, restaria a pressão por exportar “commodities” a qualquer custo, como componente estritamente interno a pressionar os preços domésticos.
O arranjo de política agrícola está incompleto e a política do Banco Central é contraditória e inadequada para lidar com inflação oriunda de pressão estrutural sobre os alimentos. Provavelmente, o assunto voltará à agenda política, até porque não está devidamente equacionado e certamente retornará nas próximas conjunturas.
Por Guilherme Costa Delgado, que é economista do IPEA, doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.
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A inflação preocupa, mas não amedronta
A inflação preocupa porque tem sido insidiosa, tem poderosas causas mundiais (consumo mundial, valorização de produtos como o petróleo e desordem financeira norte-americana)…
Atinge os brasileiros mais pobres e as regiões mais pobres do Brasil (podendo até mesmo prejudicar a distribuição de renda) e suscita especulação e histerismo nos rentistas e seus comentaristas de plantão.
A inflação não amedronta porque é baixa, localizada, não se acelera e acontece em um ambiente menos favorável a sua propagação.
Os trabalhadores odeiam a inflação porque perdem com ela e nem querem ouvir falar em gatilho ou indexação.
Enfrentam o mal-estar inflacionário com duas orientações estratégicas essenciais:
1) é preciso manter o ritmo do desenvolvimento e garantir a continuidade de ganhos reais de salários;
2) pode-se enfrentar os focos inflacionários localizados (alimentos, por exemplo) com o choque de oferta e não com restrição ao consumo.
Nas campanhas salariais deve-se levar em conta muito mais que a inflação, a produtividade do trabalho que se mantém alta (de três a quatro vezes maior que a média de ganhos reais) e a capacidade produtiva instalada.
Na indústria, por exemplo, o aumento da produção (decorrente do consumo) tem acontecido com o aumento da fabricação e compra de máquinas, o que mantém estável em 85% essa capacidade.
Por João Guilherme Vargas Netto, que é membro do corpo técnico do Diap e consultor sindical de diversas entidades de trabalhadores em São Paulo.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.diap.org.br.
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CUT e Fiesp criam grupo para discutir inflação e renda de trabalhadores
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) criaram, nesta quinta-feira (17), um grupo de trabalho para discutir o impacto da inflação sobre os preços dos produtos e, conseqüentemente, sobre as perdas no poder de compra dos trabalhadores.
O ato foi oficializado em um encontro realizado na sede da Fiesp, em São Paulo, em que reuniram-se dirigentes das duas entidades.
“Quem mais sofre com a inflação são as famílias pobres, que vêem sua renda ser suprimida diante dos reajustes de preços dos produtos da cesta básica”, observou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de São Paulo, Edílson de Paula.
Para o líder sindical , representantes dos trabalhadores, do governo e da classe empresarial devem criar uma sistemática de debates para avaliar a real necessidade de reajuste dos preços dos produtos da cadeia alimentícia e de outros produtos. “Queremos questionar o por quê dos reajustes e onde estariam ocorrendo”, disse.
No evento, a CUT encaminhou a Fiesp um estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), que eleva a projeção de inflação, para este ano, para 6,5%. Além disso, a entidade levou aos empresários um documento enumerando ações para a redução no ritmo do aumento dos preços.
Entre as propostas da CUT está a possibilidade de desonerações fiscais sobre os itens alimentícios, como a que ocorreu no caso do trigo. Com a falta do fornecimento da Argentina, o Brasil teve de recorrer à importação do cereal produzido no Canadá e nos Estados Unidos, pagando um preço mais elevado.
Na avaliação do líder sindical, a desoneração de gêneros alimentícios seria uma forma até de se encontrar uma saída para evitar a corrosão dos ganhos salariais.
Outra questão defendida pela CUT é retomar a proposta, apresentada em 2005, de uma participação das empresas e dos trabalhadores no Conselho Monetário Nacional (CMN). Hoje, o conselho é composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, e também pelo presidente do Banco Central.
É o CMN que define as metas de inflação que servem de parâmetro para o Comitê de Política Monetário (Copom) na hora de estabelecer a taxa básica de juros, a Selic.
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, destacou a importância da iniciativa das entidades representantivas dos trabalhadores, afirmando que a sociedade precisa envolver-se nas questões monetárias do país. “A inflação é um tema importante e a sociedade tem que entrar neste debate. Nós [as entidades empresariais] também temos que estar juntos”.
Segundo Skaf, daqui a 15 dias o grupo deve reunir-se novamente para debater o que foi proposto e decidir o rumo das discussões.
(Fonte: Agência Brasil)
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.diap.org.br.