O mercado financeiro apostou em Flávio Bolsonaro e perdeu.
No dia seguinte à eleição de Lula, com 64.256.232 milhões de votos, 51,79% e quatro milhões a mais do que Bolsonaro, com o reconhecimento da maioria dos países e dos partidos da vitória, a gritaria agora começa a amenizar.
Porém, na segunda-feira (26), o mercado promoveu um verdadeiro terrorismo nas bolsas.
Na Ibovespa, o B3 acionou o chamado circuit breaker, logo na abertura do pregão, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações na Bolsa quando o Ibovespa sofre uma queda muito forte. O objetivo é conter movimentos de pânico e dar tempo para o mercado se estabilizar.
O dólar à vista também disparou, subindo 8,36% frente ao real, maior alta em 23 anos. A ameaça concreta foi de desvalorização do real frente ao dólar e, no câmbio, ameaçando com que a volatilidade do real tivesse a pior sessão diária desde 1999, quando o câmbio flutuante foi adotado.
Papéis de bancos como o Bradesco desabavam 29,98%, para US$ 2,85, e eram acompanhados pelas ações do Itaú Unibanco, que recuavam 28,13%.
Política
No entanto, em pouco tempo, a maioria dos líderes mundiais reconheceu a vitória de Lula. O próprio partido de Flávio Bolsonaro, o PL, também reconheceu a vitória de Lula, amortecendo a narrativa bolsonarista (ainda presente) de “golpe” devido à extensão do prazo de votação em duas horas.
Lula já foi em busca do apoio dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para articular sua agenda num Congresso que deve impor dificuldades à governabilidade.
Mas o principal fato do dia: De acordo com o jornal Valor, levantamento do G1, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indica que tão somente 35.521 votos foram registrados após as 17h de domingo, em todo país, no segundo turno, após a prorrogação exigida pelo STF e endossada pelo TSE.
Ou seja, número inexpressivo perto dos mais de 4.430.191 milhões de vantagem de Lula sobre Flávio. E talvez não saberemos quantas pessoas deixaram de votar por conta do boicote no transporte, realizado sobretudo em estados como São Paulo e Bahia, em gestões ligadas ao candidato derrotado.
Centro da questão
No fundo, a mídia empresarial, ligada ao capital financeiro, promove pressão, desde antes das eleições, por ajuste fiscal e aumento do superávit primário, que é a economia de recursos do orçamento, antes dos juros, destinada a ajudar no pagamento da dívida pública.
O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, enviado pelo governo Lula 3 ao Congresso Nacional em agosto deste ano, prevê superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões.
A pressão do mercado financeiro é por mais. Em entrevista à CNN,na manhã do dia 26 (segunda), ainda na ressaca do resultado eleitoral, Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, foi categórico ao dizer, em tom crítico, que o governo não deve realizar o ajuste fiscal.
Economistas neoliberais como Eduardo Giannetti, assessor de Marina Silva, reivindica que Lula adote a mesma posição de seu primeiro mandato, em 2003, elevando os recursos destinados para pagamento da dívida pública. “Nós chegamos a ter superávit primário da ordem de 4% do PIB durante alguns meses, alguns anos, no início do governo do primeiro mandato”, afirmam.
“Tesouraço” é um programa derrotado nas urnas
É nesse sentido que o apoio de parte do mercado financeiro se deu às propostas de Flávio Bolsonaro. O genérico “tesouraço” de 200 bilhões, apontado pela equipe econômica do candidato derrotado, tinha como objetivo cortas gastos sociais, reformar despesas obrigatórias, caso do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e da Previdência, fazendo essa sinalização para o mercado.
“Quem conhece a realidade das contas do governo sabe que cerca de 92% do orçamento federal são despesas obrigatórias, como Previdência Social, pagamento de salários, manutenção da Justiça, do Congresso Nacional, repasses a estados e municípios. Como sobra muito pouco para investimentos e custeio da máquina pública, e a direita vive falando que o Brasil gasta demais, é lógico pensar que o tal “tesouraço” viria sobre essas despesas obrigatórias”, aponta Frédi Vasconcellos, jornalista e colunista da Vigília Comunica na parte de Economia. E completa:
“O principal gasto federal, fora os juros da dívida, é com a Previdência Social. A previsão para 2027 é ter um gasto de cerca de R$ 1,2 trilhão. Aí estão incluídas as aposentadorias e outros benefícios. A forma mais simples de fazer o ‘ajuste’ prometido por Flávio seria cortar o reajuste das aposentadorias ou nem repassar a inflação”, aponta.
Neste sentido, o governo Lula tem a tarefa, junto à pressão popular e suas reivindicações, de aplacar as demandas do capital financeiro, colocar as reformas populares no centro do debate, e não ceder às pressões que já aconteciam desde antes das eleições.