Três dias após deixar o comando do PL Mulher em meio à guerra declarada contra Flávio Bolsonaro (PL), Michelle Bolsonaro (PL) dá mostras que não pretende depor as armas e segue disparando provocações e mensagens cifradas ao enteado e sua milícia digital nas redes.
Nesta sexta-feira (3), a ex-primeira-dama foi ao seu perfil no Instagram elogiar a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos (PNEBS), programa que será pelo governo Lula no auditório do MEC, em Brasília.
“Parabenizo a nossa amada comunidade surda pelo lançamento da Política Nacional de Educação Bilingue de Surdos”, exclamou em publicação nos Stories.
Sem se referir diretamente ao governo Lula, Michelle afirmou que a política lançada nesta sexta-feira pelo MEC “é um sonho realizado”.
“Seguimos trabalhando por um Brasil mais acessível e com oportunidades para todos”, afirmou, sinalizando que não deixará a política, como querem Flávio Bolsonaro e seus aliados.

O projeto de Lula
O MEC lança nesta sexta-feira a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos (PNEBS), iniciativa que assegura a oferta qualificada, o acesso, a permanência e o êxito escolar dos estudantes atendidos por essa modalidade de ensino.
Segundo O MEC, a “PNEBS responde a uma demanda da comunidade surda e das redes públicas de ensino ao fortalecer políticas voltadas à garantia dos direitos educacionais e linguísticos dos estudantes, em consonância com a legislação vigente”.
“Atualmente, apenas 12% das redes de ensino dispõem de materiais pedagógicos adequados em Libras. As provas, no formato VídeoLibras, alcançam somente 1,31% dos estudantes e, embora cerca de 51% das escolas possuam Salas de Recursos Multifuncionais, ainda há carência de apoio bilíngue especializado. Além disso, apenas 2.501 professores possuem formação continuada em educação bilíngue de surdos, reflexo da reduzida oferta de cursos de pedagogia bilíngue no país”, diz o ministério em nota.
PL usa Michelle
O PL pretende seguir usando sua imagem em peças de propaganda já gravadas para campanhas da legenda. A decisão ocorre após a crise pública entre a ex-primeira-dama e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e principal beneficiário político da tentativa de manter Michelle na vitrine eleitoral.
O movimento expõe a machocracia bolsonarista em estado bruto: Michelle foi esvaziada na estrutura partidária, viu uma aliada ser barrada na sucessão do PL Mulher e, mesmo assim, continua tratada pela cúpula da legenda como ativo de campanha. O material divulgado até agora não registra aval público da ex-primeira-dama para que os vídeos sigam sendo usados depois da ruptura.
A ex-primeira-dama já havia gravado apoios a pré-candidatos do PL no Distrito Federal, em Rondônia e no Acre. A sigla também avalia como continuar produzindo materiais com Michelle após sua saída formal da presidência da ala feminina.
Michelle Bolsonaro é afastada do comando, mas segue na propaganda
A contradição é central para entender a crise. Michelle deixou o PL Mulher depois de atritos com Flávio, mas o partido tenta preservar justamente o capital político que ela construiu entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas.
A Fórum mostrou que Michelle abandonou o PL Mulher e agravou a crise na campanha de Flávio Bolsonaro. A saída foi comunicada a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, depois de dias de desgaste no núcleo mais sensível da sucessão bolsonarista.
O racha não ficou restrito à família Bolsonaro. Ao deixar o cargo, Michelle abriu uma disputa pelo controle da ala feminina da sigla. O problema para a cúpula do PL é que a imagem da ex-primeira-dama continuou aparecendo como peça central da comunicação do partido, mesmo depois de ela romper com a engrenagem montada para embalar Flávio.
PL Mulher vira vitrine sem Michelle no comando
A ala feminina do partido chegou a publicar imagem de integrantes ao lado de uma versão de papelão de Michelle Bolsonaro, em tamanho real, depois da saída da ex-primeira-dama da presidência do núcleo. A cena sintetizou a operação política em curso: Michelle fora da direção, mas mantida como símbolo visual da legenda.
A legenda da publicação afirmava haver “uma líder de verdade”, em gesto de apoio à ex-primeira-dama. Ao mesmo tempo, Valdemar Costa Neto extinguiu a presidência do PL Mulher, o que impediu a ascensão automática de Priscila Costa, vice do núcleo e aliada de Michelle.
A Fórum revelou que Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto deram um golpe interno para impedir que Priscila assumisse o comando do PL Mulher. A manobra aumentou o desgaste no campo bolsonarista e reforçou a leitura de que a ala feminina foi desmontada para evitar que o grupo de Michelle mantivesse poder próprio dentro da sigla.
Flávio Bolsonaro perde apoio onde mais precisava crescer
O desgaste atinge Flávio Bolsonaro no ponto em que sua campanha mais tenta avançar: o voto feminino. A crise com Michelle abriu uma fissura pública na tentativa de apresentar o senador como herdeiro natural de Jair Bolsonaro e reorganizar a extrema direita para 2026.
A Fórum mostrou que Flávio tenta buscar uma vice mulher para conter a exposição da crise com Michelle. A estratégia, porém, esbarra no fato de que a principal liderança feminina do bolsonarismo deixou o comando partidário após dizer que foi desrespeitada pelo próprio enteado.
Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação de Jair Bolsonaro, também expôs o desconforto com a manobra. Como mostrou a Fórum, ele criticou o golpe interno que barrou Priscila Costa e deixou ainda mais evidente a divisão entre aliados de Michelle e o grupo de Flávio.
Calendário eleitoral aperta o uso da imagem de Michelle
A disputa ocorre em meio ao avanço do calendário eleitoral. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão será exibido de 28 de agosto a 1º de outubro no primeiro turno.
A propaganda partidária do primeiro semestre terminou em 30 de junho. A partir de agora, o PL entra na fase decisiva de convenções, registro de candidaturas e montagem das chapas. É nesse intervalo que a cúpula tenta preservar a imagem de Michelle, mesmo com a ex-primeira-dama fora do comando da principal estrutura feminina da legenda.
Michelle ainda é cotada para disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal, mas sua candidatura ficou incerta após a crise com Flávio. Valdemar tenta mantê-la no tabuleiro, enquanto o entorno da ex-primeira-dama dá sinais de incômodo com a forma como ela foi tratada pelo núcleo masculino da sucessão bolsonarista.
O resultado é uma crise de imagem que o PL tenta resolver usando a própria imagem de Michelle. A legenda afastou sua principal liderança feminina da direção, barrou a sucessão de uma aliada e agora tenta manter a ex-primeira-dama como rosto de uma campanha comandada por homens que ela própria acusou de desrespeito político.
Texto: Plinio Teodoro
Fonte: Revista Fórum