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Mídia ultrapassou todos os limites nessas eleições

Na avaliação dos jornalistas Raimundo Pereira, Luis Nassif e Bernardo Kucinski, a grande imprensa, apesar de sempre ter sido crítica e preconceituosa em relação a Lula e ao governo PT, se superou a partir das denúncias do mensalão.

SÃO PAULO – Em momentos eleitorais, a essência de uma atuação democrática da mídia é garantir o debate plural de idéias e atuar como mediadora deste processo. Algo que estaria muito longe da realidade dessas eleições presidenciais, na avaliação dos participantes do debate “Mídia e eleições”, realizado pela Carta Maior na noite desta quinta-feira (26), em São Paulo. Participaram do evento os jornalistas Luis Nassif, da TV Cultura, Raimundo Pereira, colaborador da revista Carta Capital, e Bernardo Kucinski, editor associado da Carta Maior. Eles foram unânimes ao afirmar que, apesar do conservadorismo da imprensa brasileira não ser novidade, a recente cobertura dos grandes veículos ultrapassou todos os limites já vistos no país. Ao analisar o acompanhamento do caso da compra do dossiê contra o PSDB e a divulgação das fotos do dinheiro apreendido pela Polícia Federal às vésperas do primeiro turno, ficou clara a opção da imprensa em favorecer uma das candidaturas.

“Às vezes a imprensa cria fantasias. Qual é o significado de uma foto de dinheiro? Todo mundo já sabia que o dinheiro existia. Foto de dinheiro é igual a foto de dinheiro; não há nenhuma informação nova. Mas a imprensa divulgou as imagens e ficou esperando inverter o resultado. Achava que a tal foto tinha um efeito mágico, quando o único interesse em sua divulgação era político eleitoral. Então, jornalisticamente, o interesse era descobrir quem tinha vazado a foto. Essa era a informação, que não foi dada no início”, avalia Luis Nassif.

Na opinião de Bernardo Kucinski, desde a crise do mensalão houve uma mudança qualitativa de padrão na mídia. Apesar de sempre ter sido crítica e de revelar traços de discriminação e preconceito em relação a Lula e ao governo PT, no ano passado a grande imprensa teria aprofundado este processo. “Os veículos se fecharam num processo de linchamento coletivo do PT e do governo, desde a chefia até os repórteres, sem nenhum constrangimento. Isso aconteceu com todos os veículos, com raras exceções. Confesso que fiquei assustado com este comportamento. É um fenômeno cultural importante, cuja profundidade só o futuro vai dizer”, acredita.

São vários os fatores que podem ter desencadeado neste resultado. Há uma série de fatores internos ao jornalismo – como a alta rotatividade e precariedade das condições de trabalho e o grande número de estagiários nas redações – que torna o jornalista mais vulnerável. Outro problema seria a adesão da grande imprensa, em nível internacional, à visão de mundo apregoada pelo capitalismo, com o agravante da característica brasileira de uma imprensa com origem oligárquica. Por fim, os erros do próprio governo e do Partido dos Trabalhadores. Diante da relevância da questão da corrupção, o que aconteceu no governo Lula se transformou na gota d´água e o resultado foi um infinito número de reportagens incriminatórias – muitas inverídicas –, em que o abandono de princípios como a presunção da inocência foi latente.

Os primórdios deste comportamento da mídia, na avaliação dos jornalistas presentes, estão na campanha pelo impeachment de Fernando Collor de Mello na década de 90. Naquela época, teria nascido uma competição entre os jornais por notícias cada vez mais espetaculares. “Quando não havia mais fatos, inventava-se. Era a síndrome do orgasmo permanente. A imprensa precisava de denúncias. O que aparecesse valia. O público se viciou em matérias escatológicas e a imprensa tinha que responder a isso”, lembra Nassif.

No meio da década de 90, o processo de abertura da economia acabou gerando uma elite internacionalista, que Nassif chama de “geração Daslu”, que teria contaminado o preconceito da classe média e da imprensa em relação à parcela mais pobre da população brasileira. “Fernando Henrique teve um papel anti-pedagógico nesse período, quando começou a associar modernização a esse sentimento superior: “temos um país provinciano e somos a elite internacionalizada”. Foi terrível. A palavra e o exemplo de um presidente é mais forte do que a caneta dele”, acredita Nassif.

Quando os jornais perceberam que o leitor gostava desse “internacionalismo”, essa linha editorial virou “padrão”. Seguindo o exemplo da revista Veja, que arriscou pesado na derrubada do governo, a imprensa voltou ao clima da campanha pelo impeachment da década de 90, desta vez contra Lula, intensificado brutalmente nas últimas semanas do primeiro turno. Na avaliação dos debatedores, essa “guerra de vida ou morte” comprada pelos meios de comunicação levou a uma cegueira dos veículos, que acabaram se auto-referenciando e perdendo sensibilidade em relação ao leitor. Neste episódio, a mídia não teria conseguido perceber que havia algo mais amplo ao seu entorno, e que fazia com que, apesar de seus esforços, o candidato Alckmin não subisse nas pesquisas.

Conseqüências para o segundo turno

A orquestração midiática na última semana de setembro certamente contribuiu para que Lula não fosse eleito já no primeiro turno. No entanto, o inchaço de votos obtido pela candidatura de Geraldo Alckmin logo se desfez no início da campanha do segundo turno. A mídia também teria contribuído para isso. Ao promover uma overdose de ataques a Lula, os jornais acabaram contribuindo para uma vitimização do presidente, e levando para o seu lado aqueles que ainda não tinham opção definida no pleito. Ao mesmo tempo, para os jornalistas, Alckmin não conseguiu sustentar sua imagem de bom governador e bom gestor.

“Alckmin é um louva-deus, parece certinho. Mas, do ponto de vista político, é “sanguinário”: busca o poder, encheu as prisões de gente pobre, alimentou rebelião do PCC por direitos humanos. Tentou mudar e ir para cima do Lula e virou de fato a pessoa que representa o tipo de política que faz. Aí enrolou as pernas e caiu”, avalia Raimundo Pereira. “Só um milagre salva o louva-deus da derrota agora”, acredita.

Para o jornalista, independente do resultado eleitoral, é preciso trabalhar pela unidade da imprensa alternativa e pelo fortalecimento da imprensa popular. “A imprensa brasileira se monopolizou ainda mais e o PT errou porque não viu que a imprensa era essencial para a mudança da consciência popular. Enquanto o movimento popular não se reerguer com plenitude e fazer ouvir sua voz, não vai ter jeito. O país é dividido em classes sociais. À medida, por exemplo, em que a Veja piora, a meu ver, em qualidade, cresce no gosto de uma camada da sociedade. Por isso precisamos de uma imprensa popular forte”, afirma Pereira.

Durante o debate, também ficou clara a importância do papel da internet na democratização da informação. A conclusão é a de que, com o segundo turno, ao contrário do que queria a direita, gerou-se um clima mais positivo para a reorganização da sociedade em torno de um projeto de uma nova mídia.

“Há uma causa socialista em jogo e há uma causa capitalista em jogo. Mas o mais importante pra nossa imprensa é defender os princípios da democracia, da diversidade do contraditório. Pela primeira vez, o povo deu uma aula de como manter a civilidade para a mídia, para aquela que deveria ser a guardiã dessa civilidade”, conclui Nassif.

Por Bia Barbosa.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.

Por 14:16 Notícias

Mídia ultrapassou todos os limites nessas eleições

Na avaliação dos jornalistas Raimundo Pereira, Luis Nassif e Bernardo Kucinski, a grande imprensa, apesar de sempre ter sido crítica e preconceituosa em relação a Lula e ao governo PT, se superou a partir das denúncias do mensalão.
SÃO PAULO – Em momentos eleitorais, a essência de uma atuação democrática da mídia é garantir o debate plural de idéias e atuar como mediadora deste processo. Algo que estaria muito longe da realidade dessas eleições presidenciais, na avaliação dos participantes do debate “Mídia e eleições”, realizado pela Carta Maior na noite desta quinta-feira (26), em São Paulo. Participaram do evento os jornalistas Luis Nassif, da TV Cultura, Raimundo Pereira, colaborador da revista Carta Capital, e Bernardo Kucinski, editor associado da Carta Maior. Eles foram unânimes ao afirmar que, apesar do conservadorismo da imprensa brasileira não ser novidade, a recente cobertura dos grandes veículos ultrapassou todos os limites já vistos no país. Ao analisar o acompanhamento do caso da compra do dossiê contra o PSDB e a divulgação das fotos do dinheiro apreendido pela Polícia Federal às vésperas do primeiro turno, ficou clara a opção da imprensa em favorecer uma das candidaturas.
“Às vezes a imprensa cria fantasias. Qual é o significado de uma foto de dinheiro? Todo mundo já sabia que o dinheiro existia. Foto de dinheiro é igual a foto de dinheiro; não há nenhuma informação nova. Mas a imprensa divulgou as imagens e ficou esperando inverter o resultado. Achava que a tal foto tinha um efeito mágico, quando o único interesse em sua divulgação era político eleitoral. Então, jornalisticamente, o interesse era descobrir quem tinha vazado a foto. Essa era a informação, que não foi dada no início”, avalia Luis Nassif.
Na opinião de Bernardo Kucinski, desde a crise do mensalão houve uma mudança qualitativa de padrão na mídia. Apesar de sempre ter sido crítica e de revelar traços de discriminação e preconceito em relação a Lula e ao governo PT, no ano passado a grande imprensa teria aprofundado este processo. “Os veículos se fecharam num processo de linchamento coletivo do PT e do governo, desde a chefia até os repórteres, sem nenhum constrangimento. Isso aconteceu com todos os veículos, com raras exceções. Confesso que fiquei assustado com este comportamento. É um fenômeno cultural importante, cuja profundidade só o futuro vai dizer”, acredita.
São vários os fatores que podem ter desencadeado neste resultado. Há uma série de fatores internos ao jornalismo – como a alta rotatividade e precariedade das condições de trabalho e o grande número de estagiários nas redações – que torna o jornalista mais vulnerável. Outro problema seria a adesão da grande imprensa, em nível internacional, à visão de mundo apregoada pelo capitalismo, com o agravante da característica brasileira de uma imprensa com origem oligárquica. Por fim, os erros do próprio governo e do Partido dos Trabalhadores. Diante da relevância da questão da corrupção, o que aconteceu no governo Lula se transformou na gota d´água e o resultado foi um infinito número de reportagens incriminatórias – muitas inverídicas –, em que o abandono de princípios como a presunção da inocência foi latente.
Os primórdios deste comportamento da mídia, na avaliação dos jornalistas presentes, estão na campanha pelo impeachment de Fernando Collor de Mello na década de 90. Naquela época, teria nascido uma competição entre os jornais por notícias cada vez mais espetaculares. “Quando não havia mais fatos, inventava-se. Era a síndrome do orgasmo permanente. A imprensa precisava de denúncias. O que aparecesse valia. O público se viciou em matérias escatológicas e a imprensa tinha que responder a isso”, lembra Nassif.
No meio da década de 90, o processo de abertura da economia acabou gerando uma elite internacionalista, que Nassif chama de “geração Daslu”, que teria contaminado o preconceito da classe média e da imprensa em relação à parcela mais pobre da população brasileira. “Fernando Henrique teve um papel anti-pedagógico nesse período, quando começou a associar modernização a esse sentimento superior: “temos um país provinciano e somos a elite internacionalizada”. Foi terrível. A palavra e o exemplo de um presidente é mais forte do que a caneta dele”, acredita Nassif.
Quando os jornais perceberam que o leitor gostava desse “internacionalismo”, essa linha editorial virou “padrão”. Seguindo o exemplo da revista Veja, que arriscou pesado na derrubada do governo, a imprensa voltou ao clima da campanha pelo impeachment da década de 90, desta vez contra Lula, intensificado brutalmente nas últimas semanas do primeiro turno. Na avaliação dos debatedores, essa “guerra de vida ou morte” comprada pelos meios de comunicação levou a uma cegueira dos veículos, que acabaram se auto-referenciando e perdendo sensibilidade em relação ao leitor. Neste episódio, a mídia não teria conseguido perceber que havia algo mais amplo ao seu entorno, e que fazia com que, apesar de seus esforços, o candidato Alckmin não subisse nas pesquisas.
Conseqüências para o segundo turno
A orquestração midiática na última semana de setembro certamente contribuiu para que Lula não fosse eleito já no primeiro turno. No entanto, o inchaço de votos obtido pela candidatura de Geraldo Alckmin logo se desfez no início da campanha do segundo turno. A mídia também teria contribuído para isso. Ao promover uma overdose de ataques a Lula, os jornais acabaram contribuindo para uma vitimização do presidente, e levando para o seu lado aqueles que ainda não tinham opção definida no pleito. Ao mesmo tempo, para os jornalistas, Alckmin não conseguiu sustentar sua imagem de bom governador e bom gestor.
“Alckmin é um louva-deus, parece certinho. Mas, do ponto de vista político, é “sanguinário”: busca o poder, encheu as prisões de gente pobre, alimentou rebelião do PCC por direitos humanos. Tentou mudar e ir para cima do Lula e virou de fato a pessoa que representa o tipo de política que faz. Aí enrolou as pernas e caiu”, avalia Raimundo Pereira. “Só um milagre salva o louva-deus da derrota agora”, acredita.
Para o jornalista, independente do resultado eleitoral, é preciso trabalhar pela unidade da imprensa alternativa e pelo fortalecimento da imprensa popular. “A imprensa brasileira se monopolizou ainda mais e o PT errou porque não viu que a imprensa era essencial para a mudança da consciência popular. Enquanto o movimento popular não se reerguer com plenitude e fazer ouvir sua voz, não vai ter jeito. O país é dividido em classes sociais. À medida, por exemplo, em que a Veja piora, a meu ver, em qualidade, cresce no gosto de uma camada da sociedade. Por isso precisamos de uma imprensa popular forte”, afirma Pereira.
Durante o debate, também ficou clara a importância do papel da internet na democratização da informação. A conclusão é a de que, com o segundo turno, ao contrário do que queria a direita, gerou-se um clima mais positivo para a reorganização da sociedade em torno de um projeto de uma nova mídia.
“Há uma causa socialista em jogo e há uma causa capitalista em jogo. Mas o mais importante pra nossa imprensa é defender os princípios da democracia, da diversidade do contraditório. Pela primeira vez, o povo deu uma aula de como manter a civilidade para a mídia, para aquela que deveria ser a guardiã dessa civilidade”, conclui Nassif.
Por Bia Barbosa.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.

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