Em visita à mesquita mantida no bairro da Tijuca pela Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro – SBMRJ, a reportagem do UNIDADE pôde conhecer mais sobre o islamismo. A religião vem sendo encarada como fomentadora do terrorismo ao prometer o céu aos suicidas e integrantes de milícias após a morte em atentados a bomba ou em combate. Mas seus praticantes garantem que esta visão equivocada é divulgada pela mídia pró-Israel com o objetivo de estimular o ódio aos seguidores da religião fundada por Maomé. Eles ressaltam que sua principal saudação – as-salam’alaik – significa “que a paz esteja contigo” e destacam que suas escrituras sagradas pregam o respeito absoluto pela vida. Segundo os ensinamentos do Alcorão, “matar um só ser humano é como matar a humanidade inteira e, ao contrário, salvar uma só pessoa é como salvar toda a humanidade”, informa Sami Isbelle, escritor e diretor do Departamento Educacional e Divulgação da SBMRJ.
As escrituras sagradas do Islã determinam que um homem só pode matar outro se seu território for invadido ou em caso da mais extrema necessidade, sempre em defesa própria. Mas a questão do terrorismo não é consensual nem entre os muçulmanos. Embora a situação da Palestina seja excepcional, os ataques suicidas provocam controvérsias. “Um muçulmano não pode, nunca, iniciar um combate, e auto-defesa não é o mesmo que terrorismo. Mas é preciso considerar também a questão psicológica que se coloca numa situação como a dos palestinos. Que tipo de sentimento pode ter uma pessoa que vive num território ocupado, sob constante opressão?”, pondera Isbelle.
Fé e política
Como os árabes não conhecem a dissociação entre religião e sociedade, as preleções da oração de sexta-feira sempre tocam em temas políticos. Na pregação proferida durante a visita do UNIDADE, o Iman destacou a situação da Faixa de Gaza e ressaltou a importância da fé para a solução do conflito. “A vitória será dos crentes”, disse o religioso, destacando que não se deve esperar nada dos governantes árabes, mas suplicar a Deus que dê “aos irmãos em Gaza a força e a paciência para continuarem resistindo”. A fala do Iman não fez nenhuma referência ao uso de qualquer tipo de violência, mas não deixou de refletir a revolta com o massacre que Israel está fazendo no território palestino e à situação de opressão que vivem os muçulmanos de todo o mundo. “A que ponto chegou este povo, que se sentiu de alma lavada por um sapato arremessado contra Bush! Precisamos reconquistar nossa dignidade”, defendeu o pregador. O orador disse ainda que a comunidade islamica internacional deveria boicotar os produtos norte-americanos e israelenses como forma de enfraquecer financeiramente os dois países e, assim, reduzir suas possibilidades de investir em armamentos. “Cada gole de coca-cola é o sangue derramado de um irmão”, disse o pregador.
Mas os religiosos não pregam a violência. Perguntado sobre qual seria a forma de solucionar o conflito no Oriente Médio, Sami Isbelle não fala diretamente, mas defende a necessidade de se respeitar o direito dos palestinos a seu território. “A paz só vai acontecer quando houver justiça. A resistência vai continuar enquanto não houver o estado da Palestina”, defende. Quanto aos muçulmanos em todo o mundo, seu papel é esclarecer os não islâmicos sobre a religião, dissipando dúvidas e ideias equivocadas, realizar manifestações para sensibilizar as autoridades e a população sobre a necessidade de se devolver a terra aos palestinos e incluir pedidos pela solução do conflito em suas súplicas, a parte da oração em que os muçulmanos fazem a Alah seus apelos.
Mais do que erros de tradução
O mau uso do termo jihad, traduzido no ocidente por “guerra santa”, é outra fonte de aborrecimento para os islâmicos. Mais de um muçulmano presente à oração de sexta-feira na mesquita da Tijuca ressaltou que a palavra significa “esforço, empenho” feito por cada um pelo seu aperfeiçoamento pessoal e também para difundir a religião iniciada por Maomé. O equívoco de interpretação começou ainda na Idade Média, quando o termo foi usado para definir as guerras religiosas – era a época das cruzadas.
Em 1975, estudantes palestinos que viviam no Cairo, capital do Egito, fundaram a organização política Jihad Islâmica. O grupo cresceu na Faixa de Gaza e tem sido responsável por alguns dos atentados terroristas mais violentos cometidos na região. Aliado ao uso medieval do termo, o surgimento da organização terrorista que leva este nome só fez aumentar o engano.
Com a testa no chão
A oração de sexta-feira, que ocorre após o meio-dia, é a única reunião obrigatória na Mesquita. Diariamente, há horários definidos para cinco orações diferentes, mas estas podem ser praticadas em qualquer local. Somente a reza do último dia útil da semana é praticada comunitariamente no templo islâmico, e marca o início do período de descanso. Os muçulmanos rezam juntos, em filas, e assistem a uma preleção – a Khutbah. Esta pregação é feita pelo Iman, o líder religioso da mesquita, ou pelo Sheikh, pessoa que detém profundos conhecimentos sobre a religião, como uma espécie de teólogo, que pode tanto ser um jovem que estudou em universidade muçulmana para obter o título ou o membro mais idoso e mais estudioso da comunidade. Os seguidores de Maomé rezam de pé e também sentados sobre as pernas, e tocam o chão com a testa em alguns momentos. As mulheres não rezam lado a lado com os homens, e, na mesquita da Tijuca, ocupam um espaço separado no mesmo salão. Em alguns templos, elas ocupam uma sala separada e em outros uma cortina separa o grupo dos homens do das mulheres, que não veem o Iman. Segundo um praticante, a segregação não tem nenhum fundo sexista, mas é feita para evitar constrangimentos que podem ser causados pelas posições assumidas durante a oração.
Defendendo a atitude pacífica como princípio, os muçulmanos são tolerantes. As religiões judaica e cristã não são apenas toleradas, mas respeitadas. Seus praticantes são chamados de “povos do livro” por sua base religiosa fundada sobre a Bíblia, que reúne algumas das escrituras sagradas reveladas aos cinco profetas reconhecidos pelos islamicos, dos quais Jesus é um dos principais.
Esta coincidência de escrituras tem raízes familiares: a cisão entre os povos hebreu e árabe se deu a partir de Abraão. O profeta e sua esposa, Sara, não tinham filhos. Abraão – de comum acordo com sua mulher – teve um filho, Ismael, com uma de suas escravas, a egípcia Agar. Mas Sara engravidou e deu a luz a Isaac, que continuou a linhagem hebraica. Maomé, o fundador do Islã, é descendente de Ismael. Jesus Cristo pertence à linhagem de Isaac.
Mas isto não quer dizer que os muçulmanos flexibilizem conceitos: o Islã é monoteísta, não aceita a ideia de reencarnação e não admite que haja intermediários entre Alah e os homens. Daí que o líder religioso não é um sacerdote no sentido ocidental da palavra, mas uma espécie de guia espiritual, um profundo conhecedor das escrituras sagradas capaz de esclarecer as dúvidas dos praticantes da religião e ajudá-los a zelar por suas virtudes. O islamismo também não tem uma estrutura clerical como a de outras religiões, cada Iman é o lider de sua mesquita e não deve obediência ou respeito hierárquico a ninguém.
Os muçulmanos foram chamados durante muitos anos de maometanos, mas rejeitam este termo, porque não reverenciam Maomé como divindade, mas como o último e mais importante profeta, que recebeu a mensagem mais importante, o Alcorão. E esclarecem que Alah não é um deus diferente, mas apenas a palavra árabe para designar a divindade única, que é a mesma dos judeus. A noção cristã de Santíssima Trindade é rejeitada pelo Islã.
Uma religião, muitos povos
Engana-se quem pensa que os muçulmanos se concentram nos países árabes. Hoje, apenas 18% dos seguidores do Islã pertencem a esta etnia. A religião se espalhou por todos os continentes e, hoje, é amplamente praticada em muitos países. A maior população muçulmana é a da Indonésia, um país asiático, com aproximadamente 213,4 milhões de praticantes. A França tem cerca de 4,5 milhões de muçulmanos, que representam 7,5% de toda a população do país. No Brasil, números oficiais indicam que há cerca de 30 mil praticantes do islamismo, mas a Federação Islamica Brasileira acredita que este número beira 1,5 milhão. O estado de São Paulo tem 28 instituições, entre mesquitas, associações e até um hospital. O Paraná vem em segundo lugar, com 7 templos.
Não é de hoje que o islamismo vem ganhando adeptos entre as celebridades, como o músico Cat Stevens, famoso nos anos 70 por canções como “Father and Son” e “Where do the children play”. Ele se tornou muçulmano em 1977 e adotou o nome de Yusuf Islam. Um artista que abraçou recentemente a fé islâmica foi Michael Jackson, convertido por influência de amigos e do próprio irmão, Jermaine. Sua cerimônia de conversão teria sido assistida por Yusuf Islam. Os boxeadores Cassius Clay, que passou a usar o nome de Muhammad Ali, e Mike Tyson são duas figuras do esporte que se converteram. O norte-americano Malcom X, ativista dos direitos civis dos negros, também era muçulmano.
Volta às origens
Para o Islã, todos nascem muçulmanos, mas, ao longo da vida e por força das circunstâncias, deixam de sê-lo, daí o uso da palavra reversão para designar o praticante de outra religião que abraça a fé islâmica. A Chahada – testemunho, em Português – é uma cerimônia simples. Diante do Iman e de dois praticantes do islamismo, que servem como testemunhas, o aspirante a muçulmano deve recitar duas frases. Em tradução aproximada do Árabe: “Não há outro deus além de Alah; Muhammad (Maomé) é o mensageiro de Deus”.
Durante a visita de nossa reportagem à Mesquita da Tijuca, assistimos a uma reversão. A oração já havia terminado e algumas pessoas ainda permaneciam no local, conversando. O Iman chamou a atenção dos presentes e logo todos cercaram o homem que se apresentava para fazer a Chahada. Tudo foi feito de maneira rápida, simples e discreta, mas era visível a alegria daquela comunidade por receber alguém que retornava à religião fundada por Maomé.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.bancariosrjes.org.br.