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Na Bolívia, oligarquia quer a autonomia para manter seus privilégios

Sacha Llorenti, vice-ministro de Coordenação com Movimentos Sociais da Bolívia em entrevista ao HP:

“Oligarquia quer a autonomia para manter seus privilégios”

Em entrevista no Palácio Presidencial, em La Paz, o vice-ministro de Coordenação com Movimentos Sociais e Sociedade Civil da Bolívia, Sacha Sergio Llorenti Soliz, falou da participação das organizações populares no governo Evo Morales, além de denunciar a tentativa de divisão do país pela oligarquia com o apoio dos EUA

HP – Qual o papel do Ministério no desenvolvimento do processo revolucionário?

Sacha – O fato de que se tenha criado o Ministério da Coordenação com os Movimentos Sociais, vinculado à Presidência da República, é um sinal claro de qual é o compromisso deste governo. Não somente porque é a primeira vez que há uma instância desta natureza, senão porque tem a ver com a própria estrutura e forma de governo. Este é um governo dos movimentos sociais, das organizações sociais. O presidente da República é um dirigente sindical, tem uma trajetória de pelo menos 20 anos de sindicalista. E se prestarmos atenção em quem está no gabinete do ministro, do vice-ministro, no Congresso, na Assembléia Constituinte, nos distintos espaços de poder, vamos ver que são as organizações sociais mais importantes do país. Elas estão representadas de maneira orgânica, eleitas desde a base, mostrando a conformação deste governo e deste processo revolucionário, com profundas raízes no povo.

HP – Os movimentos sociais estão construindo um novo poder.

Sacha – O fato de que este gabinete esteja no Palácio de Governo implica numa relação constante, do presidente da República com as mais variadas organizações dos movimentos sociais. Todos os dias se realizam reuniões com elas, numa lógica horizontal, de debate permanente, de consulta política. Aqui se constrói a política pública com as organizações sociais, e isso implica obviamente também numa relação de ida e volta entre os dirigentes das organizações e a Presidência da República. Esta é uma prática cotidiana. Então, esse Palácio, que antes era uma casa de negócios, um lugar onde apenas entravam empresários para favorecer um pequeno grupo de famílias no país, tem se transformado também de maneira simbólica, porque agora são as organizações que lhe dão vida. Não é que o visitem, aqui trabalham cotidianamente.

HP – Participação, educação e renovação do processo…

Sacha – Esta é a particularidade que falo, pois assim se constrói com eles a política pública, numa relação de proposta permanente. As organizações sociais passam, à medida que transcorre o tempo, do simples protesto à proposta, da transformação de seus pleitos em uma política coerente, medindo as capacidades que têm o Estado.

HP – Quais as principais contribuições das entidades populares para o avanço da revolução?

Sacha – São inúmeras. A erradicação do analfabetismo, a promulgação da Renda Dignidade, a defesa do processo constituinte, das mais distintas maneiras. A Bolívia é o país que provavelmente mais tenha organizações, de todo tipo. E essas organizações se traduzem em um cenário de poder público, sobretudo nas zonas em que pudemos avançar, nas reformas estruturais. E temos nossos dirigentes sindicais como prefeitos, vereadores, participando das mais variadas lutas, como a travada contra o analfabetismo. Porém, sua participação é muito maior. O processo de nacionalização, por exemplo, não pode ser entendido sem os movimentos sociais, até porque vem de um pouco antes. O instrumento político Pela Soberania dos Povos foi criado pelas organizações sociais. O Movimento ao Socialismo (MAS – partido do presidente Evo Morales) é uma criação dos movimentos sociais, o braço político das organizações sociais. Não é um partido tradicional. Na verdade, a estrutura de apoio do processo tem uma mínima expressão no partido, se mantendo como uma expressão cabal dos movimentos sociais. Não há dúvida de que isso é o que gera uma dinâmica muito maior, porque a estrutura das organizações permite uma aproximação e uma constante avaliação do processo. Se bem que isso seja um pouco complexo, a construção da agenda antes de 2005, 2006, quando entramos no governo, era feita pelos movimentos sociais. Então, para entender o processo boliviano, as pessoas têm que entender como funcionam as organizações em seu conjunto, sua ação protagonista no governo.

HP – Como o presidente Evo tem construído a unidade em seu governo?

Sacha – Há três eixos, e nosso presidente tem dito isso bem claro: podemos ter muitas diferenças, nosso governo tem distintas tendências de esquerda. Se a pessoa é antiimperialista, anticolonialista, antineoliberal, então podemos ter diferença em tudo o demais. Porém, se nossa luta corresponde a esta identidade, então precisamos trabalhar juntos.

HP – Qual o principal desafio neste momento?

Sacha – Continuar fazendo gestões paras aprofundar as transformações políticas, econômicas e sociais. E lutar contra a reação. Creio que era Lênin que dizia que a medida de uma revolução está na medida de sua reação. E nós vemos que aqui há uma reação muito forte, que tem obviamente apoio dos Estados Unidos, dos grupos oligárquicos empresariais que administraram o país nas últimas décadas. Muitos meios de comunicação entram em sintonia, em cadeia, para atacar o governo. São os interesses políticos da direita, de algumas autoridades regionais. A tarefa é derrotar a reação, da mesma forma como chegamos ao governo, de maneira democrática. Esta é uma revolução democrática. O movimento popular boliviano tem nos ensinado a via da luta democrática nas últimas décadas. De resistência ao neoliberalismo, de resistência à ingerência estadunidense, mas também de geração de uma proposta alternativa de transformação estrutural. O movimento popular boliviano, diferentemente do que passou no Peru, por exemplo, onde houve uma guerra com mais de 70 mil mortos, ou na Colômbia, apostou na via democrática. Esta é a via que vamos utilizar para defender o processo. A direita não quer ouvir a voz do povo, por isso se articula agora contra o referendo revogatório.

HP – O povo está com o processo…

Sacha – Para além do que aparece nos meios fora do país, nós estamos muito tranqüilos porque a maioria do povo boliviano alcançou uma consciência coletiva que este é um processo irreversível, que não voltará atrás, que não há forma de retornar ao passado. Nosso compromisso é aprofundá-lo. O caminho é honrar a Bolívia com a recuperação das nossas riquezas naturais, a redistribuição da riqueza, o fortalecimento do Estado, fazendo respeitar nossa dignidade na relação com qualquer país. Dentro de uma visão integradora, respeitosa dos direitos humanos.

HP – Os estatutos autonômicos são uma negação da autonomia solidária proposta pelo presidente. Como sintetizar esta diferença?

Sacha – Os estatutos autonômicos representam os projetos da oposição, esta é a questão essencial, básica. Basta ler para a pessoa se dar conta o que é que eles escondem, quais são seus objetivos. O que pretendem é a divisão do país, consolidar em nível regional os privilégios que perderam em nível nacional, mantê-los. Esta é a questão de Santa Cruz, Beni e Pando: manter a estrutura de posse da terra própria do século 16, feudal. Em troca disso, nós propusemos, antes das eleições de 2005, uma autonomia solidária, com igualdade, que fortaleça a unidade do país. Autonomias entendidas como a distribuição não só dos recursos como das responsabilidades, para evitar práticas antidemocráticas que foram daninho para o país. Agora isso é um discurso, a autonomia é uma desculpa, um pretexto da direita para esconder seu interesse real, que é a manutenção de seus privilégios. Ao longo da história é isso o que fizeram as oligarquias em nosso país. Em 1899 tivemos uma guerra federal, assim chamada, e ganharam os federalistas, mas jamais se impôs um sistema federal na Bolívia, porque era a oligarquia que queria manter seus privilégios. Quando eles vêem ameaçados nacionalmente seus interesses mesquinhos, se retraem para as regiões. E é isso o que estão fazendo agora.

HP -Daí os referendos.

Sacha – Por isso estão levando adiante os referendos autonômicos, consultas absolutamente ilegais, à margem da Constituição. E é contraditório pois dizem que ganharam com 70, 80% em suas regiões, mas se negam a realizar um referendo revogatório com observadores internacionais, com controle eleitoral. Fica claro. O processo boliviano mais se parece a uma peça de teatro com atores sem matizes. Cada um toma uma posição, a favor ou contra. Está bem, isso revela a magnitude histórica do processo. Vemos por exemplo como reage a alta hierarquia da igreja católica, como reagem os empresários privados, a embaixada dos EUA.

HP – Acompanhei pela TV em Tarija um bispo benzendo a fraude. O problema principal naquele estado não é o latifúndio, mas a imensa riqueza de hidrocarbonetos.

Sacha – O tema dos recursos naturais é a luta eterna dos povos, a batalha pelo seu controle, a forma como se distribui estas riquezas. A revolução de 1952 fez uma reforma agrária que jamais chegou ao Oriente do país. Em Santa Cruz, por exemplo, apenas 15 famílias controlam mais de 80% da terra, é impressionante. Estes mesmos atores políticos, estes mesmos interesses, sempre se opuseram à nacionalização. Mas agora que há recursos, porque a nacionalização é uma conquista que está beneficiando os distintos setores do país, eles querem que estes recursos sejam somente para as regiões. Não aceitam distribui-los de maneira solidária. Então, vamos continuar nesta batalha. Seguramente vamos enfrentar muitos problemas mais adiante, porém vamos continuar mantendo nossa lógica de princípios. Afirmamos que os serviços básicos são direitos humanos; que a democracia é a forma de resolver nossas diferenças; que é preciso defender a mãe terra, os nossos recursos estratégicos, as nossas empresas estratégicas.

HP – São concepções que têm permitido que o país avance.

Sacha – Nosso país está se recuperando economicamente. Depois de 20 anos de neoliberalismo, 18 anos de ditaduras militares, a Bolívia, que foi o país com menos reservas internacionais, está melhorando. Recebemos o país em 2066 com 1,7 bilhão de dólares de reservas, agora temos mais de 6,5 bilhões. Pelo segundo ano consecutivo estamos tendo superávit fiscal, quando era histórico o nosso déficit. Já tivemos até que pedir esmola ao exterior para poder pagar o salário dos nossos professores. Isso acabou. Vamos erradicar o analfabetismo este ano, conseguimos estabelecer um bônus para as crianças – o Juancito Pinto – que está reduzindo a evasão escolar; garantimos a Renda Dignidade para os idosos com mais de 60 anos; conseguimos a multiplicação das vagas nas universidades; aumentamos os salários dos professores e dos trabalhadores na saúde e os investimentos nestas áreas; estamos levando programas e projetos sociais a todos os municípios do país, e é por isso que as pessoas apóiam o governo. As últimas pesquisas registram um apoio de 63%. Em que pese toda a campanha midiática contrária, todos estes interesses.

HP – As rádios, TVs e jornais parecem que falam de outro país, é uma guerra psicológica constante. Com exceção do Canal 7 e da Rádio Pátria Nova, do Estado, os grandes meios mentem sem descanso. O que fazer?

Sacha – Vamos continuar informando o país pelos distintos meios e vias, denunciando a lógica que está por detrás destes interesses. Os donos dos maiores meios de comunicação são os donos da terra no Oriente do país. Isso deixa clara a sua militância na oposição. Nós continuamos com outros meios, outras formas de informação. É uma luta desigual, mas estamos montando nossas redes de rádios comunitárias, com os camponeses, com os povos indígenas. Temos formas de aproximação do presidente, de relação mais direta com a população.

HP -Há a possibilidade de se estabelecer um controle público sobre as emissoras privadas? Como colocar um freio a tantos abusos e tanta desinformação?

Sacha – Nós não temos maioria no Congresso, somente na Câmara dos Deputados. O Senado ainda está nas mãos da oposição. Este é um tema de interesse político e econômico que não interessa aos donos dos meios de comunicação. Eles não querem uma transformação desta natureza.

HP – Qual o peso que joga a solidariedade internacional ao processo boliviano neste momento?

Sacha – Nós seguimos o exemplo internacionalista de Che Guevara. A solidariedade entendida não só como um apoio moral ou um apoio meramente formal, mas de estar somando junto, exposta ao mesmo destino. Somos beneficiários do internacionalismo e queremos contribuir com o internacionalismo. Temos a solidariedade incondicional de Cuba e Venezuela. São centenas de médicos cubanos e profissionais que têm estado conosco contribuindo na melhoria da saúde e para o processo de alfabetização. Na Bolívia estamos vivendo um dos processos mais comoventes da história latino-americana. É um país onde mais de 60% da população é indígena e que pela primeira vez tem um presidente indígena. E o presidente não é só um índio, mas um índio revolucionário, que está transformando as estruturas do país. E neste momento na América Latina estamos nos encontrando com uma onda, uma tendência, para construir sociedades mais justas. O que temos de fazer é traduzir os sonhos de nossos libertadores e mártires em realidade. E aí temos grandes desafios, imensos, como a Unasur. A solidariedade dos povos é clara, o que falta é materializá-la nos governos progressistas.

Por LEONARDO SEVERO – Enviado Especial.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.horadopovo.com.br.

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