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Por 10:53 Opinião de trabalhador, Recentes

O escândalo do Banco Master: Lobo de Wall Street e Lobo da Faria Lima. Por Pablo Diaz

Em 18 de novembro de 2025 foi decretada pelo Banco Central, a liquidação extrajudicial Banco Master. Num primeiro levantamento, o rombo foi estimado em R$ 82 bilhões, sendo que R$ 52 bilhões serão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada sem fins lucrativos que tem o papel de dar segurança a pequenos investidores e depositantes, cobrindo perdas em caso de falência ou liquidação de um banco, com teto de R$ 250.000,00 por CPF. Este “seguro” FGC  está embutido nas tarifas descontadas dos ganhos de cada aplicador. Em última instância, o seguro sai do bolso do pequeno investidor/poupador/depositante de todos os bancos.

Breve histórico

O banco Master é originário do Banco Máxima, inabilitado pelo BC em 2016 e reabilitado por Daniel Vorcaro em associação com os irmãos Conte, que deixaram a sociedade em 2019, sendo substituídos por Augusto Lima, que detinha a carteira de consignado dos servidores do governo baiano, conhecido como CREDICESTA. O então governador Ruy Costa licitou o CREDICESTA, que foi comprado pelo banco Master, tendo o contrato a duração de 15 anos. O banco Master não obteve habilitação em 2017, quando o BC era presidido pelo israelense Goldjfan, nomeado pelo presidente golpista Temer. Porém, voltando à carga em 2019 e sob a direção de Roberto Campos Neto (nomeado por Bolsonaro), o Master, enfim, teve sua licença liberada.

Modus operandi

O Banco Master trabalhou basicamente na emissão de CDB’s (Certificado de Depósito Bancário).

AnoCDB’s emitidos (em reais)
2019        2,5 bilhões
2022      17,4 bilhões
2025      50,0 bilhões

O dinheiro captado não era emprestado, mas aplicado em papéis de empresas com retorno duvidoso, tais como Light Energia, Ambipar (um arranjo estranhíssimo de administração ambiental da Amazônia), CVC, Oi, Oncoclínicas, além dos precatórios federais e estaduais de recebimento a perder de vista. Muitos analistas do mundo das finanças (Faria Lima) estranharam tamanha ousadia e apetite por altos riscos.

Ocorre que as “administradoras” ligadas ao banco Master inflavam artificialmente o valor desses papéis, o que permitia que o banco continuasse a emitir os CDB’s sem que houvesse o amanhã. A compra desses papéis permitido pelo BC e nos moldes do acordo de Basileia é de 10 para 1 de capital próprio. O limite é 10, ou seja, para cada real de capital próprio, o banco pode comprar até 10 em papéis.  A média de operação dos bancos no mercado brasileiro é mais conservadora, de 6 para 1. O Master operava no limite.

Além do mais, remunerava os CDB’s emitidos em 130% e até 140% do CDI (sempre muito próxima à taxa Selic), enquanto a média de mercado era de 98%. Por que e como conseguia remunerar acima da média do mercado? PIRÂMIDE.

A ilusão de “130%” ou “140%” do CDI dava uma impressão de magnitude, não sendo mais que 3% e 4% a mais que o CDI. Na medida que aplicava o dinheiro captado em papéis quase podres, no jargão do mercado, conseguia remunerar à medida que captava mais. Porém, em algum momento, o castelo de cartas iria desmoronar.

O sucesso também era alimentado pela ganância difusa do ganho fácil no curto prazo. Tanto para os “investidores”, quanto para o Master (em especial, Vorcaro), seus protetores no Congresso Nacional (Senado e Câmara), no executivo do Distrito Federal e outros estados, no judiciário e também bancos. Bancos? Sim, bancos.

Quando um banco como o Master, de capilaridade pequena, oferece papéis no mercado, recorre a bancos maiores, pagando uma comissão de 0,5% em média por papel “vendido”. O Master pagava 4,5%, ou seja, nove vezes a mais que a média do mercado. Nove vezes. Isso fez brilhar os olhos do BTG e da XP investimentos (onde Dallagnol e Fux fizeram palestras a portas fechadas). Mas, ressalte-se que ambos orientavam aos seus investidores aplicar até R$ 250.000,00 por CPF para ficarem dentro da proteção do FGC. “Sabe nada, inocente”, diria o “Compadre Washington” do É o Tchan. Nenhum banco ofertante será admoestado. Afinal, como disse Jessé de Souza: O Banco Central é a boca de fumo dos banqueiros.

Mas, o dia do juízo final contábil chegou. O barco começou a afundar.

Em dezembro de 2024, o então presidente do BC, Campos Neto, chamou às pressas Vorcaro para reunião em Brasília, na sede do BC. O pedido era simples: a) parar de emitir CDBs; b) injetar (capitalizar) R$ 2 bilhões até março de 2025.

O Banco Master tinha R$ 50 bilhões em CDB’s emitidos, dos quais R$ 12 bilhões venceriam em 2025. Uma análise rápida sobre os demonstrativos financeiros mostrava a insuficiência de caixa para cobrir os compromissos. Descasamento, déficit, calote. Calote no caso dos bancos é quebra e uma possível corrida bancária. Mas existia o FGC.

Em 28 de março de 2025, o BRB (Banco Regional de Brasília) anunciou a compra de 49% das ações do Master. Uma tentativa de salvar a lavoura, já que o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no banco Master. Salvar o Master seria esconder a maracutaia. O prejuízo para o banco público será de R$ 8 bilhões no balanço. Seu ex-presidente está preso e disposto a fazer delação.

Sob a presidência de Coutinho no BRB, ocorreu o financiamento um pouco raro da mansão do senador Flávio Bolsonaro. A conferir.

Já sob nova presidência de Galípolo, o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB. O esquema de pirâmide e lavagem de dinheiro começou a fazer água.

Os fundos de pensão aplicando num banco sem fundos

Em meio à polarização política que fez morada no Brasil, o que importa é a capacidade de lacrar sem importar-se com os fatos, com o factual.  Assim, em meio às acusações, nos rodapés dos noticiários, aparecem o oposto das manchetes, que sempre buscam onerar a esquerda sobre os “malfeitos”. Governadores e prefeitos colocaram o dinheiro precioso de seus servidores, das suas aposentadorias em especial, na roda-viva de maracutaias do Banco Master. Majoritária e esmagadoramente do espectro “conservador”, daquela turma da pregação da moralidade, da família e de Deus.

  • Situação dos Fundos: Oito dos fundos que investiram no Master ficaram deficitários. O RioPrevidência tentou reter judicialmente repasses.
  • Riscos: As letras financeiras não possuem proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aportes desse volume, o que coloca os recursos em risco, dependendo da massa falida.
  • Políticos envolvidos: A investigação mira em indícios de participação de políticos de diversos partidos, incluindo o caso da Amprev, ligada ao grupo do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Estado / MunicípioValor InvestidoAdministrador(a) Atual*Partido
Estado do Rio de Janeiro/RJR$ 970 milhõesCláudio CastroPL
Estado do Amapá/APR$ 400 milhõesClécio LuísSolidariedade
Maceió/ALR$ 97 milhõesJHC (João Henrique Caldas)PL
São Roque/SPR$ 93,15 milhõesGuto IssaPodemos
Cajamar/SPR$ 87 milhõesDanilo JoanPSD
Itaguaí/RJR$ 59,6 milhõesRubem VieiraPodemos
Estado do Amazonas/AMR$ 50 milhõesWilson LimaUnião Brasil
Aparecida de Goiânia/GOR$ 40 milhõesLeandro VilelaMDB
Araras/SPR$ 29 milhõesPedrinho EliseuRepublicanos
Congonhas/MGR$ 14 milhõesCláudio Antônio de SouzaPSD
Fátima do Sul/MSR$ 7 milhõesIlda MachadoPP
Santo Antônio de Posse/SPR$ 7 milhõesFelipe RossiMDB
Imbituva/PRR$ 4 milhõesBertoldo RoverPSD
Paulista/PER$ 3 milhõesYves RibeiroPSDB
São Gabriel do Oeste/MSR$ 3 milhõesJeferson TomazoniPSDB
Jateí/MSR$ 2,5 milhõesEraldo Jorge LeitePSDB
Angélica/MSR$ 2 milhõesEdison CassuciPDT
Santa Rita d’Oeste/SPR$ 2 milhõesOsmar SampaioPL
Campo Grande/MSR$ 1,2 milhãoAdriane LopesPP

*Os nomes e partidos referem-se às administrações municipais/estaduais mais recentes disponíveis publicamente.

Classificação ideológica aproximada baseada no posicionamento nacional predominante dos partidos no espectro político brasileiro. Em muitos municípios, alianças locais podem divergir do posicionamento nacional. Fontes: Veja (lista dos fundos públicos no Master e dados públicos eleitorais/TSE).

Desmistificando

A cantilena da “liberdade”, do excesso de Estado, etc., transformaram o campo econômico num espaço do vale-tudo. A tal Faria Lima aplicou poucos filtros sobre a origem nem sempre límpida do dinheiro. Os órgãos que deveriam regular e fiscalizar estão mortalmente contaminados por um falso discurso de liberdade. O que vimos foi a substituição da lei do estado de direito pela lei do mercado, da selva, do vale-tudo.

Com a operação “Carbono Oculto”, a PF desbaratou um esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado, em especial o PCC, na área de produção e distribuição de combustíveis, através de fundos de investimento administrado pela REAG Investimentos, que também estava umbilicalmente ligada ao banco Master. Ambos foram liquidados. Antes tarde do que nunca.

Os principais órgãos reguladores e fiscalizadores do mercado financeiro e acionário, Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários, ficaram aquém das atribuições e permitiram que o dinheiro transitasse livremente, sem necessidade de registrar a origem. As Fintechs voaram em céu de brigadeiro. Bancos como Santander e Caixa foram acusados pela PF de não notificarem os depósitos do PCC.

Com Campos Neto, BC enviou 31 notificações de irregularidades ao Master, notificações foram enviadas entre 2022 e 2024, segundo relatório da Diretoria de Fiscalização. Banco só foi liquidado em 2025.

O Banco Central tornou-se independente em fevereiro de 2021, ainda no governo Bolsonaro e sob votação on-line comandada por ninguém menos que Artur Lira (PP-AL). Como é possível constatar, a independência não é em relação aos bancos ou aos interesses das finanças, mais ou menos obscuros, mas em relação ao povo brasileiro. Dois diretores do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e Belline Santana (ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária) foram afastados e estão com tornozeleira eletrônica.

A CVM, que deveria em tese ser um órgão técnico sem interferência política, deixou de ser. Em abril de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro indicou o advogado João Pedro Barroso do Nascimento para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), uma escolha que gerou discussões sobre a politização do órgão fiscalizador do mercado financeiro. João Pedro Barroso do Nascimento é amigo de infância do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente.

A CVM perdeu 90% do seu orçamento na última década e 2/3 de seu pessoal. Coincidentemente, após o golpe de 2016 que tirou Dilma Roussef da presidência e impôs a “ponte para o futuro” de Temer. Ponte para o Furto do futuro do brasileiro. Um futuro a temer.

Pelotão de Choque no Congresso e no STF

O Executivo vem perdendo poder e influência na máquina governamental. Desde o golpe de 2014, aprofundou-se a centralização das decisões nas esferas do legislativo e do judiciário. Já na presidência de Bolsonaro o poder de Artur Lira e a chantagem permanente do Congresso surgiu como força motriz da “governança” nacional, sob a batuta de um STF que avança sobre os direitos do trabalhador-contribuinte, mantendo uma democracia de fachada e limitada.

Três ministros do STF tiveram seus nomes envolvidos com Banco Master: Dias Toffoli, Alexandre Moraes e Kassio Nunes Marques. O primeiro por sociedade no resort Tayaya e os dois últimos por advocacia de laço, ou seja, quando um parente do magistrado/ministro advoga para o réu.

No Congresso Nacional, os destaques na defesa dos interesses do Master são Ciro Nogueira (PP-PI) no Senado e Filipe Barros (PL-PR) na Câmara, que apresentaram emenda para aumentar o FGC. Os valores chegariam a R$ 1 milhão por CPF. O rombo aumentaria e levaria o sistema bancário à bancarrota. Não haveria recursos suficientes  para garantir o sistema. A “Emenda Master” não chegou a tempo, pois o escândalo havia estourado e ganhado as manchetes dos jornais.

Houve acusação de acordo entre direita e centrão para barrar a CPI do Master, que atingiria ambos em cheio. Em troca, passou a dosimetria que diminui a pena para os golpistas de janeiro de 2023. Flavio Bolsonaro nega o acordão.

Há a blindagem também do governador do DF, Ibaneis Rocha e sua vice que por ora assume a titularidade.

Para onde vai?

Com Vorcaro e Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) presos, há uma possibilidade de passar o país a limpo, desde que as forças políticas que serão atingidas, o permitam.

Houve até envolvimento da igreja Lagoinha de Belo Horizonte, uma espécie de igreja gourmet. O seu principal pastor e cunhado de Vorcaro, Zettel, foi preso pela primeira vez ao tentar embarcar para Dubai, uma lavanderia de dinheiro no Oriente Médio. Segundo a PF, a prisão deveu-se a “possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, praticados por organização criminosa”.  Zettel foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões ) e Tarcísio de Freitas em São Paulo (R$ 2 milhões). Por que?

É necessário restabelecer os poderes regulatório e fiscalizatório do BC e da CVM, bem como questionar o que significa independência. De quem? Serviu para quem? É saudável para um projeto nacional de desenvolvimento?

A guerra da narrativa

A Globonews teve que apresentar suas desculpas sobre um desastroso power point que acusava o atual governo como culpado e envolvido no escândalo Master. Nada mais distante da realidade. O escândalo envolve sim, várias autoridades da República. Atingem majoritariamente o campo da centro-direita e direita (Centrão) com número minoritário no espectro de centro-esquerda.

O falecido jornalista Paulo Henrique Amorim cunhou o termo PIG (porco em inglês): Partido da Imprensa Golpista para a imprensa brasileira. Imprensa esmagadoramente pró-capital, despojada de ideias nacionais e serviçal dos interesses estrangeiros, em tempos de capitalismo financeirizado.

Lembremos que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi o principal patrocinador e estrela do “1º Summit Valor Econômico Brazil-USA”, organizado pelo jornal Valor Econômico (Grupo Globo) em Nova Iorque, em 15 de maio de 2024. O evento serviu para apresentar Vorcaro ao mercado financeiro americano.

Cine Trancoso

Kompromat é um termo utilizado para denominar dossiês comprometedores. Tal qual Epstein nos EUA ou Sergio Moro no hotel Bourbon (segundo Tony Garcia), um determinado aspirante ao poder de chantagear, convida autoridades incautas para festas “privés” com a contratação de garotas de programa. Filma e passa a ter essas autoridades nas mãos. Modelar a “nova legalidade” sob a sua vontade ou interesse.

As filmagens estão sob a custódia da PF. Ao povo não interessa o que cada um faz fora do trabalho, na sua vida privada. O povo paga quando este privado modela sob interesses criminosos a nova ordem legal que concentra privilégios, poder e riqueza, deixando a conta a ser paga pelo povo.

O custo da ignorância é a perda da esperança!

Pablo Diaz é economista e mestre em Tecnologia e Trabalho pela Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR), além de atuar como coordenador estadual do Dieese-PR.

Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região

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