A janela está se abrindo
Coluna Econômica – 18/07/2008
Estamos em pleno mar, já dizia o poeta, no epicentro do mais profundo processo de transformações da história desde a ascensão dos Estados Unidos como potência hegemônica – em fins do século 19 – e do período do pós-guerra.
O que ocorre, hoje em dia, é o fim do dólar como moeda hegemônica mundial; o fortalecimento dos países emergentes com visão estratégica e mercados internos portentosos.
A hegemonia da moeda sempre se refletiu sobre as políticas econômicas dos países periféricos, seja no reinado da libra ou do dólar. Se o dono da moeda está precisando de recursos, aumenta os juros. Imediatamente converge para ele toda a liquidez mundial, provocando grandes desvalorizações cambiais nos países que se deixaram ficar à mercê dos fluxos de capitais. Na outra ponta, se pretende estimular sua economia, reduz os juros. Há uma revoada de moeda forte para fora, provocando a apreciação das moedas dos periféricos – matando a indústria nascente nacional.
O Brasil viveu claramente esse dilema da década de 1890 até 1930.
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Já os Estados Unidos seguiram outra trajetória. Primeiro, acumularam energia na costa leste, estimulando o processo de industrialização. Quando houve a conquista do oeste, a ampliação da fronteira agrícola, já havia uma boa base industrial para alavancar o crescimento. Não foi difícil atrair indústrias da Inglaterra e de outros países da Europa.
Tem sido assim com a China.
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O Brasil perdeu o bonde do início da República. Poderá tomar o bonde agora, desde que tenha visão estratégica.
Os pontos positivos são os seguintes:
1. Mercado interno em expansão, fruto da estabilidade da economia e das políticas sociais das últimas décadas.
2. Papel vital na nova matriz energética mundial, com o petróleo e o etanol.
3. Papel vital na produção de alimentos.
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Esses são os diferenciais. Mas insuficientes para o grande salto. Há vulnerabilidades enormes ainda a serem superadas. Listo algumas delas:
1. A maior delas é a vulnerabilidade nas contas externas. O país precisa urgentemente recuperar a competitividade do real e escapar da armadilha de uma nova crise externa.
2. A questão da infra-estrutura, essencial para incorporar definitivamente as novas fronteiras agrícolas.
Esses pontos são essenciais e urgentes. Além deles:
Um investimento pesado em políticas científico-tecnológicas visando incluir definitivamente o país na era do conhecimento.
Montagem de um plano estratégico de inserção das multinacionais brasileiras, especialmente nos setores de energia e alimentos, utilizando o fundo soberano a ser criado.
Necessidade de ampliar não apenas as políticas sociais como as políticas de estímulo às pequenas e micro empresas.
Integração urgente com a América Latina, visando a ampliação do mercado de consumo e de produção de alimentos.
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O Brasil já atingiu a maioridade. Já conta com todas as peças de um país moderno no tabuleiro. Falta pensar estrategicamente, identificar oportunidades – o que o governo bem ou mal está conseguindo – mas, principalmente, os grandes fatores de risco – para os quais o governo Lula está cego. O maior deles se chama crise nas contas externas.
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O que pensam os leitores?
Nassif, eu peço que você chame uma equipe de ciências sociais para estudar as respostas dos leitores para seu artigo.
Por Hans Bintje
Como holandês que passou pela experiência de reconstrução da terra natal após a Segunda Guerra, seu texto para mim é um chamado magnífico para ação. Se o governo da Holanda publicasse algo semelhante, no mesmo dia eu me apresentaria para trabalhar para o país.
Gostaria de ver a reação dos brasileiros, porque são eles os destinatários de seu texto.
Será que vão reagir com indiferença? Será que vão utilizar o texto como um elemento para reflexão sobre os possíveis rumos do Brasil?
Será que vão utilizar seu artigo para inspirar planos de ação?
Será que vão chamar para si mesmos a responsabilidade sobre o futuro do Brasil ao invés de ficar jogando isso para terceiros, sejam políticos e/ou tecnocratas?
Afinal, o que pensam os seus leitores?
enviada por Luis Nassif
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17/07/08 07:00
As relações câmbio x Bovespa
Coluna Econômica – 17/07/2008
Vamos tentar entender melhor as relações entre câmbio e Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).
Hoje em dia há uma interligação ampla entre os mercados mundiais. Fluxos de capitais circulam entre países. Nessas rodadas, levam em consideração dois indicadores: o nível da cotação do ativo em si; e o dólar, frente as demais moedas.
Por exemplo, suponha que invista em algum ativo nos Estados Unidos; que o rendimento seja de 5% ao ano; mas que o dólar se desvalorize em 10% em relação ao euro. Obviamente quem investiu, perdeu.
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É por isso que, à medida que o dólar foi se desvalorizando, parte dos investimentos passou a migrar para ativos reais (petróleo, commodities agrícolas e metálicas) criando bolhas especulativas perigosas.
Criou-se um ambiente de alta volatilidade, pólvora no ar, suscetível a qualquer notícia mais grave (ou promissora) sobre a economia global. Antes de ontem, por exemplo, bastou um aumento do pessimismo em relação ao crescimento da economia global para provocar uma queda forte no preço do barril de petróleo.
A queda na atividade econômica provocaria uma queda no consumo de petróleo. Mas apenas isso para os preços despencarem? Não, mais importante foi o temor de uma corrida de investidores saindo de petróleo, que poderia provocar uma queda mais acentuada ainda do petróleo.
Esses movimentos especulativos – que ajudam a ampliar o pêndulo em qualquer direção – são chamados de “overshooting”.
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Entendido isso, vamos à Bovespa. Em 2005, o Índice Bovespa valorizou-se 27,71%. Em dólares, a alta foi de 44,83%. Em 2006, 32,93% em reais; 45,54% em dólares. Em 2007, 43,65% em reais; 73,39% em dólares. Nesse período, a elevação em reais foi de 133%; em dólares, de 289%.
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Dá para entender a razão das agências de risco terem conferido grau de investimento ao Brasil, mesmo em meio a essa turbulência extraordinária? Queriam possibilitar aos investidores internacionais os últimos momentos de festa.
Veja bem que esse ganho em dólar, de um lado, atraía investimentos externos de todas as partes do mundo. Com a enxurrada de dinheiro entrando, a Bolsa inflava. Aumentavam os preços não apenas em dólares, mas em reais.
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Para 2009, o mercado espera o dólar em R$ 1,75, segundo os dados do Banco Central.
O economista-chefe do Banco Itaú, Tomas Málaga, destaca que o investidor estrangeiro se beneficia com dois movimentos na bolsa: o primeiro, é a valorização das empresas brasileiras e, o outro, a valorização do real.
“Se você tiver uma reversão com o câmbio, essa segunda vantagem do investidor estrangeiro acabaria. Isso pode trazer um impacto à Bolsa, mas vai depender muito do contexto internacional em que isso acontecer”, avalia.
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A questão central é essa inter-relação entre dólar e índices. À medida que ficar claro que não haverá mais espaço para apreciação cambial, haverá mais fuga de recursos do mercado, com impactos sobre os indicadores de preços em reais.
enviada por Luis Nassif
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15/07/08 07:00
O risco da deflação mundial
Coluna Econômica – 15/08/2008
A Bloomberg chama a atenção para o novo risco da economia mundial: a deflação, isto é, a queda generalizad de preços. Entrevistou Albert Edwards, analista do Société Générale SA que previu a crise cambial da Ásia há uma década.
O alerta de Edwards para os Bancos Centrais mundiais, é de que a deflação poderá se transformar no próximo fantasma da crise internacional. “A preocupação com a inflação é exagerada e a ameaça da deflação pode reaparecer, estimulada pela recessão mundial e pelo colapso da bolha das commodities”, disse Edwards, 47, que trabalha em Londres.
Segundo a Bloomberg, Edwards foi considerado pela Thomson Extel o melhor estrategista mundial da Europa nos últimos sete anos. Essa mesma posição foi externada há duas semanas pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais.
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Esse é o risco maior, pouco apontado pelos analistas. Toda crise financeira decorre de uma exacerbação da liquidez. Tem-se os ativos financeiros de um lado, os ativos reais do outro. O movimento de compra dos ativos determina seu preço.
Se o volume de ativos financeiros aumenta substancialmente, existe um aumento nos ativos reais (os bens que podem ser comprados), muitas vezes mais que proporcional (no fenômeno das “bolhas”).
Esse movimento se dá via redução dos juros (por excesso de dinheiro disponível) que impacta os cálculos sobre o fluxo de resultados futuros da companhia: se aceito receber menos juros, significa que aceito pagar um preço maior pelos ativos. Esse movimento produziu altas substanciais no preço dos ativos mundiais.
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Há um componente novo na parada, que é o aumento da demanda mundial de produtos provocado pelo fator China. Mesmo assim, o componente financeiro mantém enorme influência nos preços dos ativos. Além disso, com o mercado de derivativos, ficou extremamente difícil controlar a expansão da liquidez. Pois não se montou uma zorra justamente em cima de um dos financiamentos mais estáveis, o crédito imobiliário?
O problema dessas crises de liquidez é que se comportam como o canhão que se desprende da corrente do navio em plena tempestade: ninguém sabe para onde vai. Os movimentos de manada são terríveis. Ora se corre para um lado, ora para o outro.
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Em geral, caberia ao sistema dos maiores bancos centrais – FED, BCE, Banco da Inglaterra – coordenar essas expectativas. Mas a crise os deixou sem rumo, presos ao dilema de ou combater a inflação (provocando a deflação) ou combater a recessão (correndo risco de perder controle da inflação).
Quando se somam todos esses fatores, fica cada mais forte a hipótese da solução vir de forma traumática, na forma de uma deflação brava em cima da bolha. E aí, segundo a Bloomberg, bateria direto nas commodities internacionais.
Hoje em dia, o superávit brasileiro da balança comercial é inteirada calcada nos commodities, especialmente na alta dos preços. Daí a importância de se montar um plano de contingência para o caso de uma queda acentuada das cotações.
enviada por Luis Nassif
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11/07/08 07:00
Razões e expectativas sobre a inflação
Coluna Econômica – 11/07/2008
Vamos entender um pouco melhor as características da inflação brasileira.
Apesar de toda a suposta sofisticação da economia, a inflação se move de acordo com alguns princípios fundamentais: a oferta e procura; e a relação entre moeda e/ou ativos financeiros e bens reais.
A inflação atual é explicada por vários motivos, interligados. Em grande parte os motivos são internacionais: a elevação dos preços das commodities. Em parte, foi alimentada pelo aumento da demanda em países emergentes.
Mas também por problemas com algumas culturas agrícolas, problemas com a Argentina, conflito entre energia e alimentos nos Estados Unidos, problemas na área de petróleo.
Outro aspecto relevante foi a movimentação dos fundos especulativos, os chamados “fundos hedge”. Quando o dólar começou a arriar, esses recursos migraram para bolsas de commodities, ajudando a acentuar o movimento de alta.
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Internamente, alguns fatores vieram se somar ao choque externo. Houve problemas com algumas culturas agrícolas relevantes; a expansão acelerada do crédito na economia. O consumo aumentou via política de transferências de renda e crediário. Depois, permitiu algum aumento na massa salarial. Por outro lado, a apreciação do real ajudou a reduzir o impacto das altas de preços no mercado interno.
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O que se tem para o segundo semestre?
No campo da demanda, redução do mercado interno. Numa ponta, pela corrosão inflacionária sobre salários; na outra pelo maior rigor na concessão de crédito. Em relação ao mercado externo, queda das exportações devido ao câmbio apreciado e à redução do comércio mundial – fruto da crise internacional.
Internacionalmente, possibilidade ou de estabilização ou de queda nos preços das principais commodities devido ao movimento combinado de elevação dos juros internacionais e de recessão mundial à vista.
Esse quatro, portanto, permite acreditar em menor pressão inflacionária no segundo semestre.
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Mas há fatores soprando contra. Um deles, a questão do câmbio. No momento em que o mercado perceber que o câmbio é insustentável, haverá uma reversão rápida das cotações, pressionando a inflação. Se vier acompanhada de uma queda nos preços internacionais de commodities, o Brasil ganha do lado da inflação, mas acentuar-se-á o desequilíbrio nas contas externas.
Outro ponto são as conseqüências do IGP-M sobre os preços indexados da economia, especialmente tarifas públicas e as dívidas federalizadas dos estados. Em breve os estados começarão a sentir um aperto grande, do lado da dívida e da queda de receita.
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O risco maior será a possibilidade de uma indexação nos salários. No fundo, quando se fala em mais aperto fiscal, a idéia por trás é um tranco na economia que reduz o ritmo de crescimento e as demandas por reajustes salariais.
O risco maior – o da indexação ampla – porém, está afastado. Depois de quase 15 anos de estabilidade, não dá mais para falar em memória inflacionária, em reajustes sincronizados e mensais de preços, como ocorreu em outros tempos.
De qualquer modo, o próximo semestre será de riscos inflacionários, ainda.
enviada por Luis Nassif
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