fetec@fetecpr.com.br | (41) 3322-9885 | (41) 3324-5636

Por 21:56 Sem categoria

Os efeitos da crise no Brasil: mais humildade aos especialistas

Mais humildade aos especialistas

O soco no estômago da economia brasileira foi forte, é fato. O ano de 2009, por exemplo, começou com reversão abrupta no crescimento da classe média, incluindo a classe média popular. Hoje, no entanto, apenas os corações mais empedernidos têm convicção de que estivemos mais para o lúgubre cenário previsto pelos luminares e muito menos para a marolinha imaginada pelo presidente Lula. Que penalização você daria a quem previu o pior a ponto de assustar o país e levar empresários a superestimar o impacto da crise e demitir mais gente do que precisavam? O artigo é de Rodrigo de Almeida.

Recebido com descrédito, respondido com galhofa, replicado com ironia, o palpite presidencial de que a crise econômica chegaria ao Brasil com força de marolinha completará um ano em breve. Em outubro do ano passado, o país deparava-se com previsões sombrias de luminares do mercado e da imprensa, cuja síntese geral revelava que o tsunâmi global varreria o país de roldão – o desfecho do obituário nacional, escrito por Wall Street, era uma questão de tempo. Ganhos sociais se esmaeceriam com os meses de crise. A ineficiência governamental não daria conta de responder adequadamente à tragédia que se prenunciava.

Essas previsões desabonadoras vinham de conservadores à direita e à esquerda. Mas eis que diversos indicadores como emprego, consumo das famílias e produção industrial começam a voltar ao patamar pré-crise, e sem pressão inflacionária. O soco no estômago da economia brasileira foi forte, é fato. O ano de 2009, por exemplo, começou com reversão abrupta no crescimento da classe média, incluindo a classe média popular. Hoje, no entanto, apenas os corações mais empedernidos têm convicção de que estivemos mais para o lúgubre cenário previsto pelos luminares e muito menos para a marolinha imaginada pelo presidente Lula.

Nos próximos dias, o economista Marcelo Neri, da FGV, vai divulgar um estudo segundo o qual os índices de desigualdade e renda voltaram aos mesmos níveis anteriores à crise (situavam-se no melhor patamar da história). Se santo de casa não faz milagre, lembre-se, também, que nomes como Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do FMI, e Jim O’Neill, do Goldman Sachs e criador da expressão Bric, acham que o Brasil saiu da crise global maior do que entrou.

Observando tanto o descompasso entre previsões sombrias e a realidade quanto os ataques sofridos por analistas mais otimistas, vem à memória o impressionante trabalho de um arguto professor de Berkeley, Califórnia: Philip E. Tetlock. Ele passou quase 20 anos analisando as previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países e publicou no livro Expert political judgment (Princeton University Press, US$ 22 na Amazon). Não se trata de um livro de crítica da mídia, mas o trabalho oferece lições relevantes para o leitor/espectador começar a ficar um pouco mais precavido com a palavra dos sábios antecipadores do futuro. Foi publicado há três anos, mas tem o vigor de um lançamento da semana passada.

Tratando superficialmente a análise de Tetlock sobre o julgamento político dos especialistas, descobrem-se três coisas que qualquer leitor deveria descobrir por experiência própria. Primeiro, colunistas (com o signatário à frente) sabem menos do que parece. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. Diz ele: “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”.

O estudo mostrou que, entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% acabaram por acontecer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo).

Claro que erros fazem parte do jogo mas, no caso da mídia, há uma responsabilidade adicional. Tetlock afirma: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida ao ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos.

Tetlock se perguntaria: qual a punição prevista para os especialistas brasileiros que previram o pavor em forma de crise naqueles meses de setembro e outubro? Que penalização você daria a quem previu o pior a ponto de assustar o país e levar empresários a superestimar o impacto da crise e demitir mais gente do que precisavam? Fala-se aqui de penalização moral, claro. De credibilidade.

O professor pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente. O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”. Ou, para ser mais humilde, prognóstico… só depois do jogo.

Por Rodrigo de Almeida, que é colunista do Jornal do Brasil.

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil e no blog Coisas da Política.

======================================

Aos profetas do mau caminho

A realidade costuma arrefecer as ideias pregadas por quem ignora os matizes e opta pelos extremos. Na política, o efeito imediato é a criação de um clima de escândalo elevado à temperatura máxima, alimentado por fatos que viram o centro das atenções por semanas até que sumam no ar feito fumaça.

O debate público sobre a política e a economia brasileiras costuma exibir nuances de uma discussão de futebol – por aqui, ou é pau, ou pedra, ou o fim do caminho. Não raro observadores (públicos ou não) professam o equívoco de associar problemas políticos e econômicos a crises institucionais. Os “escândalos” no Congresso, as “denúncias” contra o governo e o pessimismo sobre a contaminação da crise internacional, movimentos especialmente ocorridos há quase um ano (mas não só nesse período), reforçam as evidências de que tem crescido o desfiladeiro que separa a “vida real” da paisagem de terra arrasada descrita por parcela da imprensa. A realidade, porém, costuma arrefecer as ideias pregadas por quem ignora os matizes e opta pelos extremos.

Na política, o efeito imediato é a criação de um clima de escândalo elevado à temperatura máxima, alimentado por fatos que viram o centro das atenções por semanas até que sumam no ar feito fumaça. Esse tipo de equívoco termina por tão-somente tumultuar o ambiente, resumir-se a uma queda de braço de linhagem udenista e favorecer os pelintras reais. Na economia, além do óbvio descolamento da realidade, geram-se falsas expectativas negativas, o que provoca efeitos desastrosos na vida do cidadão comum – vide a convicção, hoje cristalizada, de que os empresários exageraram nas demissões durante a crise, movidos por previsões sombrias de um cenário que acabou não se concretizando.

Antes que as gralhas comecem a gritar, é preciso sublinhar o óbvio: há, sim, graves problemas políticos e econômicos. O erro é associá-los a crises institucionais, como se o país vivesse uma paralisia decisória, as instituições tivessem deixado de funcionar e as mudanças cessassem. Os partidos, é fato, estão desgastados, o Congresso foi à rabeira da confiança nacional e o mandato parlamentar parece enxovalhado. Mas as instituições com poder fiscalizatório mantêm a simpatia do distinto público, a economia vai bem, obrigado, e antigas práticas das elites, como a transferência do controle institucional aos militares no caso de crises mais agudas, ficaram guardadas onde devem – nas gavetas da história.

À exceção das eleições presidenciais de 2002, quando a disputa pesou negativamente sobre os ombros da então frágil realidade macroeconômica do país, as crises originárias do Congresso e dos partidos permaneceram restritas ao mundo político. Se considerado o período pós-redemocratização, essa tendência é válida para os governos de José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Neles, imbricadas crises políticas provocaram baixa contaminação na economia e baixíssimo freio tanto no poder decisório dos governos quanto nos avanços institucionais. (Mesmo o ruidoso mandato de Fernando Collor demarcou o início da principal mudança da economia das últimas décadas, a abertura financeiro-comercial, que permitiu, mesmo de maneira imperfeita, a inserção do país no jogo internacional).

Crises econômicas mais contaminaram a política do que o inverso – a hiperinflação nos anos 80, por exemplo, corroeu tanto os salários quanto a popularidade de Sarney; o turbulento segundo mandato de FHC o impediu de fazer o sucessor e pavimentou o caminho para a ascensão do PT e de Lula ao poder. Isso é tão verdadeiro quanto é falso ignorar as mudanças ocorridas no período. No Iuperj/Candido Mendes, um grupo de pesquisadores, conduzidos pelo cientista político Renato Boschi, tem produzido, entre outras coisas, estudos sobre os padrões de continuidade e mudança no Brasil e na América Latina. Há quem enxergue a mudança apenas como resultado de momentos de crise. Há quem a veja como mecanismo inerente ao tempo e à história: ações incrementais se associam a legados institucionais, permitindo ao país enfrentar melhor as próprias crises.

Se aceita a segunda tese, a um conjunto de legados, como estabilidade macroeconômica, lei de responsabilidade fiscal e bancos públicos federais fortes, somam-se incrementos relevantes, como programas sociais robustos, maior intervenção estatal e aperfeiçoamentos de mecanismos e práticas fiscalizatórias no âmbito do Ministério Público, das polícias e da Receita Federal. Isso não foi obra do acaso, mas das instituições e seus personagens – muitos dos quais escarnecidos pelos habituais profetas do mau caminho. É o Brasil.

Por Rodrigo de Almeida, que é editorialista e colunista do Jornal do Brasil.

ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

Close