A revista “Veja” trouxe, em sua edição de 7 de março, o artigo “Os quatro mitos da escola brasileira” assinado pelo economista Gustavo Ioschpe, atacando a escola pública e os professores. O economista chega a afirmar: “Os professores brasileiros recebem salário superior à média nacional. Se fossem realmente injustiçados, o magistério não seria uma das carreiras mais populares do país.”
O presidente da APEOESP, Carlos Ramiro de Castro, enviou carta à revista respondendo as críticas. Leia a íntegra da carta:
O artigo “Os quatro mitos da escola brasileira”, de Gustavo Ioschpe (Veja, 07 de março), surpreende por afirmações que desafiam a observação cotidiana da educação brasileira.
A primeira afirmação que merece reparo é a de os professores brasileiros recebem salários superiores à média nacional, sem que se esclareça de quem se está falando. Serão os professores da rede pública, da rede privada, do ensino superior público ou privado ou todos, indistintamente? Certamente o autor não está se referindo aos professores das escolas públicas. Basta aferir quanto recebem estes professores por jornadas estafantes de trabalho em duas ou mais escolas, para se verificar porque a qualidade do ensino público é tão sofrível.
A educação só melhorará, sim, no dia em que os professores forem melhor remunerados. O autor tenta refutar a necessária relação entre boa remuneração dos professores e qualidade do ensino com conclusões superficiais. Uma delas é a de que a melhoria salarial proporcionada pelo Fundef não melhorou a educação porque os professores não se tornaram bons educadores. Dizer isto é desconhecer que a qualidade de ensino também é resultado das políticas educacionais, da gestão das escolas e do sistema e das condições estruturais das unidades escolares. E os professores não têm poder de decisão sobre estes fatores determinantes para um ensino de qualidade. Em segundo lugar, a tal melhoria salarial apenas serviu para tirar os professores da mais absoluta indigência, na maior parte dos municípios do país.
Como jogar sobre os ombros dos professores da rede estadual de São Paulo o fracasso do estado nas avaliações da educação básica e do ensino médio, se os sucessivos governos estaduais instituíram há uma década um sistema de progressão continuada implementado de forma tão incorreta que se tornou verdadeira “aprovação automática” de alunos que mal sabem ler e escrever?
Evidentemente, além de bons salários aos professores as escolas precisam ter infra-estrutura adequada, condições de trabalho para os docentes e de aprendizagem para os alunos, número adequado de alunos por sala, programas de formação continuada e de atualização para os professores e uma série de outras condições. É preciso, enfim, que o Estado estimule os professores a se responsabilize de fato por uma educação de qualidade.
O Brasil precisa investir mais em educação. Comparar nossos investimentos com os atuais investimentos dos países desenvolvidos não ajuda a compreender nossas deficiências. Aqueles países – e outros que já fizeram sua revolução educacional – estabeleceram há anos sua infra-estrutura para a educação e chegaram a patamares de qualidade que necessitam apenas manter. O Brasil ainda precisa dar o salto. Isto custa dinheiro. E vale a pena investi-lo na educação.
Por fim, concordamos com o autor quando diz que a pretensa qualidade da escola particular é mito. Na verdade, com raríssimas exceções, são escolas que pouco oferecem em contrapartida às altas mensalidades que cobram de seus alunos.
Culpar os professores pelas deficiências da educação brasileira pode aplacar a consciência de alguns, mas não ajudará a nos transformar numa grande nação.
Por Carlos Ramiro de Castro, que é presidente da APEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cut.org.br.
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