Por José Augusto Valente
Hoje (16/10), foram divulgados os resultados da Pesquisa CNT de Rodovias 2014. Para saber com mais clareza as avaliações realizadas, fomos ao Relatório Gerencial (clique aqui), para examinar os itens relevantes, que são as condições do pavimento e da sinalização.
A Pesquisa CNT de Rodovias 2014 avaliou 98.475 quilômetros de rodovias pavimentadas por todo o país, entre rodovias federais e estaduais. Não encontrei no relatório quanto de cada foi avaliado. Mas, pelas anteriores, podemos considerar uns 60 mil quilômetros de federais e 38,5 mil quilômetros de estaduais.
O que nos mostra o Relatório Gerencial dessa pesquisa?
a) Velocidade em função do pavimento da pista de rolamento
Esse, sem dúvida, é o principal indicador. Afinal, o que se espera do pavimento é oferecer regularidade, suavidade e, portanto, sensação de segurança na condução dos veículos, especialmente dos caminhões.
De acordo com essa pesquisa, 96,1% do pavimento pesquisado não obriga à redução de velocidade pelos motoristas, o que representa aproximadamente 94,6 mil Km das rodovias pesquisadas, e não afetam a regularidade e suavidade da condução dos veículos.
b) Pavimento – pista de rolamento
A pesquisa mostra que 77,1% das rodovias brasileiras estão com o pavimento da pista de rolamento em boas condições, 19,1% têm remendos e apenas 3,8% apresentam buracos, afundamentos, ondulações na pista e pavimento totalmente destruído, conforme gráfico abaixo. Ressaltar que o item “Trinca em malha/remendos”, pela definição da CNT, exclui a existência de buracos. Se juntarmos os 77,1%, perfeito e desgastado, com 19,1%, com remendos, teremos 96,2%, que é exatamente o percentual de trechos rodoviários que oferecem uma condução suave, regular e segura, mencionado no item anterior.
c) Pavimento dos acostamentos
Segundo a pesquisa, 82,3% dos acostamentos existentes nas estradas brasileiras foram considerados ótimos por apresentarem o acostamento pavimentado e perfeito. Ela mostra, também, que 0,2% dos acostamentos foram considerados perfeitos, ainda que sem pavimentação. Apenas 17,5% não apresentavam condição de uso com segurança, devido a buracos, fissuras, presença de mato e desnível acentuado em relação à rodovia.
d) Sinalização – faixas centrais
Segundo a pesquisa, 52,4% das faixas centrais das rodovias estão com as pinturas visíveis e, em condições de separar o tráfego e regulamentar ultrapassagens. Entretanto, outros 40,8% apresentavam faixas com a pintura desgastada e 6,8% inexistente, como aponta o gráfico abaixo. Esse é o item mais desfavorável, entre os relevantes.
e) Sinalização – placas de limites de velocidade
Em 73,6% da extensão de rodovias avaliadas, há a presença de placas de limite de velocidade, conforme gráfico abaixo. Esse item, aliado ao relativo às faixas centrais, é fundamental para aumentar a segurança da condução rodoviária, o que não ocorre como esperado por se tratarem dos itens que mais são violados pelos motoristas, acarretando acidentes que resultam em grande mortalidade e ferimentos graves.
f) Sinalização – visibilidade das placas
A pesquisa constatou que 82,3% das placas são visíveis pelos condutores dos veículos, com a inexistência de mato cobrindo as placas e 5,4% apresentavam algum mato cobrindo, mas não totalmente. Esses é um indicador importante da eficiência da conservação realizada pelo DNIT, pelos governos estaduais e pelas concessionárias.
g) Sinalização – legibilidade das placas
De acordo com a CNT, 88,0% das placas estavam totalmente legíveis e em 10,3% se conseguia identificar o pictograma, embora esse elemento já se encontrasse desgastado. Outro indicador importante dos serviços de conservação dos gestores públicos e privados.
h) Geometria
Não se deve levar em conta a avaliação da geometria da via, já que a referida avaliação está fora dos padrões adotados internacionalmente. Apenas para sintetizar, a CNT defende que absolutamente todas as rodovias devam ser em pista dupla. Em país algum do mundo é assim, por ser desnecessário e economicamente inviável. Como 87,1% das rodovias pesquisadas são pista simples de mão dupla, o resultado final será sempre regular, por conta desse aspecto.
Qualquer país, com predominância de relevo ondulado e montanhoso como o nosso tem rodovias com pista simples, sem acostamento, sem 3a faixa. Isso implica que as velocidades têm que ser menores e devem ser respeitadas pelos condutores dos veículos, que não podem fazer ultrapassagens nos longos trechos de faixa central contínua.
Conclusão
Mais de 2/3 da malha pesquisada é composta de rodovias de regular ou baixo volume de tráfego. Naturalmente, essas rodovias recebem menos recursos regulares para restauração, manutenção e sinalização.
A avaliação da CNT não considera o tráfego nas rodovias, não informando os respectivos volumes de tráfego dessas ligações, o que permitiria estabelecer correlação entre a logística real e a situação da infraestrutura.
Assim a Rodovia Presidente Dutra (Rio-São Paulo), com seus 400 quilômetros e um volume de tráfego diário superior a 500 mil veículos, tem o mesmo peso que qualquer rodovia estadual, com 400 quilômetros e um volume médio diário de 2 mil veículos.
Eu avalio que as rodovias por onde trafegam pelo menos uns 80% das cargas, passageiros de ônibus, veículos particulares e motocicletas, estão em boas condições de trafegabilidade e conforto. Afinal essas são as principais rodovias do país. Quase todas operadas por concessionárias.
Essas condições satisfatórias deveriam garantir maior segurança, com redução acelerada de acidentes e mortalidade nas estradas. Entretanto, como já escrevi em artigo anterior (clique aqui), quanto melhores as rodovias, mais perigosas se tornam, por conta do excesso de velocidade, da imprudência sistemática e cultural dos motoristas brasileiros, aliados ao reduzido nível de penalização das infrações na malha rodoviária.
Finalmente, cabe ressaltar que a CNT não avalia rodovias mas sim ligações rodoviárias, muitas vezes juntando rodovias federais com muito tráfego com estaduais de baixo volume.
Por fim, é preciso saber que o critério de avaliação é extremamente rígido. Uma ligação rodoviária, para ser considerada Ótima, tem que ter nota final maior ou igual a 91. Para ser considerada Boa, nota final, maior ou igual a 81. Se a nota final for 80,5 será considerada como Regular. Como a nota final é a média das notas de pavimento, sinalização e geometria, e como esta vai sempre puxar para baixo ou para muito baixo, o resultado final sempre será de que há muitas deficiências nas rodovias. Bom para manchetes de jornais e tele-jornais, mas ruins para uma avaliação eficaz.
Artigo colhido no sítio http://logisticaetransportes.net/2014/11/04/pesquisa-cnt-2014-mostra-que-e-boa-a-situacao-das-rodovias-brasileiras/