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Quando o apito da fábrica silencia; e aí, o que acontece ?

O economista Jefferson José da Conceição, professor universitário e da subseção Dieese da CUT, lança na próxima segunda-feira (19), às 19 horas, o livro Quando o apito da fábrica silencia – Sindicatos, Empresas e Poder Público diante do fechamento de indústrias e eliminação de empregos na região do ABC. O lançamento, que acontece na livraria Alpharrabio, rua Eduardo Monteiro, 151, Jardim Bela Vista, em Santo André, contará com as presenças dos ministros Miguel Jorge, do Desenvolvimento Econômico, e Luiz Marinho, da Previdência Social. Leia abaixo a entrevista do autor ao Portal do Mundo do Trabalho.

Faça uma síntese do seu livro.

O livro descreve toda a experiência vivida na região do ABC, especialmente na década de 90. Esse intenso processo de mudança e reestruturação vivido naquela região, particularmente no setor industrial e, sobretudo, como os atores sociais, sindicatos, poder público e empresariado reagiram, mostrando saídas a meu ver inéditas e que representaram uma importante ponte para uma perspectiva melhor que a gente viu a partir de 2002. Então esse quadro positivo que se vê, de investimentos, de recuperação de emprego na região a partir do governo Lula, foi facilitado por essas respostas que a região deu à crise dos anos 90. Sobretudo o livro tratou disso.

A crise de 90 foi marcada pela desnacionalização, desindustrialização e desemprego recordes…

Foi uma crise brutal. A região talvez tenha sofrido muito mais que outras, exatamente por ter nucleado a grande indústria fordista desde os anos 50. Só para você ter uma idéia, lá se perdeu 176 mil postos de trabalho no setor industrial entre 90 e 99. Foram fechadas 46 grandes fábricas de autopeças. Não fechou nenhuma montadora, mas todas reduziram seu contingente de pessoal. O desaparecimento dessas fábricas deixou galpões vazios na cidade, um grande número de desempregados, trazendo impactos gigantescos para o orçamento público. O que chamou a atenção foi a densidade das respostas.

Como assim?

Houve um processo de aproximação dos atores que, sem abdicar das diferenças de inserção social, conseguiram elaborar respostas como a criação um Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, como o Fórum da Cidadania que reuniu todos os segmentos do setor privado. Posteriormente em 95 a Câmara Regional do ABC, que foi uma experiência que resultou em acordos importantes envolvendo empresários, trabalhadores e poder público. Disso resultou a criação de uma Agência de Desenvolvimento Econômico e isso foi capitaneado em boa parte pelo sindicalismo. Esse foi um dos objetivos da tese: verificar até que ponto a idéia de um “sindicalismo selvagem”, de um “custo ABC” eram verdadeiras. E eu mostrei que isso não correspondia nenhum pouco com o que a gente verificou neste período. Os Sindicatos cumpriram um papel central no enfrentamento da crise regional; Metalúrgicos, Químicos e Bancários tiveram papel de ponta, chegando a liderar o processo, reunindo os atores na busca destas soluções. Isso não tem nada a ver com selvageria nem com o tal custo ABC, que são idéias muito limitadas, do meu ponto de vista.

O sindicalismo capitaneou esta articulação…

Com certeza. Em muitos dos casos os Sindicatos buscaram organizar os atores, elaboraram propostas, articularam com o governo estadual, com o governo federal. No período, com o governo FHC na gestão, foi muito difícil.

Era remar contra a maré.

Exatamente isso, esta é uma boa definição. Porque você tinha de um lado, um processo de transformações em nível de modelo de organização produtiva. Aquelas fábricas fordistas do ABC foram postas em xeque pela emergência de um novo modelo do tipo japonês. Elas ficaram realmente caracterizadas como velhas e tiveram de se transformar e se modernizar sem nenhum apoio do governo federal, antes pelo contrário. As políticas governamentais da época foram muito agressivas. Só lembrando, rapidamente: o governo Fernando Henrique eliminou com a experiência da Câmara Setorial Automotiva que foi capitaneada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que resultou naqueles acordos que hoje explicam este crescimento gigantesco da indústria automobilística. FHC estabeleceu um regime automotivo que reduziu a alíquota de importação de peças para 2%. Abriu o mercado de auto-peças…

Escancarou…

Escancarou, várias empresas fecharam. FHC promoveu a guerra fiscal. Some-se isso com juros estratosféricos, taxas de câmbio congeladas. Essa somatória criou um cenário macroeconômico bastante agressivo, perverso, e que resultou nestes 176 mil postos de trabalho reduzidos.

E os salários?

Os salários tiveram um quadro muito difícil de negociação. Chama a atenção a capacidade da região, capitaneada pelo sindicalismo regional, de estabelecer respostas a este quadro. O livro buscou recuperar isso, descrever e explicar a razão destas respostas. A contribuição foi sobretudo a reprodução disso, para que sirva de modelo. A esperança é de que em parte, na medida do possível, que isso tudo deixe um aprendizado. Se o atual governo federal, que é mais progressista do que o anterior, der um suporte a estas iniciativas regionais, de mais cooperação entre os atores, de colaboração, sem abrir mão evidentemente das diferenças de cada um. Mas se der apoio financeiro, político, técnico a esses órgãos regionais, a esses espaços como consórcios, câmaras regionais, agências de desenvolvimento, acordos negociais de reestruturação, de modernização, tudo isso pode fazer com que outras regiões também busquem incrementar sua competitividade, se modernizarem, sem que isso represente perda de direitos para os trabalhadores,

Avanços que podem e devem se traduzir em avanços na qualidade de vida e trabalho…

Justamente. Aquela região do ABC, como você sabe bem, ela está longe de expressar o caso majoritário de relações do trabalho. Lá, os salários são mais elevados, os benefícios são mais altos. Isso vem desde as grandes greves de 78, 79 e 80. Mas o que chama a atenção neste caso foi como os sindicatos, no plural, buscaram preservar conquistas sem que isso impedisse a modernização. Isso não é uma coisa fácil e nem sem contradições também, mas foi buscado.

Dê alguns exemplos.

Vou dar exemplos muito rápidos, de alguns caminhos. Os acordos no âmbito das empresas como a participação nos Lucros ou Resultados, a introdução de novos equipamentos e novos processos como células de produção, o trabalho em grupo semi-autônomo, a jornada flexível, entre outros, permitiu a modernização das empresas, mas por meio da negociação. Quanto aos caminhos que podem ainda ser trilhados nesta mesma linha, dou um exemplo singelo: lá você tem um frete por empresa, os trabalhadores vão de ônibus para as empresas. Esta experiência toda que o livro buscou retratar permite concluir: por que não podemos pensar daqui para a frente – e os sindicatos estão pensando nisso – em preservar a idéia do frete com o poder público criando coletores-tronco. Assim você permite que não apenas uma empresa use aquela linha, mas três ou quatro, o que maximizaria o assento. Se isso vale para o transporte vale para a alimentação, para o convênio médico, para a segurança patrimonial, isso vale para a energia, para a água. Então o processo de busca de políticas públicas e privadas por meio da negociação, envolvendo o sindicato, que eu chamo de cooperação sem abdicar das diferenças, pode permitir um incremento da competitividade regional sem perda de direitos. Esse é um caminho que a região buscou trilhar e eu acho que pode ainda ser mais desenvolvido no futuro.

Como será o lançamento?

O lançamento do livro acontece na próxima segunda-feira, dia 19, às 19 horas, em Santo André, na editora Alpharrabio, na rua Eduardo Monteiro, 151, com a presença do ilustre ministro Miguel Jorge, do Desenvolvimento, e do ministro Luiz Marinho, da Previdência, que fizeram parte desta história e evidentemente, farão uma fala.

Por Leonardo Severo.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cut.org.br.

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