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Quem são os empresários que promoveram festa para Flávio Bolsonaro com prostitutas durante a pandemia

Os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Emerson Maximiano, que promoveram uma festa com prostitutas para Flávio Bolsonaro (PL) durante a pandemia de Covid-19, não são desconhecidos das autoridades brasileiras. Os dois foram investigados pela CPI da Pandemia por suspeitas de irregularidades em contratos milionários com o ex-governo Jair Bolsonaro (PL) e movimentações financeiras que levantaram suspeitas de lavagem de dinheiro. Um deles, Trento, voltou a aparecer em investigações sobre o escândalo dos descontos ilegais de aposentados do INSS e ingressou na disputa eleitoral de 2026.

A festa, realizada em 17 de julho de 2020, em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, foi revelada nesta quarta-feira (21) pela revista piauí. Segundo a reportagem, os empresários, ligados à Precisa Medicamentos, levaram três garotas de programa de São Paulo para participar de um churrasco com o filho mais velho do então presidente, que teria recebido um relógio Rolex de presente de Trento ao final do passeio.

Naquele momento, o Brasil já contabilizava mais de 76 mil mortes por Covid-19, enquanto Jair Bolsonaro minimizava a gravidade da pandemia e o governo federal era pressionado pela demora nas negociações para aquisição de vacinas.

Os dois empresários buscavam ampliar seus negócios com o governo federal. A Precisa Medicamentos, controlada por Maximiano e representada institucionalmente por Trento, viria a protagonizar um dos maiores escândalos investigados pela CPI da Pandemia: a negociação de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin, por R$ 1,6 bilhão, em contrato posteriormente cancelado. A empresa, que patrocinou a festa no Lago Paranoá, teve a defesa ferrenha de Flávio Bolsonaro na CPI da Pandemia – veja vídeo abaixo.

Para organizar a festa, os empresários recorreram a Raphael Barão, dono da Barão Turismo, agência que recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de empresas do grupo econômico da Precisa somente em 2020.

A investigação da piauí foi construída a partir de entrevistas, documentos financeiros, dados de voos e informações obtidas em quebras de sigilo realizadas por comissões parlamentares de inquérito.

Danilo Trento: do Rolex de Flávio ao escândalo do INSS

Diretor institucional da Precisa Medicamentos, Danilo Berndt Trento era um dos principais articuladores políticos e empresariais do grupo de Francisco Maximiano.

Segundo a piauí, foi ele quem retirou um relógio Rolex do próprio pulso para presentear Flávio Bolsonaro ao final do passeio na lancha. O presente teria sido entregue depois de uma confraternização que durou aproximadamente quatro horas e meia, entre 10h30 e 15h.

O empresário entrou na mira da CPI da Pandemia em 2021, quando parlamentares passaram a investigar sua participação nas negociações da Covaxin e transferências financeiras entre empresas ligadas à Precisa Medicamentos.

Durante depoimento à comissão, em setembro daquele ano, Trento admitiu que já havia encontrado Flávio Bolsonaro em eventos públicos. Questionado sobre suas relações com integrantes do governo e as movimentações financeiras investigadas, recorreu ao direito de permanecer em silêncio, assegurado por habeas corpus.

Segundo o Senado Federal, os parlamentares apontaram indícios de que empresas de Trento e Maximiano participaram de operações suspeitas de lavagem de dinheiro.

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de Trento por fraude em contrato. A recomendação parlamentar, entretanto, não representa condenação judicial.

Cinco anos depois, o empresário voltou ao noticiário policial por outro escândalo que atingiu o governo federal: o esquema de descontos associativos indevidos sobre aposentadorias e pensões do INSS.

Em setembro deste ano, a Folha de S.Paulo revelou que Trento era investigado pela Polícia Federal no caso e que relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram o recebimento de R$ 19,2 milhões da J&F. As transferências, isoladamente, não comprovam participação em crimes.

A ligação com o bolsonarismo também ganhou contornos eleitorais. Em 2026, Trento foi indicado como primeiro suplente de Janaína Riva (MDB) na disputa ao Senado por Mato Grosso, em uma aliança eleitoral que reunia MDB e PL. A candidatura foi registrada na Justiça Eleitoral, embora a composição final da chapa ainda exija conferência de eventuais substituições.

O histórico do empresário reúne, portanto, a participação em negócios investigados pela CPI da Pandemia, suspeitas examinadas no escândalo do INSS e uma incursão eleitoral em uma aliança com o partido de Jair e Flávio Bolsonaro.

Não foi localizada condenação criminal definitiva de Trento pelos fatos relacionados à Covaxin ou às movimentações investigadas na CPI.

Francisco Maximiano: o empresário da Covaxin e a reunião intermediada por Flávio no BNDES

Francisco Emerson Maximiano, conhecido como Max, é o proprietário da Precisa Medicamentos e acumula um histórico de negócios controversos com órgãos públicos que antecede a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Seu nome apareceu em investigações envolvendo contratos com os Correios, a Petrobras, o governo do Distrito Federal e o Ministério da Saúde.

Em 2021, O Globo revelou que Maximiano havia sido citado em delação do ex-vereador Alexandre Romano, que relatou supostos pagamentos ilícitos para viabilizar contratos com a Postal Saúde, plano de saúde dos funcionários dos Correios.

Uma de suas empresas, a Global Gestão em Saúde, recebeu R$ 62 milhões da Postal Saúde. A companhia também firmou contrato de R$ 549 milhões com a Petrobras, posteriormente rescindido pela estatal, que aplicou multa de R$ 2,3 milhões.

Maximiano negou as acusações envolvendo os negócios investigados.

Durante o governo Bolsonaro, o empresário passou a negociar a compra da Covaxin, vacina desenvolvida pela indiana Bharat Biotech. O contrato, de R$ 1,6 bilhão, tornou-se alvo de suspeitas depois que o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda relatou pressões incomuns para viabilizar a operação.

A relação entre Maximiano e Flávio Bolsonaro, entretanto, não se limitou ao passeio de lancha.

Em 13 de outubro de 2020, cerca de três meses depois da festa, o senador intermediou uma reunião entre o empresário e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.

O encontro tinha como objetivo discutir financiamento para um empreendimento no setor de telecomunicações.

Flávio reconheceu ter solicitado a reunião, mas negou manter relações comerciais ou financeiras com Maximiano. O BNDES informou que nenhum financiamento foi contratado.

Durante a CPI da Pandemia, o empresário foi questionado sobre a possibilidade de o senador ter facilitado o acesso da Precisa Medicamentos ao alto escalão do Ministério da Saúde.

Maximiano negou que Flávio tivesse intermediado esse acesso. Questionado sobre uma possível aproximação com Jair Bolsonaro para tratar da Covaxin, recorreu ao direito ao silêncio.

O relatório final da CPI recomendou seu indiciamento por falsidade ideológica, uso de documento falso e fraude em contrato.

As suspeitas não equivalem a uma condenação. Não foi possível confirmar sentença criminal definitiva contra Maximiano pelos fatos relacionados à negociação da Covaxin.

Flávio defendeu empresa na CPI e elogiou diretora: “Demonstração de patriotismo”

A proximidade entre Flávio Bolsonaro e os empresários da Precisa Medicamentos ganhou um capítulo público durante a CPI da Pandemia, em julho de 2021, cerca de um ano depois da festa na lancha.

Ao participar do depoimento de Emanuela Medrades, diretora da empresa de Francisco Maximiano, o senador saiu em defesa das negociações da Covaxin e elogiou a executiva pelo suposto esforço para reduzir o preço da vacina.

“Parabéns pela sua coragem, pela sua firmeza, por não se intimidar quando algumas pessoas tentam praticamente obrigá-la a falar o que querem ouvir”, afirmou Flávio.

Em seguida, o filho do então presidente classificou a atuação da diretora como uma “demonstração de patriotismo”, por supostamente ter negociado uma redução no valor cobrado pelo laboratório indiano.

O elogio contrastava com os preços investigados pela CPI. A Covaxin estava sendo negociada por aproximadamente R$ 80 a dose, valor superior ao de outras vacinas oferecidas ao governo brasileiro.

Flávio também ironizou as denúncias sobre o contrato, argumentando que não havia ocorrido desvio de recursos públicos porque o governo federal não havia desembolsado dinheiro pela compra.

As declarações constam das notas taquigráficas oficiais do Senado. O vídeo do depoimento de Emanuela Medrades está disponível na TV Senado.

A defesa pública da empresa ocorreu depois do encontro privado promovido por seus empresários e da reunião de Maximiano com o presidente do BNDES, intermediada pelo senador. A sequência demonstra a existência de contatos entre os envolvidos, mas não comprova que a manifestação de Flávio na CPI tenha sido uma contrapartida pelos agrados relatados pela piauí.

Raphael Barão: o organizador da festa e os R$ 4 milhões recebidos da Precisa

O terceiro empresário envolvido no episódio é Raphael Barão, proprietário da Barão Turismo, agência contratada por Danilo Trento e Francisco Maximiano para organizar viagens e eventos.

Segundo a piauí, foi Barão quem providenciou a logística da festa, incluindo o deslocamento das três garotas de programa de São Paulo para Brasília.

Na noite de 16 de julho de 2020, os empresários, Barão e as três mulheres embarcaram em um jato executivo Embraer Phenom 300, que aterrissou na capital federal às 22h12. No dia seguinte, participaram do churrasco no Lago Paranoá.

A relação financeira entre a agência de turismo e as empresas da Precisa Medicamentos acabou chamando a atenção da CPI da Pandemia.

Somente em 2020, a Barão Turismo recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de empresas do grupo econômico de Maximiano e Trento.

A comissão também examinou a abertura de uma empresa nos Estados Unidos e transferências financeiras entre a agência e companhias ligadas à Precisa.

Durante os trabalhos da CPI, o senador Randolfe Rodrigues levantou suspeitas de que a estrutura empresarial pudesse ter sido utilizada para lavagem de dinheiro.

Barão negou a acusação. As suspeitas estão registradas em documentos oficiais da CPI e na cobertura do Senado Federal.

Não foi localizada condenação criminal definitiva de Barão relacionada às movimentações financeiras investigadas pela comissão.

A festa, o Rolex e as conexões com o clã Bolsonaro

A festa revelada pela piauí acrescenta um novo episódio à relação de Flávio Bolsonaro com empresários interessados em negócios com o governo federal.

O senador teria comparecido ao encontro acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro, negócio que já havia aparecido nas investigações sobre o esquema das rachadinhas.

Em setembro deste ano, outra investigação jornalística, publicada pelo PlatôBR, revelou relatos sobre encontros de Flávio com garotas de programa intermediados por Santini, além do recebimento de um Rolex Submariner Date, avaliado em aproximadamente R$ 305 mil, em circunstâncias distintas.

Na festa organizada por Trento e Maximiano, o relógio teria sido entregue pelo próprio diretor da Precisa Medicamentos.

A reportagem da piauí também identificou que o grupo viajou para Brasília em uma aeronave operada pela Prime You, empresa de aviação executiva que posteriormente teve o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, entre seus usuários. A informação não estabelece participação de Vorcaro na festa ou nos negócios da Covaxin.

O que chama a atenção é a sucessão de episódios envolvendo Flávio e empresários que buscavam acesso a autoridades e contratos públicos.

Em julho de 2020, o senador teria participado da festa e recebido um Rolex. Três meses depois, intermediou a reunião de Maximiano com o presidente do BNDES. No ano seguinte, defendeu publicamente a Precisa Medicamentos durante a CPI que investigava suspeitas envolvendo a negociação da Covaxin.

A comissão acabou recomendando o indiciamento de Maximiano e Trento. O contrato da vacina foi cancelado sem que o governo federal efetuasse o pagamento previsto.

Texto: Plinio Teodoro

Fonte: Revista Fórum

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