A opinião da Fiesp sobre a redução da jornada semanal de trabalho é sempre a mesma, a despeito do que a experiência prática tem demonstrado ao longo do tempo. Em nota emitida ontem, a Federação tenta ocultar essa mesmice, porém, fica claro que a entidade só tenta adaptar os velhos argumentos de acordo com as suas conveniências.
Em 1988, ano da última redução constitucional da jornada de trabalho semanal, a mesma Fiesp dizia que 44 horas semanais representariam uma tragédia para o Brasil. Nada daquilo que a Fiesp profetizava aconteceu em decorrência de uma jornada semanal menor. Em nome da já conhecida verdade dos fatos, é preciso dizer que momentos de deterioração econômica nos períodos seguintes a 1988 não tiveram ligação com as 44 horas.
Em outra circunstância, observada no primeiro semestre de 2009, a Fiesp saiu em defesa da redução da jornada de trabalho, alegando que a medida impediria milhões de demissões iminentes, causadas pela crise econômica internacional. Parece curioso que uma mesma medida possa aplacar ondas de demissões, num caso, mas causar desemprego, em outro.
É certo que a Fiesp, no início de 2009, defendia também a redução de salário concomitante à redução da jornada. Esse detalhe serve para explicitar as reais razões da Fiesp e para demonstrar o que de fato está em jogo: o que a Fiesp quer é continuar sempre ampliando as margens de lucro, o excedente de capital, e manter o inegável crescimento dos índices de produtividade só para si, sem repartir com os trabalhadores e trabalhadoras aquilo que é fruto direto de sua participação.
Com essa posição conservadora, anacrônica de fato, a Fiesp tenta ocultar benefícios que a redução trará para a maioria da sociedade e para, inclusive, a pujança econômica do Brasil.
Um desses benefícios será a maior possibilidade de os trabalhadores e trabalhadoras qualificarem-se educacional e profissionalmente. Com as extensas jornadas atuais – no setor de comércio e serviços, por exemplo, a média semanal é de até 56 horas em São Paulo, segundo o Dieese –, mais o longo tempo de deslocamento de casa para o trabalho nos centros urbanos, é simplesmente impossível para grandes contingentes de brasileiros investir em sua formação. É bom que se diga: quando a Fiesp e demais entidades reclamam da qualificação da força de trabalho, negam-se a admitir que só aprofundam as dificuldades com posicionamentos como esse em relação às 40 horas.
A redução das atuais 44 horas para 40 horas também pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras, dando-lhes mais tempo para ficar com a família, para o lazer, para a cultura e para o que mais lhes aprouver ou for possível.
Isso vai se refletir no cotidiano das cidades, impulsionando o setor de comércio e serviços, e minimizar também os problemas de deslocamento urbano.
A redução da jornada sem redução de salário vai, especialmente, distribuir um pouco dos enormes ganhos que a economia brasileira vem acumulando, com ou sem crise internacional. E vai gerar novos empregos, como demonstram projeções do Dieese.
Trata-se de uma questão de escolha – por parte dos empresários – e de pressão – por parte dos trabalhadores. Por exemplo: em 2009, segundo estudo realizado por uma consultoria e divulgado nesta semana, as empresas brasileiras bateram recorde histórico no pagamento de dividendos. Lucratividade há, o que falta é, infelizmente, espírito nacionalista e projeto de futuro para uma parcela de nosso empresariado.
Artur Henrique, presidente nacional da CUT.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cut.org.br.
=======================================================
Fiesp critica proposta de redução da jornada; CUT contesta “velho discurso”
Sindicalistas continuam pressionando pela votação das 40 horas semanais
São Paulo – A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Centro das Indústrias do Estado (Ciesp) divulgaram nesta segunda-feira (8) nota criticando a proposta de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, em tramitação no Congresso. O presidente das entidades, Paulo Skaf, afirmou que a medida, “além de não criar emprego, comprometeria a competitividade brasileira”. Para o presidente da CUT, Artur Henrique, trata-se “do velho discurso empresarial da década de 80, quando foi a última vez que tivemos a redução da jornada legal de trabalho no Brasil”.
Ainda segundo a Fiesp, de 2003 a 2009 o Brasil reduziu a taxa de desemprego “por meio do crescimento econômico e não por alterações na jornada de trabalho”, medida que – reforçou – não criou empregos desde que foi reduzida, em 1988, de 48 para 44 horas semanais. Para Skaf, nivelar empresas de portes diferentes “seria anacrônico e autoritário, além de inoportuno, considerando que ainda estamos emergindo da grave crise mundial, uma conjuntura que exige trabalho, dedicação e foco no crescimento”.
O presidente da CUT lembra que os ganhos de produtividade obtidos pelas empresas os últimos 20 anos superam de longe um eventual aumento de custos. “As empresas, de todos os setores, ganharam muito, bateram recordes de lucros, pagaram dividendos recordes em 2009. Isso foi conquistado pelo aumento da produtividade, que não foi repassado para o conjunto dos trabalhadores. A participação do trabalho na renda nacional continua pequena”, afirma Artur.
Além disso, acrescenta, se os empresários defendem a necessidade de qualificação profissional, devem proporcionar condições para que isso aconteça. “Uma pessoa que sai de casa às 5h30, pega ônibus, trem, trabalha o dia inteiro e chega em casa às 10 e meia da noite vai se qualificar quando?”, questiona, citando ainda as expectativas positivas para a economia este ano. “Todos os empresários têm dito que haverá crescimento em 2010, há uma avaliação muito positiva. E não vamos reduzir a jornada para gerar empregos?”
Segundo Artur, que participa nesta segunda-feira (8) de reunião da direção nacional ampliada da CUT, em Brasília, amanhã os sindicalistas voltarão ao aeroporto para “recepcionar” os parlamentares que voltam de suas bases. Também estão previstas reuniões entre as centrais e com os líderes partidários. Nos estados, caravanas serão organizadas para ir até a casa dos deputados, para reforçar a importância do tema – a ideia é pressionar para que a votação aconteça no primeiro semestre.
No setor metalúrgico, a CNM-CUT e a CNTM (Força) se articulam para entregar uma pauta à CNI e à própria Fiesp. “Vamos ver se eles querem mesmo negociar ou se é só discurso”, afirma o presidente da CUT.
Por Vitor Nuzzi
Publicado em 08/02/2010, 18:49.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.redebrasilatual.com.br.