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Silêncio nada inocente

Dirigentes sindicais foram pioneiros em enxergar e combater as manobras suspeitas de Daniel Dantas, desde a sua origem na era da privataria

Nos primeiros meses do governo Lula, em 2003, o sociólogo Francisco de Oliveira concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo classificando os sindicalistas que haviam assumido ministérios, diretorias de estatais e fundos de pensão como uma “nova classe social”, batizada de neopetismo, e os listou: Luiz Gushiken, Sérgio Rosa, Wagner Pinheiro, Ricardo Berzoini, entre outros. O sociólogo mudou-se para o PSOL, o jornal não se preocupou em investigar as afirmações, já que o mais importante era colar mais uma desqualificação no novo governo, e a tese continuou aberta à procura de uma antítese ou síntese.

A história da Operação Satiagraha é muito diferente no modo como os principais jornais e revistas que compõem o PIG (partido da imprensa golpista) trataram o assunto, como sendo “fruto do mensalão”. O inquérito da Polícia Federal, entretanto, aponta para mais algumas dezenas de desdobramentos, a maioria relacionada ao período em que Daniel Dantas montou seu aparato dentro do governo FHC.

Dantas e o banco Opportunity eram bastante conhecidos dos sindicalistas, aqueles que o sociólogo chamou de “nova classe”. Quando o assunto previdência complementar passou a fazer parte da pauta sindical, inúmeros dirigentes estudaram o assunto com afinco, para fazer frente aos representantes patronais e ao assédio de banqueiros nos fundos. Ao mesmo tempo, as “privatarias” – expressão cunhada pelo jornalista Aloysio Biondi –, além de movimentar bilhões, prejudicaram os trabalhadores. Os sindicatos denunciaram incessantemente o jogo de interesses. Sempre foram ignorados pela grande mídia, que apoiou a venda do patrimônio público.

Agora, não há como negar a história. É fato: gestores dos fundos de pensão, ainda no governo FHC, alertaram sobre o risco Dantas; e, sob o governo Lula, se fortaleceram para forçar a saída do Opportunity e acirrar conflitos que levassem o banqueiro a expor-se e baixar a guarda. E o fizeram menos por decisão de governo e mais por índole pessoal. A Revista do Brasil conversou com algumas dessas personalidades. Os integrantes da tal “nova classe”, não quiseram gravar entrevistas, mas não conseguem conter uma silenciosa satisfação, sinônimo de um delicioso prato que se come frio.

EDITORIAL DA REVISTA DO BRASIL – NÚMERO 27 – AGOSTO DE 2008.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.revistadobrasil.net.

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A corrupção planejada

Os teóricos da moeda e os operadores das privatizações fecharam o círculo para o assalto ao Estado, com apoio decisivo do então presidente FHC, aquele que se definiu como “mais inteligente do que vaidoso”

A privatização do Estado era coisa de amadores. Passou a ser negócio organizado, com planejamento técnico e jurídico, quando alguns jovens “gênios” das finanças foram convocados pelo senhor Fernando Henrique Cardoso, a fim de criar o Plano Real, a partir do Plano Schacht, da Alemanha dos anos 20. Eles perceberam, na reforma monetária, a sua oportunidade de ascensão ao mundo dos grandes negócios. E se uniram a Daniel Dantas, protegido do senhor Antonio Carlos Magalhães – o poderoso e temido senador –,
que criaria, no mesmo ano de 1994, o instrumento adequado: o Fundo Opportunity. Contavam com forte bancada no Congresso constituída dos representantes dos bancos, do agronegócio e das multinacionais, todos interessados nas reformas constitucionais que favorecessem as privatizações. Ao mesmo tempo criaram outras instituições para atuar no mercado de capitais e no programa de privatizações, que cresceram em meses, graças às informações privilegiadas de que dispunham como mentores da política econômica e financeira.

Os teóricos da moeda e os operadores das privatizações fecharam, dessa forma, o círculo para o assalto ao Estado. Os dois grupos contavam com o apoio decidido do então presidente da República. Alguns que o conhecem de perto acham que se deixou perder pela vaidade. Uma das gravações divulgadas pelos meios de comunicação – e não desmentidas – mostra como eles sabiam envolvê-lo. O consórcio comprador que pretendiam favorecer – em que se encontrava Daniel Dantas e seu Opportunity – dependia da Previ, o fundo de pensões dos funcionários do Banco do Brasil. Mas a Previ tinha as suas razões para desconfiar do grupo. Era preciso quebrar as resistências. O então presidente do BNDES, André Lara Resende, telefona a Fernando Henrique:
ALR – Então, o que nós precisaríamos é o seguinte: com o grupo do Opportunity, nós até poderíamos turbiná-lo, via BNDES-Par. Mas o ideal é que a Previ entre com eles lá./ FHC – Com o Opportunity?/ ALR – Com o Opportunity e os italianos./ FHC – Certo./ ALR – Perfeito? Porque aí esse grupo está perfeito./ FHC – Mas e por que não faz isso?/ ALR – Porque a Previ tá, tá do outro lado./ FHC – A Previ?/ ALR – Exatamente. Inclusive com o Banco do Brasil, que ia entrar com a seguradora etc., que diz ‘não, isso aí é uma seguradora privada porque…’/ FHC – Não./ ALR – Então, é muito chato./ FHC – Muito chato./ ALR – Olha, quase…/ FHC – Cheira a manobra perigosa./ ALR – Mas é quase explícito./ FHC – Eu acho./ ALR – Quase explícito./ FHC – Eu acho./ ALR – Então, nós vamos ter uma reunião aqui, estive falando com o Luiz Carlos, tem uma reunião hoje aqui às 6h30. Vem aqui aquele pessoal do Banco do Brasil, o Luiz Carlos etc. Agora, se precisarmos de uma certa pressão…/ FHC – Não tenha dúvida./ ALR – A idéia é que podemos usá-lo aí para isso./ FHC – Não tenha dúvida.

Não tiveram dúvida. Iniciou-se a partir daí, com a aprovação do presidente, a liquidação dos bens do Estado, sem levar em conta as leis anteriores nem as regras elementares de licitude administrativa e de ética. Ao falar no Senado sobre o processo de privatizações, o ministro encarregado Luiz Carlos Mendonça de Barros disse que a situação era sui generis e, portanto, não estava sujeita a regras anteriores.

O grande negócio de Daniel Dantas – o da participação na telefonia, com menos de 1% dos capitais envolvidos – só foi possível com o dinheiro dos fundos de pensão das empresas estatais.

Segundo as investigações da Polícia Federal, o Opportunity conseguiu envolver nas teias de seus interesses homens com respeitáveis biografias, como ex-militantes de esquerda e conhecidos acadêmicos. Entre esses, contratou, como seu advogado nos Estados Unidos, por US$ 2 milhões, o senhor Mangabeira Unger. Além disso, montou seu sistema de espionagem, ao contratar a Kroll, que chegou a monitorar até mesmo o gabinete presidencial.

Enfim, como todos deviam saber, o mundo se divide entre os capitalistas e os trabalhadores. Os capitalistas sempre se unem. Os trabalhadores, nem sempre.

Por Mauro Santayana.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.revistadobrasil.net.

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