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Por 17:55 Notícias

Tarifaço: o que disse o governo Lula na última reunião com os EUA antes da decisão sobre novas taxas

a véspera do fim do prazo para a decisão dos Estados Unidos sobre novo tarifaço contra produtos brasileiros, o governo Lula voltou a classificar como injustas e sem fundamento as sobretaxas recomendadas pelo Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer.

Equipes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e da Assessoria Especial da Presidência da República participaram, no fim da tarde desta terça-feira (14), da quinta reunião de alto nível com Greer desde 7 de maio.

Segundo comunicado oficial, os representantes brasileiros reiteraram que nenhuma das razões apresentadas pelo governo estadunidense justifica a cobrança de uma tarifa de 25% específica contra o Brasil nem a sobretaxa adicional de 12,5% relacionada ao comércio de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

“Cumprindo a orientação do presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado”, afirmou o governo.

O prazo para que Washington anuncie sua decisão e divulgue a relação definitiva de produtos atingidos termina nesta quarta-feira (15). A reunião de terça-feira foi, portanto, a última tentativa formal de impedir o novo tarifaço antes do encerramento do processo.

O tarifaço em discussão

A ofensiva estadunidense ocorre em duas frentes diferentes. A primeira é uma tarifa de 25% recomendada exclusivamente contra produtos brasileiros após uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

O processo questiona decisões soberanas do Brasil em áreas que vão muito além do comércio tradicional. Entre os alvos estão o sistema de pagamentos instantâneos Pix, decisões judiciais envolvendo plataformas digitais, a política tarifária brasileira, o combate à pirataria, o mercado de etanol, a fiscalização contra a corrupção e o enfrentamento ao desmatamento ilegal.

Na avaliação do governo Trump, algumas dessas políticas seriam “irracionais”, discriminatórias ou prejudiciais às empresas dos Estados Unidos. O governo Lula rejeita essa interpretação e argumenta que o Pix, a regulação das plataformas e as políticas ambientais brasileiras não constituem barreiras comerciais.

O próprio USTR reconhece que a investigação foi aberta por determinação de Donald Trump. Em junho, o órgão afirmou que ainda existiam “diferenças substanciais” entre os dois governos e recomendou a aplicação da sobretaxa de 25%.

A segunda frente envolve uma tarifa adicional de 12,5% contra o Brasil e outras 59 economias. Nesse caso, os Estados Unidos alegam que esses países não teriam mecanismos suficientes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

O USTR propôs tarifas de 10% para países que já adotaram algum mecanismo reconhecido por Washington e de 12,5% para as demais economias investigadas, grupo no qual o Brasil foi incluído. O governo brasileiro também contesta essa acusação e afirma que ela não apresenta elementos capazes de justificar a punição comercial.

Mais de 4 mil produtos podem ser atingidos

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que cerca de 4,1 mil produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos estão expostos à tarifa de 25%. Entre eles aparecem açúcar bruto, álcool etílico, molduras de madeira, pescados, calçados e hidróxido de alumínio.

Alguns produtos relevantes, como café, carne bovina, terras raras, determinados metais e peças para aeronaves, foram inicialmente incluídos entre as exceções discutidas pelo USTR. A lista, porém, só será conhecida de forma definitiva com a publicação da decisão estadunidense.

A ameaça também despertou resistência dentro dos próprios Estados Unidos. O Itamaraty identificou ao menos 43 empresas e associações comerciais estadunidenses que solicitaram a exclusão de mercadorias brasileiras da sobretaxa.

Boa parte dessas entidades argumenta que determinados produtos brasileiros não têm substitutos imediatos no mercado dos EUA. A tarifa, portanto, não atingiria apenas os exportadores do Brasil: também encareceria matérias-primas e insumos utilizados pela própria indústria estadunidense.

Lobby bolsonarista abriu caminho para pressão contra o Brasil

A nova ofensiva comercial não pode ser separada da articulação promovida pela família Bolsonaro nos Estados Unidos desde 2025.

Naquele ano, Eduardo Bolsonaro mudou-se para os EUA e passou a atuar junto ao governo Trump para obter sanções e outras medidas de pressão contra autoridades brasileiras envolvidas no processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado.

O próprio Eduardo chegou a reivindicar publicamente participação na articulação que resultou na tarifa de 50% anunciada por Trump contra produtos brasileiros em 2025. Na ocasião, o presidente dos EUA relacionou expressamente a punição comercial ao julgamento de Jair Bolsonaro, classificado por ele como uma suposta “caça às bruxas”.

Em junho deste ano, Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por buscar a interferência do governo estadunidense no processo contra o pai. A decisão reconheceu que o ex-deputado atuou para obter medidas estrangeiras destinadas a constranger as instituições brasileiras.

A investigação comercial usada agora para recomendar os 25% foi aberta em julho de 2025, justamente durante o período em que o governo Trump transformou a defesa de Jair Bolsonaro em instrumento de pressão econômica contra o Brasil.

Já em 2026, foi a vez do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro viajar a Washington e se reunir com Trump e integrantes do governo estadunidense. Pouco depois, a Casa Branca apresentou a nova proposta de tarifa contra produtos brasileiros.

Lula acusou Flávio de ter ajudado a provocar a medida. O senador nega e afirma que tentou impedir a cobrança. O governo brasileiro, por sua vez, classificou como “deplorável” que integrantes da família Bolsonaro voltassem aos Estados Unidos para defender uma interferência estrangeira no país.

Flávio pediu que decisão fosse adiada até depois da eleição

Durante audiência pública realizada pelo USTR em Washington, Flávio Bolsonaro pediu que a decisão sobre a tarifa fosse suspensa por 180 dias, atravessando a eleição presidencial brasileira de outubro.

No documento apresentado ao governo Trump, o senador argumentou que o cenário político brasileiro estaria diferente depois da votação e que isso poderia alterar as condições para um acordo entre os dois países.

A movimentação colocou o senador em uma posição contraditória. Ao mesmo tempo que tenta manter sua aliança política com Trump, Flávio, em uma estratégia eleitoral, precisa se afastar de uma medida profundamente impopular no Brasil e capaz de provocar perdas para empresas, trabalhadores e estados exportadores.

Governo Lula prepara reação

A orientação de Lula continua sendo negociar até o último momento, mas sem aceitar concessões que comprometam políticas soberanas do Brasil. Isso inclui especialmente o Pix e as regras brasileiras para plataformas digitais.

Caso as tarifas sejam confirmadas, o primeiro passo será analisar detalhadamente a decisão e a lista de produtos atingidos. A composição das exceções será decisiva para calcular os efeitos sobre cada setor da economia e definir a intensidade da resposta brasileira.

O governo também poderá manter as negociações para ampliar as exclusões, mobilizando empresas e associações estadunidenses que dependem de produtos brasileiros. A pressão de importadores dos próprios EUA é considerada uma das possibilidades mais concretas para reduzir os danos.

Outra ferramenta disponível é a Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada e regulamentada por Lula em 2025. A legislação permite que o Brasil responda a medidas comerciais unilaterais que prejudiquem a competitividade nacional.

Entre as contramedidas previstas estão a elevação de tarifas sobre produtos estrangeiros e a suspensão de concessões comerciais, de compromissos relacionados a investimentos e de obrigações relativas à propriedade intelectual. A aplicação não é automática e deve passar por avaliação técnica do governo e da Câmara de Comércio Exterior (Camex).

O Brasil também poderá avaliar um novo questionamento na Organização Mundial do Comércio (OMC), além de ampliar a busca por mercados alternativos para os produtos atingidos.

Dependendo do impacto, o governo terá ainda de estudar medidas de apoio aos setores mais vulneráveis, como linhas de crédito, garantias às exportações e instrumentos para preservar empregos. Eventuais retaliações deverão ser calibradas para atingir interesses dos Estados Unidos sem encarecer insumos essenciais ou provocar efeitos negativos sobre consumidores e empresas brasileiras.

Foto: Daniel Torok

Texto: Ivan Longo

Fonte: Revista Fórum

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