fetec@fetecpr.com.br | (41) 3322-9885 | (41) 3324-5636

Por • 10:58• Sem categoria

Trabalhadores bancários versus bancos

Bancários X Bancos

Para o grande público, o trabalho em bancos é uma das atividades mais formosas. Vejam que belo: o sujeito começa a trabalhar às 10 horas da manhã e termina o expediente às 4 em ponto da tarde. E sempre de barba cortada, perfumado e bem vestido. E cercado de dinheiro por todos os lados. E porque tem de fazer alguma coisa, aqui e ali se distrai no atendimento a grandes empresários, senhoras ricas, charmosas, gente educada, fina, e claro, mais uma vez, com muito dinheiro. Dize-me o que te cerca e eu te direi quem és, pensa o grande público. Deve haver, imagina-se, uma afinidade eletiva, uma atração magnética de fazer similares os trabalhadores às coisas que os cercam. Se assim são as empresas, assim são os seus empregados. Tal mundo, tal vivente, pensa-se. Os bancos fariam dos seus, o público diria sócios, mas em um movimento de modéstia concede, os bancos fariam dos seus trabalhadores pessoas mui felizes. Aquela parafernália tecnológica, aquela propaganda maravilhosa de empréstimos, financiamentos fáceis, que se contraem com um piscar de olho à recepcionista, aquele ambiente de ar-refrigerado, de eficiência, teclados on-line, telefones e sorrisos, muitos sorrisos, como chamar a isso trabalho? O paraíso está a um passo.

É interessante como os objetos que nos cercam transmitem a nós o seu encanto. O que o grande público chama de homem bem vestido, não passa do uso de uma gravata, apesar do clima tropical. O que chama de mulher bem vestida, não passa de um vulgar casaco, que o bom-tom chama de blazer. O perfume vem antes de detergentes, desodorantes no ar que da pele, do corpo de quem faz o atendimento. Somente a barba cortada é do bancário, por imposição do banco. O que importa enfim, e isto é o mais importante, é que todas as aparências indicam que estamos diante de trabalhadores muito bem pagos. Por todos os motivos não pode ser miserável um homem que trabalha cercado por montanhas de dinheiro. Isso o senso humano e a lógica rejeitam. Mas a realidade, amigos, é o túmulo de toda a lógica mecânica. Se o grande público tirasse as névoas dos olhos, e em lugar da felicidade que se pinta na propaganda, em lugar de se enfeitiçar com o mobiliário, com as máquinas, em lugar de ver apenas o palco onde se encena o bancário feliz, passasse a olhar com o cérebro as informações dos balanços econômicos, perceberia então a vida que pode levar um bancário. Por exemplo, em uma das últimas informações nos jornais de 19.5.2007:

“O setor bancário manteve sua posição de liderança no ranking dos maiores lucros setoriais… Juntas, as 20 empresas do segmento bancário alcançaram ganhos somados de R$ 7,044 bilhões”.

Note-se, de lucro. Claro, o grande público, assim como eu, não pode bem ter idéia do que significa essa distância de anos-luz de estrelas, mais conhecida por bilhões de reais. Mas pode bem desconfiar que uma atividade acima de todas as outras no Brasil seja uma aula viva do conceito de mais-valia, esse outro brilho de Marx. E reunir a informação acima a esta:

“O Ministério da Previdência Social gastou R$ 981,4 milhões entre 2000 e 2005 para pagar o auxílio-doença a 25,08 mil bancários afastados do trabalho por doenças causadas por movimentos repetitivos. Cada um desses trabalhadores ficou um ano e meio afastado, em média, somando 14,9 milhões de dias sem trabalhar. Essas estatísticas colocam os bancos em primeiro lugar no ranking dos Dort (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), que inclui doenças da coluna, tendinite, bursite e LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Esses distúrbios já são a segunda maior causa de doenças entre os trabalhadores do país”. (Folha de São Paulo, 29.4.2007)

Talvez os números de sucesso empresarial de um lado e sucesso em mandar trabalhadores para o inferno de outro não sejam capazes de ferir a percepção. Pode-se até dizer, a relação entre as duas coisas não está clara. Isso é apenas uma coincidência, pode ser dito, uma coincidência forçada por quem escreve. Ora, se um avião cai no momento em que se escutava Roberto Carlos, nem por isso podemos relacionar desastres aéreos à voz do Rei. Por isso passo a falar da viva experiência, que pode ter sido forçada, mas jamais uma coincidência.

Esse homem que se costuma imaginar como um trabalhador de jornada de começo às 10 e fim às 16 horas, chega ao banco muitas vezes às 7 da manhã, e sai por volta das 19, ou 20, ou 21, ou 22 horas, a depender do dia, que na linguagem bancária chamam de “movimento”. De um deles ouvi, quando eu próprio trabalhava em um banco privado:

– A gente fecha os olhos no banco, e quando volta a abri-los, está no mesmo lugar.

Isso foi dito em um dia de grande “movimento”, em que cochilávamos em pé, poderia ser dito, por volta das 23 horas, quando estávamos todos mal cheirosos e pior ainda vestidos. Na rede privada, as mulheres não se casam, ou melhor, não podem dizer que se casam, porque o banco não pode correr o risco de pagar a licença-maternidade. Ou seja, os 4 longos meses de ócio remunerado, no entender dos patrões. Isso por um lado. Por outro, significa também que as bancárias, digo, as mulheres, sempre jovens, sempre de boa aparência, vale dizer, de formas e feições que despertem os instintos mais lúbricos, devem sempre guardar a perspectiva de uso para os clientes mais ricos. Maridos atrapalham, quando não embaraçam. Para quê esposos na vitrine dos produtos oferecidos? Entendam, não é bem que nos bancos privados seja oferecida à mulher a perspectiva de ser prostituta. Não, dizer isso seria o mesmo que cometer uma grosseria. Quanta injustiça. Devemos dizer, de modo mais educado: os bancos apenas desejam que elas acenem, em mais uma das suas operações enganosas. Um sorriso, uma esperança… quem sabe? Pero se o cliente poderoso agarrar essa promessa com garras fortes, a isso comentaria o banqueiro:

– Em minha empresa todos são livres.

Nos bancos públicos, os problemas mudam a sua forma. Neles, de fato, a bancária é antes de tudo uma trabalhadora. Neles as mulheres se casam, declaram isso abertamente, engravidam e podem até ser excelentes esposas, mães e companheiras. Mas não possuam por favor, ao mesmo tempo, o desejo de ascensão, ou como neles se diz, fazer carreira. Isso é de um óbvio que nem precisa ser em palavras comunicado. De um gerente casca-grossa já ouvi:

– O Banco não paga a ninguém para ser boa dona-de-casa. Quer cuidar do lar, arrume um marido rico.

Acredito que vocês notaram a palavra banco escrita em maiúscula. Isso mesmo. No Banco do Brasil, que conheço mais de perto, o Banco é uma entidade. Sabe-se lá exatamente o quê, mas com certeza é uma mistura de Papa, Forças Ocultas, o Fantasma, Deus. Em resumo e em uma palavra, o Banco. Essa entidade, esse Espírito-que-anda, em tempos não muito remotos foi uma autêntica repartição pública, de expedientes burocráticos, de ritos e rituais dignos de O Processo. Havia regras inexplicáveis, impossíveis ao comum entendimento, mas que se abrigavam em um código conhecido como a Norma. Nesse período, exigia-se do empregado uma jornada sem excesso, mas em compensação ele deveria agir como um servo do século XIX, cujo Senhor era o Gerente. A saber, ir a festas de aniversários da netinha do grande homem, participar dos esportes praticados pelo chefe, beber com o chefe, divertir-se com o chefe, estar sempre na lembrança e no coração do chefe. Isso foi até os anos 80, no século passado. Depois, o banco se tornou uma mescla de banco privado e de empresa governamental. E agora, pelas notícias que nos chegam, para melhor competir no mercado, adota expedientes típicos do Bradesco, o seu alvo e modelo. Assim nos informa o Jornal dos Bancários, do Sindicato dos Bancários de Pernambuco:

“Na versão do Banco do Brasil, há “um conjunto de ações com o objetivo de aumentar a eficiência operacional, melhorar a dinâmica da gestão e manter a liderança no mercado”. Na tradução do movimento sindical bancário, projeta-se um “um pacote de maldades” que leva à terceirização, a demissões, transferências, aposentadorias forçadas e sobrecarga de trabalho para quem ficar”.

Quem passou por pacotes de reestruturação, de melhora de eficiência operacional, de melhor dinâmica, em resumo, por todo o jargão dos iluminados da hora, sabe o que isso significa. Traições, Chantagem, Covardias, Pressão, Jogo Sujo, amostras grátis do pacote da pequenez humana. De repente, começam a prosperar os murmúrios, os comentários de que “aí vem coisa, vem novidade por aí”. A partir daí ouvem-se com redobrada atenção os que têm acesso a informações ocultíssimas, sigilosas, verdadeiros segredos de Estado. “Alguém me contou, não posso dizer a fonte, mas eu soube que…”. Depois, vêm os analistas, melhor dizendo, os que incorporam esse papel, que, pelo pânico instalado, são ouvidos em estado de unção religiosa, ainda que cometam e comentem os maiores absurdos:

– O Banco somente vai considerar agora quem tiver Doutorado em Administração. São os novos tempos. Isso vai no caminho de valorizar métodos e procedimentos mais modernos…

– E informática, pode?

– Não, isto será terceirizado. A empresa privada possui excelentes quadros técnicos, da mais alta capacitação e gabarito…

E antes que aconteçam de fato as medidas repressivas, que se fazem e se decidem por leis inacessíveis à compreensão, começa a vigorar o caráter que vivia adormecido nos funcionários mais graduados. Primeiro, eles querem defender a própria pele. Depois, o que for necessário ou imaginável para atingir esse fim. Por último, realizar com bravura tão alta covardia. Os menos graduados, pelo medo da sombra do que virá, copiam o comportamento do superior imediato, mas com uma pequena diferença: passam a eleger para a degola os que não são como eles próprios. Mais que sugerem, indicam, apontam para a execução a diferença. E vêm então os prazos, e os possíveis candidatos que devem sofrer a condenação. O perfil é o de sempre: os mais velhos, os menos simpáticos, os problemáticos, e lá no fim, os considerados improdutivos. Note-se que, como em uma exposição em câmera lenta, repete-se aqui o comportamento dos náufragos, ou dos que pervagam sem esperança nas montanhas geladas dos Andes. Com uma diferença… perdoem o momento indevido para usar esta palavra, mas usarei, uma diferença ética: ali, nas condições extremas, o ser humano é um animal e mais nada. Aqui, atinge-se uma abjeção sem trânsito pela condição de animal. Aqui, a covardia é a resposta imediata para uma possibilidade. Em lugar da revolta contra esse estado anormal, passa-se à defesa do discurso que exclui e discrimina. Isso quer apenas dizer, para falar com exata substância, que os candidatos à punição passam a ser evitados, até mesmo por velhos companheiros. Os condenados passam a ter uma doença contagiosa, que inocula o seu veneno em quem for visto ao seu lado. O mal dos condenados mata e destrói quem os cumprimenta. E para melhor coerência, eles passam a ser invisíveis. Se não se vêem, é natural que fiquem sem companhia e sem as saudações mais inofensivas. O que faz sentido, concedamos: se os eleitos vão ser punidos, muita culpa possuem em sofrer a punição. A boa ética – perdão, mais uma vez – recomenda que estejamos dentro da lei, que sempre vem como uma expressão de justiça.

Esse é o quadro da próxima reestruturação no Banco do Brasil, acreditamos. E entendam por que é possível saber o que ocorrerá. Quem já sofreu a experiência guarda sempre um ar de profeta.

Acesse também o blog do Urariano. Sapoti do Japaranduba pode ser acessado pelos links do sítio do Sindicato ou direto em www.urarianoms.blog.uol.com.br/.

Fonte: Urariano Mota – escritor, jornalista e bancário aposentado do BB _ Texto publicado, também, em www.laInsignia.org

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.sindbancariospe.com.br.

↑
Close