O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Luiz Dulci, em entrevista ao jornalista Marconi Formiga,da revista Brasília em Dia, fala sobre a experiência do PT no poder, a popularidade do presidente, oposição e democracia, além da sua convivência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Leia a íntegra da entrevista:
Qual é a visão de um intelectual dentro do poder?
Sinceramente, eu me considero mais um militante social e político, o que sou há 35 anos, do que um intelectual no sentido acadêmico do termo. Os interesses culturais e doutrinários decorrem da minha formação humanística. Participar do Governo Lula é uma experiência humana e política fascinante. Claro que o exercício do poder em uma sociedade democrática é sempre complexo, desafiador. As tensões são enormes. Mas, sob a liderança do presidente Lula, com a forte identidade que ele tem com a sociedade brasileira, especialmente com as classes populares, é uma experiência muito gratificante.
Exatamente por que é tão gratificante?
Porque os resultados são palpáveis. Sempre sonhamos em fazer o Brasil retomar o desenvolvimento, e ele agora chegou. Depois de duas décadas de estagnação, finalmente entramos num ciclo de crescimento forte e sustentável. E isso, obviamente, não aconteceu por acaso. É fruto de um novo projeto de país posto em prática a partir de 2003. Um projeto muitas vezes incompreendido, hostilizado, duramente combatido, mas cujo sucesso econômico e social não pode mais ser negado. Ele está aí, à vista de todos.
Qual é a essência desse projeto?
Acho que é a união indissolúvel do econômico com o social. Durante muitos anos, o chamado gasto social foi visto como um entrave ao crescimento econômico. Primeiro seria preciso crescer, para só depois distribuir. O presidente Lula inverteu essa equação. A distribuição de renda tornou-se o principal motor do crescimento. Os vários programas sociais do governo, além de serem eticamente justos, têm um impacto virtuoso na economia, eles dão sustentabilidade à nossa expansão produtiva.
Depois de tantos anos na oposição, para o PT passar a ser governo não foi difícil? Afinal, é mais fácil ser estilingue do que vidraça…
Na verdade, o PT nunca foi apenas estilingue, ele já nasceu também vidraça. Um partido popular, com verdadeira identidade programática, fortemente vinculado aos movimentos sociais, tudo isso questionava bastante a tradição partidária brasileira. Nossa vida nunca foi fácil. Nos anos 80, fomos acusados de antidemocráticos, de adeptos da violência, até de assalto a banco chegaram a nos acusar… Por outro lado, aprendemos muito com a vida parlamentar e com as responsabilidades que fomos assumindo. O PT não chegou ao governo federal sem antes passar pela experiência de governar municípios e estados. Naturalmente a escala é outra, os desafios são muito maiores, governar para mais de 180 milhões de habitantes, sempre há muito o que aprender, o que corrigir, mas já tínhamos uma bagagem razoável, uma certa cultura de governo. E já vínhamos nos abrindo para a necessidade das alianças políticas.
Isso foi algo que se intensificou com a conquista do governo federal. Como foi esse processo?
A experiência dos governos locais e estaduais nos ensinou que, num país tão vasto e diferenciado, com déficits sociais seculares, e ao mesmo tempo com um quadro partidário tão pulverizado, é impossível governar sem fazer alianças. Não basta vencer as eleições, é preciso construir a governabilidade, tanto política como social. E o PT evoluiu para a idéia da aliança de centro-esquerda. Agora, no segundo mandato, avançamos ainda mais, com o governo de coalizão, no qual os partidos aliados têm maior participação no ministério e também maior responsabilidade de sustentar a ação de governo.
Não houve resistência interna para formar as alianças?
Sempre há setores contrários, o que aliás é legítimo, mas a grande maioria do partido apoiou a coalizão. Essa capacidade que tem o presidente Lula de integrar forças econômicas, sociais e políticas surpreendeu a muitos. Mas, para quem acompanha de perto a trajetória do PT e, sobretudo, para quem a vive, acho que não foi surpresa. Como não foi surpresa a “Carta ao Povo Brasileiro” que lançamos em julho de 2002, refletindo a delicada situação do país naquele momento.
O senhor acha que o presidente deve governar de olhos nas pesquisas, avaliando a sua popularidade?
Ele deve, sem dúvida, prestar atenção ao sentimento e à opinião popular, que é um termômetro importante da ação governamental. Mas não deve ser escravo da popularidade imediata.
Por quê ? Qual é a pesquisa mais objetiva?
A população sabe que os problemas estruturais do país são complexos e não serão resolvidos da noite para o dia. O povo pobre, principalmente, não espera milagres, espera decisões, iniciativas, programas que melhorem gradativamente a sua condição de vida. O que ele não tolera é a omissão e a covardia elitista. A maioria do povo gosta do governante que faz o máximo, sem demagogia. E que é capaz de dizer não, se for o caso, explicando em linguagem acessível as razões. A esquerda positiva, para usar uma expressão de San Tiago Dantas, precisa evitar a tentação da popularidade fácil e efêmera, se deseja promover transformações sociais consistentes e duradouras.
É isso o que pensa o presidente Lula?
O presidente é obcecado por fazer o máximo possível, sobretudo pela população carente. E não hesita em ampliar o próprio horizonte do possível, quando há base real para isso. Ele fica indignado com o elitismo de certos setores da sociedade brasileira, com a indiferença de alguns perante o sofrimento alheio. Daí a sua defesa apaixonada dos programas sociais, da elevação do salário mínimo, da democratização da universidade. Mas possui ao mesmo tempo um forte senso do concreto, sabe que é preciso criar condições para as mudanças mais profundas. No início do primeiro mandato, ele se recusou a reduzir os juros de maneira voluntarista. E fez um drástico contingenciamento de R$ 14 bilhões, o que nos impediu, naquele momento, de reajustar o salário mínimo, uma grande expectativa da nossa base social e política. Lembro-me de ouvi-lo dizer: “Eu gostaria de reduzir imediatamente a taxa de juros em 5 ou 6 pontos percentuais, mas não vou fazer isso, porque seria uma irresponsabilidade. Não posso confundir realidade com desejo. Eu me desgasto agora mas o país colherá os resultados mais adiante.” A partir de 2004, pudemos dar melhores reajustes ao salário mínimo, que hoje quase dobrou o seu poder de compra.
Marketing político à parte, o voto ideológico foi muito presente nas últimas eleições?
Houve, é claro, o voto ideológico, mas não creio que ele tenha superado os 15 ou 20% do eleitorado. Ainda assim, foi relevante no segundo turno das eleições presidenciais. O que me parece estar crescendo no Brasil é a politização do voto popular.
Em que sentido?Cada vez mais o eleitor das classes populares vota avaliando as suas condições concretas de vida, o voto é menos mediado por esta ou aquela liderança, seja política, religiosa ou da mídia. O eleitor escolhe de acordo com a observação direta que faz da sua vida e da vida do país. O que ele se pergunta não é tanto o que pensa fulano ou beltrano, mas se a vida está melhorando, se o país está avançando. A maioria dos chamados formadores de opinião tinha um juízo ferozmente crítico sobre o governo Lula. Mas o juízo popular, baseado na observação direta, foi outro, e essencialmente positivo. A imensa maioria da população considerou que a vida está melhorando e o país progredindo. A meu ver esse é um critério consciente e politizado de votar.
Como o senhor vê o julgamento da oposição ao governo?
A dialética governo-oposição é fundamental na democracia. O PT se credenciou para chegar ao governo pela qualidade da oposição que fazia, principalmente nos últimos anos, quando conseguiu conjugar a crítica não-sectária com a apresentação de propostas alternativas. A oposição tem quadros inteligentes e dignos, mas às vezes tem-se a impressão de que não são estes que a conduzem. Aliás, parece ser uma sina de toda oposição julgar o governo pelas suas reais ou supostas intenções, quando a população o julga pelos seus resultados. A oposição se esforça, mas da maneira que exerce o seu papel, acaba por chocar-se com a percepção popular.
O senhor concorda que o presidente Lula tem sido muito ajudado pela sorte?
Ele tem sorte, sim. Mas faz por merecê-la. É bom que os líderes políticos e chefes de Estado progressistas contem com o aval dos deuses. No caso do presidente Lula, acho que ele já demonstrou sobejamente que possui também uma notável competência política e administrativa. Uma vocação de governo muito forte. O seu interesse pelas questões práticas do governo é enorme. Há governantes que perdem o interesse, com o passar do tempo, por essas questões. Com Lula, aconteceu justamente o contrário. Ele se mobiliza cada vez mais pelos temas de economia, infra-estrutura, ciência e tecnologia, educação, política agrícola, etc.
Mas a impressão que se tem fora do Palácio do Planalto é que ele gosta mais da liturgia do poder…Pelo contrário. Ele participa diretamente de todas as decisões fundamentais do governo, da elaboração de todas as políticas setoriais. Foi assim com o PAC, com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), é assim com as reuniões periódicas da Junta de Execução Orçamentária. A Secretaria-Geral, por exemplo, coordenou a elaboração do novo PROJOVEM, que é uma espécie de PAC da juventude excluída unificando seis programas análogos que estavam dispersos em vários ministérios. O Presidente fez questão de conhecer em detalhes a proposta, e deu úteis contribuições pessoais.
Uma crítica muito freqüente que se faz ao presidente é a de que ele gosta mais de viajar, fica muito tempo longe de Brasília…
Eu acompanho, de alguma forma, o trabalho do presidente desde 1979. Ele sempre viajou muito pelo Brasil, ele sempre teve contato direto com as mais variadas regiões do país. Isso começou 20 anos antes de ele chegar à Presidência. Há líderes nacionais que fazem política quase sem sair de Brasília, por meio de entrevistas, pronunciamentos, declarações, reuniões de articulação partidária, etc. Mas Lula nunca se contentou com isso. Ele sempre precisou, como diz a canção, de “ir até onde o povo está”. Mesmo fora de períodos eleitorais, nunca deixou de percorrer sistematicamente o Nordeste, o Norte, o Centro-Oeste e outras capitais. Promoveu caravanas da cidadania pelos quatro cantos do país. Tudo isso cria uma proximidade, uma empatia muito forte com o cidadão comum, com as comunidades do interior, do Brasil profundo. Às vezes a oposição critica como se fosse uma atitude eleitoral, mas é coisa que o presidente faz o ano inteiro, durante todo o governo. Na verdade, é uma forma participativa de governar e de chegar mais perto da população. O governante pode ser respeitado, admirado, mas não necessariamente querido. Ser querido é coisa diferente de ser respeitado como um símbolo distante, olímpico do poder. Acho que todos os presidentes, de uma forma ou de outra, são respeitados pela importância do cargo. Mas poucos foram tão queridos como é o presidente Lula.
Depois da queda do muro de Berlim, faz sentido dividir o mundo entre direita e esquerda?
Daquela forma maniqueísta, penso que nunca fez. Mas, enquanto persistirem as desigualdades sociais e o sofrimento desnecessário de milhões de pessoas, haverá sentido ético e político para um projeto de esquerda. De esquerda democrática, naturalmente. Que promova mudança social dentro das instituições, de modo pacífico. Convém não esquecer que o Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, mas ainda é, ao mesmo tempo, um dos cinco países com pior distribuição de renda do planeta. Há muito o que fazer no rumo da dignidade humana e da equidade social. E o bom combate das esquerdas continua imprescindível.
Ideologicamente, como o senhor definiria o PT, agora, no poder?
Como um partido de esquerda democrática, o que sempre foi. O PT já nasceu recusando o chamado “socialismo real”, cujo modelo era a União Soviética, justamente pela ausência de democracia. Somos visceralmente ligados à democracia brasileira, que ajudamos a construir, pela qual muitos companheiros deram a sua vida. Mas nunca aceitamos, igualmente, que o capitalismo neoliberal seja o fim da história. Temos um programa de reformas sociais para o Brasil, com vistas a gerar crescimento, emprego e inclusão.
O presidente Lula é de esquerda, ao contrário do que insinua os seus adversários?
Sem dúvida. Ele é um homem de esquerda no sentindo substantivo da palavra. É a sua prática que comprova isso. A preocupação dominante de Lula é com os pobres, com a justiça social. Seu maior esforço é para resgatar a dignidade de dezenas de milhões de excluídos. Mas ele sempre rejeitou os esquemas ideológicos abstratos. Nunca quis importar ideologias. Preferiu sempre partir dos problemas e desafios concretos da sociedade brasileira. Eu me lembro que, em 1980, perguntaram a ele: o senhor é comunista, socialista, ou social democrata? Qual é o modelo que o senhor quer implantar no Brasil? E ele respondeu: eu sou um torneiro mecânico. Meu projeto para o Brasil será aquele que as classes populares escolherem à medida que for se elevando o seu nível de consciência política. Acharam que era apenas uma sagaz frase de efeito, quando na verdade era uma nova, e profundamente transformadora, postura, de esquerda democrática.
Revista Brasília em Dia (www.brasiliaemdia.com.br )
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.pt.org.br.