Brasília – As chuvas não podem ser as únicas responsáveis por tragédias como a que atingiu Angra dos Reis nos últimos dias, após o deslizamento de encostas que já provocaram pelo menos 52 mortes. A falta de planejamento urbano e a ausência de fiscalização sobre as ocupações ilegais também estão entre as causas do problema, na avaliação do professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), José Oswaldo de Araújo.
“Não é só culpa da chuva. Grande parte do problema é causado pela intervenção humana que leva ao desequilibro da natureza”.
Na Ilha Grande, por exemplo, segundo Araújo, a ocupação humana e o corte da vegetação deixaram o solo mais suscetível a infiltrações. Com o acúmulo de água, o solo ultrapassou o limite de saturação e desabou. “Desce como um rio de lama”, compara.
O geólogo da UnB argumenta que há conhecimento técnico consolidado sobre riscos de ocupações de encostas, mas que muitas vezes essas avaliações não são consideradas, mesmo em casos em que os mapeamentos geotécnicos e geológicos apontam riscos de deslizamentos e desabamentos.
“É inconcebível que não haja planejamento. E não existe fiscalização suficiente, as pessoas começam a habitar, não existe controle e aí acontecem as tragédias”.
Na avaliação de Araújo, a repetição de acidentes com encostas, como os episódios em Santa Catarina e Minas Gerais, mostram a necessidade de mais rigor no cumprimento e fiscalização do ordenamento territorial das cidades.
“Não é preciso ser profeta para dizer que quando as chuvas passarem e a estação seca chegar ninguém vai falar mais desse assunto e, em janeiro de 2011, novos acidentes vão acontecer”.
Por Luana Lourenço – Repórter da Agência Brasil. Edição: Graça Adjuto.
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Lula vai liberar o uso do Fundo de Garantia para as vítimas da chuva no Rio
Rio de Janeiro – O governo federal vai liberar o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quem sofreu prejuízos materiais com a chuva dos últimos dias no municípios de Angra dos Reis e na Baixada Fluminense, no Rio. A questão foi tratada hoje (4), por telefone, entre o governador Sérgio Cabral e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda não há um valor definido para as medidas de socorro.
Lula e Cabral conversaram também sobre outras medidas emergenciais a serem tomadas pelo governo estadual e federal em relação à tragédia ocorrida em Angra dos Reis e em cidades da Baixada Fluminense, que já resultaram em 72 mortes, sendo 29 na Enseada do Bananal, na Ilha Grande, 21 no Morro da Carioca, uma comunidade carente no centro do município de Angra dos Reis, além de 22 vítimas nas cidades do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense.
A liberação do FGTS será nos mesmos moldes do que foi feito em Santa Catarina, por ocasião das enchentes ocorridas no estado.
O presidente Lula se comprometeu ainda, com o governador, a editar uma Medida Provisória (MP) para liberar recursos federais em caráter emergencial, suficientes para resolver as causas de enchentes e alagamentos nas cidades da Baixada Fluminense.
Os recursos devem ser aplicados em dragagem de rios, construção de casas para reassentamentos, retirada de população de áreas de risco, drenagem e reflorestamento.
Para a cidade de Angra dos Reis, serão liberados recursos para a construção de moradias para as pessoas que vivem em áreas de risco, com a implementação de reflorestamento e contenção de encostas que apresentem possibilidade de desmoronamento.
O governador e a sua equipe vão se reunir com Lula no dia 13 próximo para apresentar os detalhes da proposta para a edição da MP, quando será discutido o valor a ser liberado para às vítimas da tragédia.
Por Douglas Correa – Repórter da Agência Brasil. Edição: Rivadavia Severo.
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Para AbSaber, inundação de Paraitinga é parte de ano anômalo
Atribuir os problemas simplesmente ao aquecimento global é “terrorismo da ignorância” disse o geógrafo à Rede Brasil Atual, demonstrando abatimento pelos acontecimentos em sua cidade natal
Um ano anômalo. Mas que se repete a cada doze ou treze anos. Essa é a definição do geógrafo Aziz AbSaber para os fenômenos registrados neste início de 2010, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP), esse fator está à frente do aquecimento global, do desmatamento e da ocupação desordenada para explicar o ocorrido em sua cidade natal, São Luiz do Paraitinga, no interior paulista.
Não bastasse conhecer o local, AbSaber é um dos maiores geógrafos brasileiros e foi o primeiro a realizar um levantamento completo do relevo nacional. Em artigo publicado na última edição da Revista do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o professor previu alguns dos fatos vistos neste janeiro. Intitulado “A propósito da periodicidade climato-hidrológica que vem provocando grandes crises em Santa Catarina”, o texto conta como o fenômeno “anômalo” se repete periodicamente no espaço que vai do Espírito Santo até o litoral catarinense.
Nos desastres de 2009, houve a influência do El Niño, que aquece as águas do Pacífico: “O certo é que, em um ano de maior aquecimento, provocam maior evaporação das águas costeiras, criando alguns mares de nuvens e atração de bigornas, com temporais agressivos, ocasionando transbordes fluviais”, assinala o texto.
Mesmo muito abatido e dormindo pouco desde que tomou conhecimento dos fatos em sua cidade, Aziz AbSaber concedeu uma aula telefônica de geografia. Durante trinta minutos, explicou a questão da periodicidade e como isso se soma aos outros fatores para provocar o que se viu em Paraitinga. Aos 86 anos, ele contou que deixou a casa na Grande São Paulo na tentativa de amenizar o forte estresse ao qual foi submetido e não está seguro de que terá condições de participar das reuniões para discutir a reconstrução da cidade.
Confira a seguir a explicação de AbSaber à Rede Brasil Atual para as causas da chuva que inundou São Luiz. Na parte sobre a distribuição do sítio urbano foram cortadas as explicações técnicas para facilitar o entendimento do leitor. Mas vale acrescentar que São Luiz está rodeada por um meandro do Rio Paraitinga que o professor chama de “lóbulo interno do meandro”, um ponto em que a própria força da água cavou o curso do rio (a explicação fica mais clara visualizando este mapa). A parte mais antiga da cidade está construída sobre uma área baixa do chamado Mar de Morros que permeia o Vale do Paraíba.
Ano anômalo:
“Este ano foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos. Em Santa Catarina, foi possível ver uma periodicidade que vai desde 1924 até novembro de 2008. Essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luiz. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”
Nota: AbSaber deixou São Luiz aos seis anos, em 1929. A partir dos relatos dele, presume-se que a enchente provavelmente ocorreu entre 1926 e 1928. Se adotada a periodicidade de 12 ou de 13 anos, chega-se ao intervalo entre 2008 e 2011. Vale lembrar que, em 1996, outra forte inundação atingiu a cidade, mas sem os danos gerados pela atual.
“O assunto é complexo. Do lado de São Luiz, o problema dependeu da periodicidade que afetou a América do Sul inteira. Primeiro, grandes chuvas em Santa Catarina. Depois, Rio de Janeiro e Espírito Santo, volta para São Paulo. E, agora, as grandes chuvadas do Alto Vale do Paraíba, que podemos chamar de Planalto Atlântico Paulista”
Aquecimento global:
“Precisa ser bem esclarecido o assunto porque, se não, os que não entendem nada de periodicidade nem de climatologia dinâmica vão dizer que é o aquecimento global que está destruindo tudo. Quanto a isso, posso falar que realmente existe um aquecimento forte em áreas diferentes do mundo intertropical. E, no Brasil, esse aquecimento força mais evaporação na região costeira. A gente vê, desde manhã até a tarde, as nuvens indo para o interior, chegando até o topo da Serra do Mar. Por isso, quanto mais umidade, a Mata Atlântica fica mais protegida. Mas, em compensação, o clima a nível local fica com uma neblina muito forte”
Sítio urbano e ocupação do solo:
“O sítio urbano é de um meandro encrustado em um mar de morros, uma expressão que designa a área que vai de Cunha até Guararema. São Luiz está embutida em um meandro alongado do Rio Paraitinga. Um meandro que volteia a área onde está a cidade”
“A cidade foi crescendo das partes um pouquinho mais elevadas do que a várzea do lóbulo interno e, depois, os mais pobres foram subindo os morros. Lembro que meu pai mandou iluminar um cruzeiro que havia no alto do morro. De noite, a gente observava lá no alto uma cruz com luzes. Hoje, aquelas regiões do alto da cruz foram ultrapassadas pelo povoamento dos morros. Em função das chuvas grandes é que escorreram árvores e enroscaram em muitas coisas”
Educação e prevenção:
“É hora de obrigar essas cidades a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa. A conclusão que coloquei nos meus estudos é que, se acontecer a periodicidade que tenho previsto, é evidente que daqui doze ou treze anos vai acontecer alguma tragédia. O problema é saber de antemão para prever os impactos desses ciclos de tempo anômalo. Esse é um ano anômalo. Basear-se nesse ano para dizer que vai continuar todo ano ocorrendo a mesma coisa é perigosíssimo. É um terrorismo em função da ignorância”
Ou seja, como anotou AbSaber em seu artigo sobre Santa Catarina, há uma década de trabalho pela frente. “Esperamos que governantes federais e estaduais realizem obras e reparos em Santa Catarina, até aproximadamente o ano de 2018/2019. Antes que aconteçam novas anomalias climato-hidrológicas do tipo que aconteceu no norte oriental de Santa Catarina”.
Por João Peres – Publicado em 07/01/2010, 16:50.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.redebrasilatual.com.br.