Sábado, 17 de abril de 2010
Carmem Foro – secretária de Mulheres da Contag
No Dia Nacional de Luta Pela Reforma Agrária, conversamos com Carmen Foro – secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag). Mulher, negra e trabalhadora rural, Carmem nasceu em uma família de pequenos-agricultores no interior do Pará. O mais comum na comunidade onde ele vivia era que as filhas seguissem os passos das mães: ser donas de casa, cuidar dos filhos e trabalhar na roça.
Carmem, no entanto, quis estudar e lutou por isso. Mudou-se para Belém e foi lá que despertou seu olhar para a luta dos trabalhadores. Em 1987, filiou-se a um sindicato rural em sua cidade. “Antes eu era filiada como dependente do meu pai. Depois fiz minha filiação como mulher”. Alguns anos depois ela presidiu o sindicato. Daí, não parou mais: fez parte da diretoria da Central Única dos Trabalhadores (CUT), chegou a Contag e destacou-se por sua liderança.
Confira a entrevista:
Carmem, hoje Dia Nacional de Luta Pela Reforma Agrária. Imagino que para você, que vem de família de camponeses sem-terra e luta pela causa, essa data tenha um sentido especial…
Sim claro… Acho que esse dia tem um significado muito forte na nossa luta, na nossa pauta e na nossa história dos movimentos do campo brasileiro.
Como foi a sua primeira experiência com o movimento sindical? Teve alguma dificuldade por ser mulher?
Foi uma experiência pesada. Primeiro fui filiada como dependente do meu pai. Vivendo na agricultura, esse era o sistema. Na época, no meu município o sindicato era controlado pelo prefeito. A gente tinha o sindicato como instrumento para atendimento a saúde e para coisas que o município não oferecia. O prefeito controlava tudo e fazia alguns convênios. Os sindicatos só serviam para isso.
Você não pôde se filiar?
Eu já fiz a minha filiação bem mais tarde. Nós lutamos e conquistamos o sindicato e eu passei a ser filiada como uma mulher. Na história do meu município no estado do Pará, eu fui a primeira mulher a compor a direção daquele sindicato, em 91. E também fui a primeira mulher a presidir um sindicato.
Você teve resistência na presidência desse sindicato, por ser mulher? Quais foram as suas dificuldades?
Eu tive sempre muito problema, por que sindicato não é lugar para as mulheres. Nunca foi e não é ainda. Portanto, as mulheres que chegam lá sofrem o peso que isso significa, pelo grau de ousadia e por se meterem assuntos que não seriam para nós. Por acharem que não entendemos do assunto. Não é fácil.
Conversamos essa semana com mulheres de um assentamento no interior do Rio Grande do Norte que nos falaram sobre o aumento da participação das mulheres nas lideranças camponesas. Você tem observado isso em todo o país?
Eu estou falando do final da década de 80, começo da década de 90, quando comecei a militância. Hoje a realidade não é diferente, mas ela avançou bastante. Não é ainda o que nós gastaríamos que fosse, mas houve muitas mudanças. E isso é graças à capacidade de organização da mulherada que vive no campo brasileiro.
O campo ainda é um lugar machista? As mulheres ainda têm dificuldade de integrar as lideranças sindicais por conta disso?
Conservador e machista, iInfelizmente. Um lugar aonde você enfrenta o conservadorismo do campo. O patriarcado passeia de braçada: o chefe da família, o dono da terra… As mulheres estão quebrando isso aos poucos com a titulação no nome da mulher e do homem, o crédito para as mulheres, a necessidade de documentos… Isso vai imprimindo uma trajetória de luta que passo a passo vamos conquistando.
Desde o começo da sua militância até hoje, o que você considera sua maior conquista?
Eu não acho que tenha uma maior conquista, porque elas não estão separadas. Elas estão todas conectadas ao que nós fazemos. Nós pertencemos a uma classe, que é a classe trabalhadora. Obviamente que eu tenho conquistas pessoais importantes de reconhecimento político da nossa trajetória, da nossa luta, da nossa militância… Outra vitória foi criar os meus filhos com a militância. Hoje meus filhos compreendem que a minha ausência, em vários momentos, foi por uma razão muito justa.
O que ainda falta ser feito? Quais são suas expectativa para o futuro?
Ah, mulher! A mulherada ainda precisa ser muito respeitada. O tema da desigualdade está muito presente. Nós vivemos num país machista e desigual. E acho que as mulheres precisam também ocupar mais os espaços de poder. E estou muito convencida de que isso de de ter mais mulheres nos espaços de poder irá nos ajudar a encurtar o caminho da construção de um país mais igual.
Uma presidente mulher?
Também. Acho que uma presidente mulher por si só não fará todas as mudanças. Tem que haver mais mulheres no poder. É preciso ter a Dilma, é preciso ter mais governos com mulheres na composição. É preciso ter um conjunto de questões colocadas. Obviamente, que o impacto de ter uma mulher na presidência da república tem um reflexo positivo para nós mulheres que no meu imaginário, na minha visão política, deve ser muito significativa.
Vamos mudar um pouco de assunto. O presidente sancionou essa semana uma lei que obriga o governo a realizar todos os anos o Relatório Socioeconômico da Mulher. O documento pretende traçar um perfil de todas as políticas públicas voltadas para nós mulheres. Qual a sua opinião sobre essa medida?
Eu acho isso fundamental. Falando, principalmente do campo, durante muito tempo nós sofremos de invisibilidade pela nossa profissão. Num processo que é significante para a riqueza nosso país, ficamos invisíveis. Portanto, o relatório anual que traz elementos das políticas públicas do processo produtivo das mulheres é muito importante. Já deveríamos ter tido isso há muito tempo. Significa um avanço muito grande.
Qual é o balanço que você faz do governo Lula para as mulheres do campo?
Começo dizendo que nesses sete anos e pouco de governo nós tivemos a oportunidade de colocar na agenda brasileira o tema das mulheres rurais brasileiras. Antes, infelizmente, não conseguíamos nem colocar na agenda política. Considero que nós tivemos avanços importantes, mas acredito que a gente continue avançando nas políticas: titulação conjunta, Pronaf Mulher, Plano Nacional de Política para as mulheres, políticas construídas pro campo que tem impacto direto nas nossas vidas. Eu considero um balanço muito positivo que nós fomos capazes de protagonizar e colocar na agenda política.
Por Mulheres com Dilma.
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Sábado, 17 de abril de 2010
Dilma diz que Brasil pode acabar com a pobreza na próxima década
Porto Alegre (RS) – A pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, assumiu neste sábado (17) durante plenária com os movimentos sociais em Porto Alegre (RS) o compromisso com o emprego e a renda. E disse ainda que não tem medo de assumir o colocar como meta acabar com a miséria, universalizar o esgotamento sanitário, e dar fim ao déficit habitacional na próxima década.
“Assumo aqui com vocês o compromisso que assumi em São Bernardo, o compromisso com o emprego e a renda. Assumo também o compromisso que muitos acham que é absurdo, porque jamais se acostumaram a colocar metas para si e cumpri-las, que nós temos que acabar com a miséria nessa década, universalizar o esgoto e acabar com o déficit habitacional. Por que isso não é demagógico? Porque tinha coisas que duvidavam e nós conseguimos fazer”, afirmou.
Dilma voltou a afirmar que jamais fugirá de suas responsabilidades.“Digo e vou repetir. Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não estou me referindo aqui à ditadura. Na ditadura, nós somos obrigados a fugir, porque é a diferença entre viver normalmente e entre a vida e a morte. O que eu quero dizer é que fiz todas as coisas por convicção. Não abandono o barco quando as coisas ficam difíceis. Então podem tentar tornar as coisas difíceis pra mim porque eu não abandono o barco”.
A pré-candidata petista disse ainda que não esmorecerá. “Vou estar muito velha com meus netos, lutando por um país mais desenvolvido, soberano, com justiça social e com igualdade”. E acrescentou: “Eu não apelo, vocês não me verão por aí usando métodos pouco éticos para atacar adversários. Não me verão usando métodos para inventar biografias contra ninguém. Mesmo quando sobre mim caiam ataques falsos e difamantes”.
Dilma salientou que não trairá o país. “Não traio os interesses do país. Jamais me verão pedindo que esqueçam o que eu disse. E podem ter certeza que só assim vale a pena”. Ela também disse que não entrega o país e não venderá o Estado. “Eu não entrego meu país. Jamais vou entregar o meu país. Não me verão tomando posições, decisões que levem a perda das riquezas do país ou que levem a venda de seu patrimônio e das empresas públicas. Não esperem de mim a destruição do Estado brasileiro”, disse.
Dilma disse ainda para os movimentos sociais que sempre respeitará o direito de expressão e manterá o diálogo sem usar a força de repressão. “Tem outra coisa que me diferencia. Eu respeito os movimentos sociais. Esteja onde eu estiver eu respeito os movimentos sociais. Respeito o direito de organização sindical, o direito de expressão. Sei que uma democracia como a nossa precisa de movimentos sociais fortes, é impossível que um democrata prenda, bata, persiga os movimentos sociais, jogando cães sobre eles”, discursou.
Os avanços do governo Lula também foram destacados pela pré-candidata.“Aquele país triste, da estagnação e da desigualdade, e do desemprego, nós enterramos no governo do presidente Lula. Nasceu um outro país. Por mais que eles queiram dizer que é continuidade do outro governo, todos sabem onde doía seu calo, que doía o bolso e onde morria suas esperanças. Hoje podemos dizer que mudou, porque construímos um novo Brasil que agora anda para o mundo inteiro com cabeça erguida, auto-estima e é respeitado”.
por Mulheres com Dilma.
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