O discurso da esquerda necessariamente parte da denúncia da realidade das nossas sociedades. Busca revelar as mazelas da realidade, às vezes avança na compreensão das raízes dos problemas. Essa é uma atividade
permanente e indispensável da militância de esquerda, na luta por uma sociedade justa, solidária, humanista.
Porém, a denúncia e até mesmo a análise das raízes dos problemas são práticas necessárias, mas não suficientes, se não desembocarem em propostas, em alternativas superadoras dos problemas apontados. Os intelectuais e algumas organizações da esquerda se limitam às vezes às denúncias, alguns inclusive reivindicam o papel de “desmascarar” o que consideram ser falsidades propagadas por outros setores da esquerda, como se a verdade pudesse ser resultado da simples denúncia.
O marxismo, que constitui o melhor método de análise e fonte de projetos transformadores da realidade, pretende ser não apenas uma interpretação nova da realidade, mas ter no seu bojo, intrinsecamente, projetos de transformação revolucionária do mundo. Não existe separação entre análise e ação política para o marxismo. Nas palavras de Álvaro Garcia Linera, ele mesmo intelectual revolucionário e dirigente revolucionário boliviano, não pode haver separação entre razão e paixão.
O intelectual tende a privilegiar a teoria – os princípios, a teoria em estado puro – em detrimento da utilização do método dialético, que busca a verdade concreta nos processos históricos realmente existentes. A verdade é concreta, costumam ressaltar sempre Lenin e Gramsci. E não se trata de que a análise sem proposta de intervenção concreta fica incompleta. Não. A análise desvinculada da perspectiva de intervenção não capta os fios que articulam a realidade e perde a capacidade de compreensão da realidade também. As propostas de superação das contradições da realidade existente são um momento de julgamento da veracidade das análises, são a prova concreta de que as análises captaram a realidade na sua dinâmica profunda.
Não por acaso os intelectuais tendem a visões ultra-esquerdistas, quando desvinculados da prática concreta. Porque, entre a pureza da teoria e a impureza das formas concretas que assumem os processos políticos, ficam com a primeira, contrapondo-se à realidade concreta, desqualificada como “impura”. Tendem ao pessimismo e à inação.
Como contrapartida, o pensamento dialético, buscando captar a realidade no seu movimento, articulado em torno das contradições, tende a projetos que apontam para espaços de ação, de acumulação de forças, de intervenção,, de transformação da realidade, de paixão intimamente vinculada à razão.
Por Emir Sader.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.
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A supremacia da ignorância
Os Estados Unidos invadiram o Iraque a pretexto de extinguir um arsenal de “armas de destruição em massa”. Nada assemelhado foi encontrado nos alegados esconderijos de Saddam Hussein. Agora, Tio Sam ameaça torpedear o acordo com o Irã patrocinado por Brasil e Turquia. Seja qual for o alcance do combinado, o Poder Americano insistirá na imposição de sanções.
Nada de novo sob o sol. Os ideólogos conservadores que inspiravam o governo republicano eram claros quanto aos propósitos da intervenção no Iraque. Eles falavam do que interessa: superioridade militar e controle de áreas sensíveis para a preservação do poder que se pretende absoluto.
Há tempos, o jornalista americano William Pfaff, do International Herald Tribune, afirmou que “o dinheiro desregrado não apenas dirige o resultado das eleições americanas, mas influencia as decisões do Congresso e as atitudes da Casa Branca, em matérias tão improváveis como a luta contra o tráfico de drogas na América Latina”. Pfaff, um ícone do jornalismo mundial e crítico duro das ações de seu país, antecipou com grande precisão como seria o desempenho dos republicanos no governo. Resta saber o que pensa o insigne jornalista dos democratas sob a presidência de Obama.
As transgressões aos direitos dos povos continuam a ser executadas com persistência, mas hoje edulcoradas com a preocupação de invocar – apenas invocar – a chamada comunidade internacional para justificar as tropelias. Agora, sob o acicate da crise, a razão imperial precisa, mais do que nunca, manter o demônio (qualquer demônio) vivo para impor as razões de sua divindade.
Para tanto, os processos de informação e de formação da consciência política e coletiva, ou seja, os espaços da autonomia individual estão permanentemente subjugados à lógica econômica e política de uma ordem imperial que deslocou a hegemonia do imediato pós-guerra para adotar o exercício puro e duro de seu poder. Na ordem americana, o nomos da terra significa a exigência de respeito à vontade imperial, à sua moral particularista, idiossincrática e assimétrica. O direito, dizia Hegel, enquanto existência da liberdade é uma determinação essencial na refrega contra a “boa intenção” moral. “Os protestos contra este desenvolvimento são… reminiscências do ‘estado bruto de natureza’ que revelam um apego doentio à própria particularidade, narcisisticamente desfrutada como moral”.
O narcisismo moral americano não precisa de adjetivos em sua espantosa objetividade. Está sempre preparado para qualificar os recalcitrantes e dessemelhantes como rogue States, o que significa deformar em proveito próprio o papel das instâncias integradoras no âmbito internacional. O avanço do narcisismo intervencionista americano é constitutivo de sua natureza e demonstra porque, a despeito de Woody Allen, os americanos tomam o seu país como a “utopia realizada”.
A supremacia apoiada na superioridade das armas e no despotismo da economia desregulada dispensa mediações da ordem jurídica e não quer ou não precisa compreender nada. O mundo em que tentamos sobreviver é uma prova diária da degeneração da razão ocidental, transformada e objetivada na execução desabrida dos métodos de domínio.
Os Estados Unidos, diz um dos gurus da nova direita, estão tornando o país mais parecido com ele mesmo. Uma reconciliação do fenômeno com o conceito, provavelmente a apoteose do fim da história. No fundo da alma, a nova direita tem certeza de que os processos e as instituições de negociação democrática, fora dos Estados Unidos, como a ONU, por exemplo, são geringonças inúteis. São estorvos para a consecução das políticas “corretas” isto é, aquelas que se submetem aos seus interesses e de suas empresas. Por isso é preciso coartar e controlar as instâncias de discussão pública da informação. A liberdade de opinião não é boa coisa, sobretudo quando começam a naufragar os programas econômicos e sociais recomendados pelos Senhores do Mundo como roteiros infalíveis para o sucesso.
Na família dos vulgarizadores da opinião subalterna não faltará quem pretenda acusar de “antiamericanismo” os que hoje dão nome e apelido aos episódios de reafirmação do poder imperial americano. Tratar assim uma questão tão grave e decisiva para o futuro da vida decente neste planeta é uma forma tosca de “misturar estação” com o propósito de interditar o exame crítico de qualquer processo político. Isso desfigura o debate racional sobre os conflitos contemporâneos, transfigurado numa guerra de preconceitos travada nos esgotos da alma humana.
Por Luiz Gonzaga Belluzzo. 26/05/2010 10:39:26
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A dura realidade no Velho Mundo
Na situação atual, não é desprezível a possibilidade de um duplo mergulho rumo à recessão na Eurolândia. As perspectivas mais otimistas são de baixo crescimento nos próximos anos
O plano de socorro às economias periclitantes da Zona do Euro replica as medidas de “facilitação quantitativa” (quantitative easing) já adotadas pelo Federal Reserve na gloriosa crise do subprime. Na América, as injeções de liquidez e os programas de compra de ativos podres não fizeram pouco. Além de construir um piso para a deflação de ativos, as intervenções apagaram as culpas do espírito dos pecadores, que, com a ajuda do governo, lograram vencer o colapso da confiança.
No Velho Mundo, depois de um período de subterfúgios ideológicos e negaceios políticos, as lideranças europeias trombaram com a dura realidade. Até mesmo os austeros alemães deram-se conta de que suas virtudes (sobretudo a saúde de seus bancos) estavam ameaçadas pelo colapso dos malditos gastadores gregos, espanhóis e portugueses.
A recriminação cedeu lugar ao pânico, na proporção em que os mercados mostravam os dentes e jogavam a cotação do euro para os calcanhares. Para os senhores da finança pouco importa que tenham sido salvos pela vigorosa intervenção da agência do Estado encarregada da gestão da moeda e do crédito. A garantia pública transmuta-se no poder privado de exigir prêmios elevados para aceitar em sua tesouraria os títulos dos periclitantes devedores soberanos da periferia da Europa. A desconfiança privada atinge o âmago da soberania estatal, comprometendo a legitimidade do Estado como gestor da moeda e da dívida pública.
O programa da Eurolândia conta com a ajuda do FMI e envolve a compra de títulos públicos e privados pelo Banco Central Europeu, além de provimento de liquidez e interposição de garantias nos mercados interbancários, cujas conexões estavam obstruídas pelo chamado risco de contraparte. Em linguagem corrente, esse risco se manifesta sob a forma da recusa dos bancos de emprestarem uns aos outros, desconfiados que o vizinho pode estar carregado de papéis ilíquidos ou encontra-se na iminência de passar para o terreno da insolvência.
Nos próximos meses, os rumos da economia europeia continuarão a depender das avaliações dos bancos e quejandos a respeito do “ajustamento fiscal” e da evolução do endividamento público nos países submergentes. Na situação atual, não são desprezíveis as possibilidades de um duplo mergulho recessivo na Eurolândia. Ainda que essa trajetória indesejável não se realize, as perspectivas mais otimistas são de baixo crescimento para os próximos anos. Não é difícil imaginar as agruras do povaréu – submetido aos rigores do ajustamento, depois de um período das euforias promovidas pelo crédito fácil. Gregos, espanhóis e portugueses sofrerão as dores do cinto apertado: redução de salários, corte dos benefícios sociais, aumento de impostos, tudo aplicado numa economia em declínio.
Por essas e outras, há suspeitas fundadas de que a ação pública de redução do déficit fiscal e de facilitação quantitativa poderá deprimir ainda mais as expectativas privadas. Tal estado de expectativas promove o encurtamento do horizonte temporal dos contratos de dívida. Na busca de maior segurança e liquidez para seus estoques de riqueza, os investidores elevam o prêmio exigido para absorver os papéis dos devedores duvidosos, sejam eles soberanos, sejam privados. Isso não só reduz a capacidade de gasto das famílias e das empresas, como também compromete a própria capacidade dos Estados de emitir dívida nova e de administrar o estoque de endividamento existente. Isto tende a reduzir ainda mais as possibilidades de atuação da política monetária, submetida aos imperativos de taxas de juro reais elevadas, com efeitos negativos sobre a recuperação da economia.
Nessas circunstâncias, as políticas de Estado de geração do déficit e de criação de nova dívida pública correm o risco de fracassar completamente como instrumentos de sustentação dos lucros das empresas e de proteção dos portfólios do setor bancário privado. O setor privado não reage aos estímulos convencionais, revelando que as expectativas de longo prazo estão insensíveis aos sinais emitidos pelo governo. Em uma economia abalroada por uma crise como a que se desenrola na Europa, o desequilíbrio fiscal e o crescimento do débito público na composição dos patrimônios privados tendem a se tornar fenômenos mais profundos e duradouros. Diante de antecipações pessimistas do setor privado, o déficit do governo consegue apenas impedir a queda acelerada da produção e evitar o agravamento da deflação de ativos. Com isso, a crise não é superada, mas ameaça se transformar de crise da finança privada em crise financeira do Estado.
Por Luiz Gonzaga Belluzzo. 21/05/2010 12:57:17
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