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Por 21:09 Sem categoria

Juros do Banco Central abrem portas do país para pilhagem cambial

Taxas de juros mais altas do mundo atraem capital especulativo. Empresários pedem medidas urgentes

Vários empresários brasileiros manifestaram preocupação com a decisão do FED (o banco central dos EUA) de despejar mais US$ 600 bilhões na economia mundial. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, declarou: “temos que achar medidas para controlar o capital especulativo”.

Qual é o problema? Até o “Financial Times”, nesse caso insuspeito, disse, há poucos dias, qual é: “Com taxas de juros básicas em 10,75% – a mais alta taxa do G20 depois de descontada a inflação de 5% – o capital internacional está submergindo o Brasil” (J. P. Rathbone e J. Wheatley, “Brazil ready to retaliate for US move in ‘currency war’”, FT, 04/11/2010).

O mesmo jornal, órgão da “City” (o centro financeiro de Londres), comenta, na mesma matéria, sobre o aumento para 6% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capital externo: “Administradores de fundos nos mercados emergentes dizem que o imposto teve algum impacto sobre investidores em títulos de curto prazo – mas não sobre títulos de maior prazo, que, depois de descontado o imposto, ainda fornecem uma taxa líquida de cerca de 11%. ‘Isto é mais alto do que você pode conseguir em qualquer outro lugar, especialmente para um crédito ‘investment grade’”, disse Kieran Curtis, administrador de fundos em mercados emergentes da Aviva Investors que gerencia 1,3 bilhão de libras esterlinas em títulos de países emergentes”.

Em suma, sem baixar os juros, é óbvio o que vai acontecer com a emissão de US$ 600 bilhões dos EUA, até porque já está acontecendo desde 2009, e, agora, em versão piorada, desde que os EUA anunciaram essa superemissão. Na terça-feira, o economista Yoshiaki Nakano resumiu a situação:

“O QE2 [a superemissão de dólares] tem tido efeito desestabilizador nas demais economias, com aumento de liquidez global traduzindo-se em valorização dos ativos financeiros e das commodities e, com aumento de fluxo de capitais, com depreciação do dólar e apreciação das moedas, particularmente nos países emergentes. QE2 é a segunda grande ofensiva da guerra cambial que os Estados Unidos iniciaram no ano passado. (…) Depois de mais de um ano de iniciada a guerra cambial, está ficando clara a natureza de seus prejuízos. Trata-se de uma decisão unilateral dos Estados Unidos, valendo do seu ‘privilégio exorbitante’ de emissor de moeda reserva, exportando desemprego para o resto do mundo e promovendo enorme transferência de riqueza, com a depreciação dos ativos em dólar em poder do resto do mundo. O Brasil, que sempre teve superávit comercial com os Estados Unidos, passou a ter déficit depois dessas ações. Com taxa de câmbio apreciada estamos exportando menos, portanto, produzindo menos e gerando menos emprego internamente; e estamos importando muito mais, isto é, estamos gerando produção de emprego nos Estados Unidos” (Nakano, “A agenda para o novo governo”, Valor, 09/11/2010 – grifos nossos).

Realmente, mesmo antes do anúncio dessa segunda superemissão (ou superdesvalorização) de dólares, em setembro a produção industrial recuou 0,2% em relação a agosto, um resultado completamente fora da curva histórica. A produção de aço caiu 7% – mas não o consumo: o aço produzido internamente foi substituído por aço importado. No terceiro trimestre, o setor de metalurgia exportou menos 2% e o setor de papel e celulose menos 4,5% do que no segundo trimestre (dados da Funcex – Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior).

O presidente do Instituto Nacional das Distribuidoras de Aço (Inda), Carlos Loureiro, declarou que os estoques continuam muito altos e, apesar da expectativa de que eles diminuíssem em outubro, “a entrada forte de importados não permitiu”. A previsão de importação de aço para este ano é de 5,7 milhões de toneladas, um número espantoso para um país que tem um dos maiores setores siderúrgicos do mundo.

A presidente do Sindicato das Indústrias de Artefato de Papel, Papelão e Cortiça do Estado do Rio de Janeiro, Ângela Costa, declarou que o crescimento do setor estancou em outubro, um mês em que historicamente, a indústria sempre se expandiu. O motivo: “enquanto a política monetária americana seguir expansionista o real tende a seguir valorizando-se e as importações, crescendo”, declarou o chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas (cf. Exposição externa define planos da indústria, Valor, 08/11/2010).

Resumidamente: além da enxurrada de dólares desde 2009, esse novo Everest de dólares não vai ficar – e não está ficando – dentro dos EUA, onde os juros reais estão negativos (taxa básica: -0,9%) e “não há sinais de que os bancos aumentarão a oferta de crédito, nem que os consumidores e empresas estão dispostos a aumentar o seu endividamento, ao contrário, estão desalavancando” (Nakano, art. cit.).

Esses dólares, tal como na primeira superemissão feita pelo FED (a chamada QE1), estão vindo para países em que os juros estão mais altos do que nos EUA – com as consequências descritas acima. O principal país nessa situação, graças ao sr. Meirelles, é o Brasil, que tem a maior taxa de juros básicos do mundo (5,3% em termos reais, ou seja, descontada a inflação – para se ter uma ideia, o segundo lugar em outubro, a África do Sul, tem juros de 2,4%).

Diante disso, vários países procuraram se defender – a China, que tem hoje a terceira maior taxa real de juros básicos do mundo (2%), vinculou a cotação do yuan à do dólar; os europeus, mais discretos, porque mais dependentes dos EUA, também desvalorizaram o euro – mas, sobretudo, reduziram os juros a níveis norte-americanos. O maiores juros básicos reais da União Europeia são os da Alemanha (0%). Todos os demais países estão com juros negativos (dados do FMI).

Essas taxas são, no momento, uma barreira a que o Niagara de dólares do FED arrase esses países – não há vantagem em sair dos EUA, com taxa de -0,9%, e meter-se, por exemplo, na Espanha, que tem taxa de -1,1%, ou na Bélgica (-1,9%), ou na Inglaterra (-2,5%).

Evidentemente, patacoadas como “câmbio flutuante” são para ingênuos. Como diz o professor Delfim, que nunca foi trouxa, o câmbio é um preço da economia que é estabelecido de acordo com os interesses do país – ou contra esses interesses, acrescentamos nós, quando se deixa que bancos e especuladores externos o determinem, isto é, o façam “flutuar”.

No entanto, pior do que ter um câmbio manipulado por especuladores externos (realmente é isso o que se chama de “câmbio flutuante”) é ter, além desse câmbio, juros no espaço sideral – e sem razão alguma para ter juros no espaço sideral.

Não entraremos aqui nos sábios argumentos do sr. Meirelles, segundo o qual o problema do Brasil é que ele está crescendo mais do que o “PIB potencial”, portanto, é necessário que o governo corte gastos, realize um “ajuste fiscal”, para frear esse crescimento, e, assim, seria possível baixar juros. Não entraremos nisso porque este é um artigo sobre economia – e não a página policial, para onde geralmente são relegados os vigaristas. O sr. Meirelles já contou essa história antes – e, infelizmente, o ministro da Fazenda da época, dr. Antonio Palocci, acreditou. Se não fosse o presidente Lula…

Portanto, não precisamos perguntar por que seria necessário um “ajuste fiscal” para baixar os juros quando todos os países do mundo têm taxas que não chegam à metade da nossa, e quando quase todos eles têm taxas negativas. Só para que não passe em branco, o “PIB potencial” (um fictício – e microscópico – crescimento que não causaria inflação) do sr. Meirelles já foi nocauteado – com todas as razões – pelo presidente Lula, quando criou o PAC. Nas palavras do presidente, em maio deste ano: “Acabamos também com essa história de PIB potencial, que era uma bobagem de alguns economistas que diziam que o Brasil não podia crescer mais de 3% que a casa caía”.

Pois agora, segundo Meirelles & cia., o “PIB potencial” só permite um crescimento pouco acima de 4%. Como estamos crescendo mais do que isso, sua conclusão é que teremos de aumentar os juros para evitar a inflação – um pretexto nada original para facilitar a guerra cambial dos EUA contra nós. Como poderia agir diferente um sujeito que está na folha de pagamento do BankBoston – aliás, do Bank of America, que é proprietário de BankBoston?

Por CARLOS LOPES.

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Iedi: além das exportações, perdemos também mercado interno para os importados

O presidente da Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Luiz Passos, defendeu que o governo tome medidas urgentes para proteger o real da enxurrada de dólares que entrará no Brasil, após a decisão do banco central dos Estados Unidos de liberar US$ 600 bilhões para tentar ativar a economia do país.

“A indústria vem sofrendo há muito tempo por razões estruturais. Porém, a situação foi agravada mais recentemente pela valorização do real, que tem nos tirado competitividade. Os nossos saldos comerciais na indústria de média e alta tecnologia são alarmantemente negativos”, disse Passos. “Além da queda das exportações, estamos perdendo também mercado interno para os produtos importados”.

Em estudo intitulado “O que esperam as autoridades para agir fortemente no câmbio?”, divulgado no dia 5, o Iedi observa que enquanto o país consegue “gerar os estímulos ao consumo e ao investimento que tanto faltam às economias centrais (…) , as políticas monetária e cambial vêm impedindo o espraiamento dos benefícios dessa situação por toda a economia”.

Segundo o Iedi, as recentes medidas dos EUA penalizará ainda mais a economia nacional, atrativa ao capital de curto prazo, “ou porque crescem mais ou porque suas taxas de juros dão maiores ganhos”.

“O governo está sensível à questão cambial, mas precisamos de uma ação mais enérgica”, declarou Rogério César de Souza, economista chefe do Iedi, autor do estudo. “A demanda interna está aquecida e tem sido muito bem aproveitada pelos setores de comércio e serviços, que têm apresentado recorde de vendas. Entretanto, a indústria nacional não está acompanhando esse ritmo. O câmbio está minando a indústria, que vem, inclusive, elevando exponencialmente a importação de insumos, máquinas e equipamentos, que nós mesmos fabricamos no país, para produzir a custos menores”, disse.

Ele ressaltou que as importações, em quantidade, de bens de capital cresceram 76% no terceiro trimestre frente ao mesmo período do ano passado. Já a compra de insumos do mercado externo subiu 40%.

NOTÍCIAS COLHIDAS NO SÍTIO www.horadopovo.com.br.

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