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Recebimento de Comenda seria uma incoerência, afirmou Dom Edmilson

Adital – Nesta terça-feira (21), em uma atitude digna de um defensor dos direitos humanos, o bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, se recusou a receber do Senado Federal a Comenda dos Direitos Humanos Dom Helder Câmara. A atitude do bispo católico foi motivada pelo aumento salarial de 61,8% aprovado pelo Congresso Nacional na semana passada.

A comenda foi entregue em Brasília (DF) a Dom Pedro Casaldáliga, ao deputado estadual no Rio de Janeiro Marcelo Freixo, e aos defensores públicos Wagner de La Torre e Antônio Roberto Cardoso. Dom Manuel Edmilson era um dos indicados, no entanto, em forma de protesto, não aceitou a homenagem e ainda assegurou que “a Comenda outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Camara. Desfigura-a, porém”.

Em seu discurso, o Bispo de Limoeiro do Norte não perdeu a oportunidade de relembrar aos deputados, senadores e demais presentes as situações extremas enfrentadas cotidianamente pelo povo brasileiro. Entre elas, a tentativa de ter acesso à saúde por meio de atendimento nos hospitais públicos.

“Não são raros os casos de pacientes que morreram de tanto esperar o tratamento de doença grave, por exemplo, de câncer, marcado para um e até para dois anos após a consulta”, ressaltou.

Dom Edmilson também criticou o não pagamento dos precatórios, o pequeno aumento ofertado para os aposentados/as e o valor do salário mínimo brasileiro para mostrar que o aumento de 61,8% aprovado pelos parlamentares em causa própria é abusivo. “Quem assim procedeu não é Parlamentar. É para lamentar”, criticou Dom Edmilson.

Em entrevista à ADITAL, o Bispo explicou que o prêmio foi pensado para ser outorgado a pessoas que lutam pelos direitos humanos e que seu nome foi indicado pelo senador Inácio Arruda (PCdoB-CE). No entanto, mesmo tendo sido lembrado, o Bispo entendeu que seria uma incoerência, pois estaria agindo contra os direitos humanos ao aceitar a Comenda. Dessa forma, a única saída seria recusar.

“Em Fortaleza, os motoristas de ônibus buscavam 26% de aumento, mas com um grande esforço só conseguiram 6%. Quem recebe mais de 60% de aumento hoje em dia no Brasil? Com certeza não são os aposentados. O salário mínimo também não aumenta nessa proporção. Seria justo que o aumento dos parlamentares seguisse o reajuste do salário mínimo”, defendeu.

“O povo brasileiro é contribuinte, ele paga imposto. Por isso, um aumento de mais de 60% é uma afronta a este povo trabalhador, e quem aprova um aumento destes está atentando contra os direitos humanos dos brasileiros”, completou o Bispo, esclarecendo que sua atitude foi resultado não apenas de suas ações, mas também da de várias outras pessoas justas que lutam pelos direitos humanos.

Em Brasília, Dom Edmilson encerrou seu discurso afirmando que se deve retroceder e pedindo que o erro seja desfeito. O Bispo cearense foi aplaudido pelos presentes.

Após a recusa, o Bispo recebeu o apoio de centenas de pessoas que concordaram com a atitude. De acordo com Rosa Maria, da Arquidiocese de Fortaleza, diversas pessoas estão ligando e enviando e-mail para saber como entrar em contato com Dom Edmilson para parabenizá-lo pela coragem de falar o que o povo brasileiro sente.

“Alguém precisava ter coragem para falar. Acredito que a atitude de Dom Edmilson outras ações e manifestações vão acontecer para mostrar a insatisfação do povo com o aumento dos parlamentares”.

No mesmo dia, enquanto Dom Edmilson dava uma lição de direitos humanos em senadores e deputados, cerca de 130 estudantes secundaristas e universitários de Brasília protestavam em frente ao Congresso contra o mesmo aumento salarial.

Confira o discurso, na íntegra, de Dom Edmilson no endereço a seguir:

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=53323

Por Natasha Pitts, que é jornalista da Adital.

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Discurso durante sessão no Senado

Adital – Discurso de Dom Manuel Edmilson da Cruz, Bispo Emérito da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, durante a outorga da Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Camara, conferida pelo Senado Federal, no dia 21 de dezembro de 2010

A surpresa chegou aos meus ouvidos à noitinha, quinta-feira 16 de dezembro. Como o alvorecer da aurora e a vibração cantante de um bom-dia. Mais que surpresa: era como se alguém de extraordinária generosidade tivesse enfocado uma libélula projetando a sua leveza e levando-a a atingir as proporções de um águia ou de um condor.

Passa por esse crivo o meu cordial agradecimento ao senhor Senador Inácio Arruda, aos seus ilustres Pares que o apoiaram e a todo Congresso Nacional.

Pensei, em vista dos meus oitenta e seis anos, em receber essa honraria por meio de um representante. Mas Congresso Nacional merece respeito. Verdadeiro Congresso Nacional é sinal de verdadeira democracia.

A honrosa condecoração, porém, dos Pais da “Pátria”, (como diriam os Romanos “Patres Conscripti”), me faz refletir. Precatórios que se arrastam por décadas; aposentados, idosos com suas aposentadorias reduzidas; salários mínimos que crescem em ritmo de lesmas… depois de três meses de reivindicações e de greves, os condutores de ônibus do transporte coletivo urbano de Fortaleza, dos cerca de 26% de aumento pretendido, mal conseguiram e a duras penas, pouco mais de 6%, quer para a categoria, quer para o povo, principalmente os pobres da quinta maior cidade do nosso Brasil.

Pois é exatamente neste momento que o Congresso Nacional aprova o aumento de 61% dos honorários de seus Parlamentares que em poucos minutos chegam a essa decisão e ao efeito cascata resultante e o impõe ao povo brasileiro, o seu, o nosso povo. O povo brasileiro, hoje de concidadãos e concidadãs, ainda os considera Parlamentares? Graças ao bom Deus há exceções decerto em tudo isso. Mas excetuadas estas, a justiça, a verdade, o pundonor, a dignidade e a altivez do povo brasileiro já tem formado o seu conceito. Quem assim procedeu não é Parlamentar. É para lamentar. Prova disto? Colha na Internet.

Bem verdade é que a realidade não é assim tão simples e a desproporção numérica, um dado inarredável. Já existe – e é de uma grandeza bem aventurada! – o SUS; o Bolsa Família. Aí estão trinta milhões de brasileiros, que da linha de pobreza, às vezes até da indigência, alcançaram a classe média. É verdade a atuação do Ministério da Saúde. Existe o Ministério da Integração Nacional. É verdade! Mas não são raros os casos de pacientes que morreram de tanto esperar o tratamento de doença grave, por exemplo, de câncer, marcado para um e até para dois anos após a consulta. Maldita realidade desumana, desalmada! Ela já é em si uma maldição. E me faz proclamar em pleno Congresso Nacional, como já o fiz em Assembléia Estadual e em Câmara Municipal: Quem vota em político corrupto está votando na morte! Mesmo que ele paradoxalmente seja também uma pessoa muito boa, um grande homem. Ainda não do porte de um Nelson Mandela que, ao ser empossado Presidente da República do seu país, reduziu em 50% o valor dos seus honorários.

Considerações finais

Senhores e Senhoras,

Sinto-me primeiro, perplexo; depois, decidido. A condecoração hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Camara. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os Senhores a Senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la! Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, a cidadã contribuintes para o bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade do seu trabalho. É seu direito exigir justiça e eqüidade em se tratando de honorários e de salários. Se é seu direito e eu aceitar, estou procedendo contra os Direitos Humanos. Perderia todo o sentido este momento histórico. O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isto não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os Direitos Humanos do nosso povo.

A atitude que acabo de assumir, assumo-a com humildade. A todos suplico compreensão e a todos desejo a paz com os meus sinceros votos e uma oração por um abençoado e Feliz Natal e um próspero e Feliz Ano Novo!

DEUS SEJA BENDITO PARA SEMPRE.

Por Dom Manuel Edmilson, que é Bispo Emérito da Diocese de Limoeiro do Norte, Ceará.

NOTÍCIAS COLHIDAS NO SÍTIO www.adital.org.br.

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