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Dilma e a sociedade civil

O que os consumidores dos noticiários recebem é um “discurso infantilizante”. A dificuldade está em que não se pode fazer a contra-informação com um discurso igualmente simplista e emocional. “É preciso desenvolver uma ecologia da informação para descontaminá-la das mentiras que podem ser fatualmente demonstradas”, propõe Ignacio Ramonet.

Lula registrou as realizações do governo em cartório, enfatizando na documentação sobretudo as conquistas sociais. Como interpretar o gesto do expoente que se despede da Presidência com 83% (DataFolha, dez/2010) de aprovação na opinião pública? Aprovam o gestor mas não conhecem os feitos da gestão, conquanto 80% (idem) declarem aprovação à mesma ? Por que a necessidade de um certificado cartorial ao final do segundo mandato?

O objetivo foi acautelar-se contra uma modalidade de significação, explorada pela grande mídia, para perpetuar uma marca negativa no governo. Como Lula alertou em uma ocasião, se um estudante daqui a duas décadas fizer uma pesquisa nos noticiários atuais chegará à conclusão de que este é o pior governo da história do Brasil. E o mais corrupto.

O périplo presidencial confrontou o “mito”, na acepção do semiólogo Roland Barthes (Mitologias, SP, Difel, 1975), desconstituindo as “falsas evidências” veiculadas entre 2002 e 2010 para formar as “crenças aceitas pela comunidade” (que respondem pelo parco percentual que considera o governo ruim ou péssimo). A versão mítica da Folha de São Paulo, Estadão, Veja e Jornal Nacional, da Rede Globo, reproduzida por outros veículos, assim, encontrou um contraponto simbólico. Empate técnico, já nos descontos.

Folha de São Paulo

A guerra de posição, que travestiu-se em guerra de movimento no frustrado impeachmentde Lula, não acabou com a vitória da primeira mulher alçada ao Palácio do Planalto. Dia seguinte, quem deveria zelar pela retidão no jornalismo, começou a inventariar as “promessas” que aquela herdaria, omitindo das manchetes o que as matérias revelavam: obras de infraestrutura em andamento, aliás, muitas concluídas. O ápice da manipulação viu-se em um caderno especial que superou as maledicências usuais sobre os oito anos do ex-retirante nordestino (FSP, “Crescimento, avanços sociais e escândalos”, 19/12/2010).

Conforme salientou Paulo Henrique Amorim, no blog Conversa Fiada, a chamada de capa trazia uma ressalva: “Lula entrega país melhor, mas imposto é recorde”. A função do “mas” consistia em adjudicar um predicado pejorativo à marca do governo. O jornal fazia-se passar pela “consciência” da população ao trazer à tona o tema com o qual os conservadores procuram rearticular-se, depois do profundo descrédito em que caiu o modelo gestionário ancorado nas perorações sobre o “Estado mínimo” e os “ajustes fiscais”. Com pertinência, Amorim alertou ainda para a ausência de menções às riquezas do Pré-Sal, garantidas pela substituição do regime de concessão para o de partilha, e à operação de subscrição de ações da Petrobrás, a maior da história do capitalismo. Quanto ultraje sem rigor!

Valeria a pena mencionar o que se desfiou também sobre a política externa pós-FHC, altiva e soberana, um dos muitos sucessos de que pode orgulhar-se o povo brasileiro, enfeixada em letras garrafais com um título depreciativo “Ambição política definiu o tom da diplomacia”. Mais subjetiva, impossível. Lê-se então que “a troica formada pelo presidente Lula, pelo chanceler Celso Amorim e por Marco Aurélio Garcia, assessor do Planalto, mudou a ênfase da política externa brasileira”, o que a família Frias lamenta obviamente.

Estultices

Entre outras estultices, o colunista de plantão atribuiu a alteração de foco à “chegada ao poder do PT, com histórico de desconfiança em relação aos Estados Unidos”. Nenhum pejo em assumir os interesses geopolíticos dos EUA, e nenhuma compreensão sobre a importância da integração latino-americana e o papel estratégico do Mercosul em uma economia globalizada. Não à toa, a cobertura jornalística da recente reunião de cúpula do Mercosul, na trinacional Foz do Iguaçu, foi pífia quando não boicotada. Sem um comentário sobre as políticas acordadas pelo bloco para a criação de um Estatuto de Cidadania, que assegura a livre circulação na região em vez da perseguição aos imigrantes como ocorre no hemisfério Norte. O Sul não entra na pauta dos proprietários da opinião pública.

O “mensalão” é apontado como um divisor de águas da era Lula, dando de barato a sua veracidade ainda por provar-se, mas nada se adita acerca das medidas implantadas pelo governo para combater a corrupção estrutural no aparelho estatal. Não obstante, iniciativas importantes foram tomadas pelo governo no período, como a “transformação da Corregedoria-Geral da União em Controladoria-Geral da União, dando a ela maior autonomia institucional e status de ministério, e a maior autonomia da Polícia Federal na investigação do crime organizado”, sublinha o cientista político Fernando Filgueiras (Carta Capital, 22/12/2010). A ponto de a CGU tornar-se uma referência reconhecida internacionalmente na luta anticorrupção, com sobras de elogios ao governo.

O que os consumidores dos noticiários recebem à guisa de análise e, no caso, balanço do governo, é um “discurso infantilizante”. A dificuldade está em que não se pode fazer a contra-informação com um discurso igualmente simplista e emocional. “É preciso desenvolver uma ecologia da informação para descontaminá-la das mentiras que podem ser fatualmente demonstradas”, propõe o editor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet. Esse é o sentido da ida de Lula até um cartório, a fim de oficializar os volumes que relatam avanços em todas as áreas administrativas: demonstrar com fatos que a engrenagem mistificadora da mídia, afora não divulgar com objetividade e não contextualizar as ações governamentais, escondeu ao longo dos anos a sua repercussão emancipadora na vida social, política, econômica e cultural do Brasil. Ah se meu fusca falasse!

Resgate da palavra

Por outro lado, ao autenticar os sucessos sociais alcançados com a implementação de políticas públicas e controles transparentes sobre o erário, “como nunca antes…”, Lula resgatou a autoridade da palavra em uma sociedade movida pela instantaneidade das imagens. Dinâmica que induz a posicionamentos irrefletidos, ao gosto momentâneo das massas. A dominância das imagens desemboca no que o filósofo Paul Virilio (Página 12, 20/11/2010), ao acusar o culto da velocidade, batizou de “democracia reflexa”: bloqueia o pensamento, o cotejo de argumentos e inviabiliza a interlocução entre pares.

A imagética impactante do espetáculo provoca reações que levam ao eclipse da razão, e não a uma reflexão para fundamentar com juízos autônomos um parecer frente às questões de interesse comum. Lula, ao contrário, lançou mão da escrita para provar o que fez e auxiliar a apreensão consciente por parte dos concidadãos. Como na música, ilustra Virilio, é necessário achar o ritmo certo para participar e fortalecer o processo democrático.

O ritmo frenético das críticas magnificadas pela lente de aumento da mídia empresarial, acompanhadas por fotos ou filmagens que mobilizem estereótipos e preconceitos (tipo mulher fumando charuto), tem sido a regra para minar as bases sociais do governo junto às classes médias. O que vale é a exposição sensacionalista, sem a obrigação de apresentar uma comprovação às acusações e insinuações. O alvo é a reputação dos governantes. Tudo serve de pretexto, do custo de produção da festa de posse ao salário dos guarda-costas. Não é a qualidade das imputações o que importa, é a quantidade.

Repolitizar a política

A enxurrada de suspeições, reiteradas dia após dia, gera um ambiente de desgaste político e moral impedindo o trabalho de discernimento individual e coletivo. A marca, finalidade última da publicidade, é consequência da solapa. Com o que a mídia traça a linha de ataque a ser seguida pelos partidos de oposição. Em lugar de destacar as concepções em disputa sobre o Estado e os projetos propugnados por cada campo político-ideológico para a nação, estimulam-se as avaliações e sensações centradas na moralidade. Nas pegadas dos ultraconservadores estadunidenses dedicam-se à despolitização da política.

É bem verdade que a extensão da banda larga no território nacional, propiciando um acesso mais amplo à internet, ajuda a conter a sabotagem sobre as realizações das administrações progressistas nas distintas esferas federativas, bem como as distorções deliberadas que transformam o significado dos fatos em seu oposto. Especialistas são unânimes em afirmar que a diversificação das fontes informativas retira poder aos monopólios da comunicação, o que não implica minimizar a influência que desfrutam (Venício Lima, Carta Maior, 21/12/2010). De todo modo, as redes globais contribuem para a repolitização da política, tornando-se instrumentos que interagem com os movimentos sociais e estimulam a emergência de novos atores sociais. A entrevista de Lula aos blogueiros já mostrou que existe vida além da mediocridade da imprensa marrom.

Se os movimentos reivindicativos clássicos vinculavam-se às categorias profissionais de trabalhadores, a mobilização que acontece via internet remete a determinados códigos culturais de ideias e valores. O desafio está em fazer da defesa do governo Dilma uma ideia aglutinadora na internet e, da liberdade de expressão, um valor indissociável da luta contra os monopólios da voz e da imagem. A censura ao Wikileaks, que não mereceu contestação dos subsidiários do capital midiático, indica o desprezo do capitalismo com os princípios democráticos e republicanos. Seu apreço restringe-se à acumulação e ao golpismo.

Interação permanente

A intenção da mídia, por ora em marcha lenta, será a de provocar uma crise de identidade no governo. Caberá aos partidos políticos de sustentação da esperança liderada agora por Dilma abrirem-se para uma interação com a juventude, as mulheres, os negros, os social-ambientalistas, os defensores dos direitos humanos. Empreendimento que será potencializado pelos governantes através de espaços dialógicos deliberativos envolvendo os setores sociais organizados. Quanto maior a participação popular, maiores os atrativos para a formação de redes comunicacionais na internet que conjuguem o desejo de transformações profundas na realidade. A internet só é um mural de anúncios para os burocratas.

A reforma tributária e a reforma política, prioridades em 2011, não podem ficar circunscritas às negociações palacianas e aos corredores parlamentares. Ambas mexem com disposições refratárias de peso. Acabar com a regressividade da matriz tributária e taxar as grandes fortunas é essencial à obtenção de recursos financeiros que respaldem a continuidade e o aprofundamento das políticas públicas de distribuição de renda. Instituir o financiamento público de campanha e o voto em lista é limitar a ingerência do poder econômico nas eleições. Tais iniciativas modificariam a cultura política do país, jogando luz sobre os programas partidários e também sobre os laços classistas das agremiações.

Mas não se materializarão sem apoio massivo nas ruas e nas redes. A internet equivale, hoje, ao que foram a fábrica fordista e as portentosas corporações sob hegemonia industrial, ontem. Fazer com que seja uma ferramenta política de solidariedade e de uma militância criativa em favor das mudanças históricas em curso no Brasil e na América Latina, nisso reside a tarefa de todas as mentes e todos os corações comprometidos com a agenda civilizatória que sucedeu a barbárie neoliberal. Lidar com esse novo parâmetro sociotécnico requer uma quebra de hierarquia, uma aceitação da diferença, uma abertura para o mal-entendido que reanima a conversação e descortina horizontes imprevistos. O futuro exige essa descontração política, livre de esquematismos burocráticos.

Marco regulatório

Os responsáveis pela opacidade que encobre os atos políticos da esquerda trocam a liberdade de expressão pela ditadura da ocultação, negando o direito à informação. Urge uma mobilização da sociedade civil (o verdadeiro campo de batalhas da luta de classes) para fazer uma revisão do marco regulatório da organização e exploração dos serviços de telecomunicações e radiodifusão, e coibir a propriedade cruzada dos meios de comunicação.

O passo inicial foi dado com o “Seminário Internacional Comunicações Eletrônicas e Convergências de Mídias”, proposto pela SECOM. A estrada é longa. Para percorrê-la, não basta a vontade política do governo. A própria opinião pública tem de tomar para si essa bandeira, manifestar-se a respeito nos grêmios estudantis, associações comunitárias, assembleias sindicais, etc, para que se converta em uma aspiração geral. A Argentina deu o exemplo, sua experiência deve ser socializada. O que está em jogo é a democracia. Para que Dilma não tenha de repetir o périplo de Lula a um cartório ao final do mandato.

Por Luiz Marques, que é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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Jornalismo apressado e mal feito

O jornalismo brasileiro, que já não era muito assertivo, termina 2010 vestido em forma de grande ponto de interrogação, jornalismo que acha, além de improdutivo, entediante investigar os fatos e os dados antes de publicar a matéria.

Mais alguns dias e adeus 2010. Tempo de pensar (e repensar) sobre tudo o que foi notícia e não merecia e também sobre tudo o que não foi notícia, e merecia. Momento especialmente propício para refletirmos se realmente o Brasil tem a imprensa que merece. Sim, porque é mais fácil mudar o curso do rio São Francisco do que ver nossa velha imprensa deixar de lado os velhos cacoetes que tanto lhe entortaram a escrita através dos anos. É mais fácil redesenhar a pirâmide da mobilidade social no Brasil do que ver ser resgatada de forma inconteste a credibilidade de parte considerável de nossos meios de comunicação.

Mas é também momento de passar em revista as muitas idas e vindas de uma imprensa quase sempre errática ao longo do ano. Imprensa que não precisou se esforçar muito para nos deixar estupefatos com o pouco caso com que princípios básicos do bom jornalismo foram relegados a segundos e terceiros planos: objetividade jornalística, relevância das pautas, importância e raridade de temas, investigação responsável antes da publicação de denúncias, respeito ao chamado “outro lado” e por aí afora.

Período de altos e baixos e onde os baixos predominaram quase que ininterruptamente. A seguir, o resultado da faina laboriosa de meus dois neurônios de estimação para me contar como foi 2010.

Previsão furada

Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, em entrevista publicada na revista Veja (nº 2127, de 22/8/2009) aposta que o governo, apesar da imensa popularidade do presidente Lula, não conseguirá fazer o sucessor – no caso, a ministra Dilma Rousseff. Também afirma que o PT está em processo de decomposição. Como vimos nem uma coisa, nem outra. Montenegro como vidente tem sido excelente presidente do Ibope.

A longa jornada em busca do fato novo

Recorrente em todo o ano foi a busca desenfreada de vistosos veículos de comunicação por fatos novos, aqui entendidos como aqueles fatos capazes de frear o favoritismo da então candidata governista Dilma Rousseff e, simultaneamente, alavancar a candidatura oposicionista de José Serra. Ao longo do ano foram rotulados como fatos novos coisas antigas, sem qualquer sombra de ineditismo, como a muito falada e pouco conhecida ficha da terrorista “Vanda” nos anos de chumbo, a quebra do sigilo fiscal de quase 4.000 brasileiros – sendo que destes apenas cinco ou seis cidadãos recebiam pesado e explícito apoio da imprensa diária e semanal, escrita, radiofônica e televisiva, cobrando sempre em tom alarmante urgentes providências para se descobrirem os beneficiários de tais malfeitos.

A grande imprensa abdicou de utilizar a percepção, a intuição e a inteligência jornalística para responder a questões importantes como estas: a quem interessaria (no duro mesmo!) a quebra do sigilo fiscal nos últimos meses de 2009 de Eduardo Jorge Caldas Pereira, vice-presidente do PSDB, de seus companheiros de partido, de Samuel Klein (dono da Casas Bahia) e da apresentadora da TV Globo Ana Maria Braga? Quem estaria mais necessitado de um balão de oxigênio que atendesse pelo nome fato novo?

Capas da Folha de S.Paulo

O jornal paulista continuou sua trajetória política de “morde-e-assopra” em busca de um cada vez mais impossível equilíbrio entre ser pró-governo e pró-oposição. Mas não deixou de reduzir a pó sua alegação recorrente de pairar acima dos partidos políticos, suas metas, desafios, anseios e motivações. Isto aconteceu num domingo (5/9/2010), quando estampou em sua capa a manchete que terá carregar durante muitos anos como pura irresponsabilidade jornalística: “Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. A reportagem atribuía à então candidata Dilma Rousseff um erro na cobrança da tarifa social de energia elétrica quando era ministra das Minas e Energia. Segundo o Tribunal de Contas da União, o desperdício foi de R$ 989 milhões no tempo em que Dilma ocupava aquela pasta (2003-2005). A notícia estava destinada a se contrapor à propaganda eleitoral, que apresentava a candidata à Presidência pelo PT como uma eficiente gestora e colocava em xeque essa imagem.

A propósito, informe-se que a tarifa social foi criada em 2002, ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. As mudanças solicitadas pelo TCU ocorreram em 2007, dois anos depois da saída de Dilma da pasta. A lei que regula a tarifa social foi alterada em 2010.

A inusitada manchete reunindo em poucos caracteres acusação explosiva de erro monumental (falha), cifra impressionante (R$ 1 bi) e ainda o nome bem estampado da candidata-líder (Dilma) em pesquisas de opinião na corrida para o Palácio do Planalto, tinha tudo para chamar a atenção de qualquer observador da mídia minimamente comprometido com o embate petistas versus demotucanos. Alguns tuiteiros se recusaram a aceitar esse papel(ão) do jornal paulista e divulgaram milhares de mensagens de 140 caracteres sugerindo outras manchetes para o jornal da Barão de Limeira. Pincei três: “Em 2000, Dilma aconselhou o FHC: não precisa investir em energia. O risco de racionamento é zero”; “Dilma joga moeda de um real na pista de Congonhas e derruba avião da TAM”; “Erro de Dilma soterra mineiros no Chile e é a principal pedra que impede a saída dos mineiros chilenos da mina”.

Jornalismo apressado e mal feito

O jornalismo brasileiro, que já não era muito assertivo, termina 2010 vestido em forma de grande ponto de interrogação, jornalismo que acha, além de improdutivo, entediante investigar os fatos e os dados antes de publicar a matéria. Com bem poucas exceções sobrevivemos doze meses sob o império do “grande Se”, sob o domínio do “achismo”, desde as coisas mais banais até às mais importantes para o país. Às favas com a busca da verdade, imparcialidade, busca incessante pela objetividade jornalística. É como se as primeiras páginas dos jornais, seus espaços nobres e vistosos, se transformassem do dia para a noite em editoriais alagadiços, transbordando de uma seção a outra, de uma editoria a outra, irrompendo em colunas de notas políticas, avançando por sobre o colunismo social e até mesmo impregnando o espaço dos leitores com a opinião amplamente vociferada em flamejantes editoriais.

Ufa! Mas não fica por aí. Durante a exibição do Jornal da Globo do dia 27/8/2010, o apresentador William Waack perde a paciência e grita “Cala Boca” durante a entrevista da ex-ministra Dilma Rousseff.

Reinações dos especialistas em opinar

Em 2010, as notícias foram divulgadas de forma mais adjetivadas que o normal. Pouco de substância. Opinião quase sempre exacerbada, tingida por cores ideológicas. Quanto mais os grandes jornais e revistas do país tratavam de mostrar ao longo de 2010 seu decantado – mas nunca explícito – não-alinhamento partidário, mais seus colunistas carregavam nas tintas para defender seu candidato ao Planalto.

Fiquemos em apenas uma exemplificação que já estará de bom tamanho. Consideremos, a título ilustrativo, o caso Merval Pereira, principal comentarista de política do jornal O Globo e da rádio CBN, que no curto período de 15/6/2010 a 17/8/2010 criou e tratou de difundir ao máximo sua alcunha para Dilma Rousseff – a laranja eleitoral. Ele escreveu coisas como:

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“De um lado, a candidata oficial, Dilma Rousseff, transformada pelo próprio Lula em sua `laranja´ eleitoral…” (O Globo, 15/6/2010);
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“Ela já era figura proeminente antes mesmo de surgir do bolso do colete de Lula para ser impingida ao eleitorado como sua `laranja eleitoral´” (O Globo, 6/7/2010);

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“…que o seu eventual primeiro mandato será o terceiro de Lula, o que pode transformá-la em uma mera `laranja eleitoral´ do seu mentor” (O Globo, 16/7/2010);
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“… enquanto Dilma a cada dia valoriza mais o papel de `laranja eleitoral´ de Lula…” (O Globo, 11/8/2010);

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“Mas, como não é ele que concorre, e sim uma sua `laranja eleitoral´, a transferência de votos ainda não é total, e possivelmente não será” (O Globo, 17/8/2010).

A conferir se o sapiente comentarista das Organizações Globo irá, a partir do dia 1º de janeiro de 2011, elevar sua criação linguística à condição de pronome de tratamento regular para quando se referir à presidente Dilma Rousseff grafar algo como “Dilma Rousseff, a Presidente Laranja do Brasil”.

O falso debate camuflando reais intenções

A imprensa clamou desde a primeira semana do ano até esta semana que no Brasil a liberdade de expressão estava por um triz. O risco vinha embutido em qualquer ideia, qualquer iniciativa, qualquer autoridade do governo que ousasse mencionar a (já) imperiosa necessidade de regulamentar – minimamente que seja – os veículos de comunicação. Para aproveitar o bordão presidencial, tomo a liberdade de, solene como sói acontecer, declarar que nunca antes na história deste país se usufruiu de tanta liberdade – opinião, expressão, imprensa – como nos dias atuais.

Ficou evidente que o combustível por trás da luta por liberdade de expressão no Brasil está na manutenção dos monopólios midiáticos, a liberdade para decidir a seu bel-prazer o que deve ser consumido pela sociedade sem qualquer consulta aos poderes constituídos. A grande imprensa se fecha em copas quando o assunto é a regulamentação dos artigos 223 e 224 da Constituição de 1988. E se abre de par em par quando é defender seus interesses corporativos, quase sempre em benefício direto de não mais que uma dezena de famílias.

Previsão furada de 2010 para 2010

Oscar Quiroga, astrólogo do jornal Estado de S. Paulo que recebeu amplo espaço da revista Veja (2161, 21/4/2010) para reunir a confraria dos astros em apoio ao candidato José Serra à Presidência, afirmou nas páginas da revista que, considerando “a notável coincidência de que no dia 10 de abril, quando sua pré-candidatura a presidente foi formalizada, o planeta Urano tenha atingido a localização em que o Sol se encontrava no momento do seu nascimento”, e agregado o fato de que “Júpiter também atingirá a posição de seu mapa natal no fim de maio e de setembro, o que é outro sinal positivo para seu desempenho como candidato à Presidência… seria tolice não arriscar a afirmação de que José Serra deve ser o próximo presidente do Brasil”.

Como vimos, os astros ouvidos por Veja entendiam tanto de futuro quanto o deputado eleito Tiririca de processo legislativo.

Tipo de não-fato potencializado pela imprensa

O tumulto que aconteceu no dia 20/10/2010 no bairro do Campo Grande, no Rio de Janeiro, entre simpatizantes das candidaturas de Serra e Dilma, teve como maior protagonista uma bolinha de papel que quicou na calva de José Serra. Foi difícil para a imprensa, principalmente a televisiva, informar bem seus telespectadores – cada qual assumindo a versão favorável a seu candidato à presidência. Entretanto, é preciso relatar os fatos como eles aconteceram e, entre os telejornais exibidos na noite daquela quarta-feira (20/10), parece que apenas o SBT Brasil conseguiu mostrar toda a sequência dos acontecimentos.

Na matéria, fica claro que o objeto que atingiu a cabeça do candidato foi uma simples bolinha de papel. Não foi uma pedra, nem um rolo de papel, nem um rolo de adesivos – versão final comprada pelos jornais do dia – como publicaram os principais portais de notícias. Resumo da ópera: o caso Bolinha de Papel virou jogo online no portal UOL com a chamada: “Teste sua pontaria atirando bolinhas de papel no candidato José Serra. Mova o mouse para os lados para apontar e quando Serra aparecer, clique para jogar as bolinhas e marcar muitos pontos.”

Capas de Veja

A revista Veja mostrou pouca criatividade para tentar influir na campanha eleitoral de 2010. Bateu – com gosto, muito gosto – no governo Lula. Se fosse contratada pela oposição dificilmente conseguiria realizar melhor trabalho de desconstrução de oito anos de governo. Algumas das recentes edições do carro-chefe da Editora Abril trouxeram na capa, sempre carregando na cor vermelho-escarlate, chamadas como…

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“Lula, o mito, a fita e os fatos” (edição 2140);

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“Caiu a casa do tesoureiro do PT” (edição 2155);

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“Ele cobra 12% de comissão para o PT” (edição 2156);

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“O monstro do radicalismo” (edição 2173).

Vejamos as edições das três semanas anteriores ao primeiro turno das eleições deste ano: a edição nº 2181, de 8/9/2010, trazia na capa a ilustração em primeiro plano de um polvo se enroscando no brasão da República. Manchete: “O partido do polvo”; e o subtítulo: “A quebra de sigilo fiscal de filha de José Serra é sintoma do avanço tentacular de interesses partidários e ideológicos sobre o Estado brasileiro”. A ediçãonº 2182, de 15/9/2010, repetia na capa a mesma ilustração, sendo que agora o polvo enrosca seus tentáculos em maços de dinheiro.

Manchete: “Exclusivo – O polvo no poder”; subtítulo: “Empresário conta como obteve contratos de 84 milhões de reais no governo graças à intermediação do filho de Erenice Guerra, ministra-chefe da Casa Civil, que foi o braço direito de Dilma Rousseff”. A ediçãonº 2183, de 22/9/2010, tem novamente na capa o famoso molusco marinho lançando gigantescos tentáculos dentro do espelho d´água do Palácio do Planalto. A manchete: “A alegria do polvo”, um balão daqueles de revista em quadrinhos e delimitado por raios abarcava a interjeição: “Caraca! Que dinheiro é esse?”

Há que se destacar, ainda, o perfil eminentemente partidário da revista Veja: em 54 semanas, nenhuma capa foi dedicada ao sr. Índio da Costa, muito menos ao sr. Paulo Preto, menos ainda ao Dersa e ao Rodoanel de São Paulo. O Brasil ter sido o último a sentir os feitos da crise econômica mundial e também o primeiro a desta sair… não foi, definitivamente, assunto jornalístico à altura da capa de Veja.

Deu no WikiLeaks

Julian Assange, com seu WikiLeaks, deu uma levantada na moral da velha imprensa ao instrumentalizá-la com formidáveis 250.725 documentos diplomáticos do governo dos Estados Unidos. The New York Times, El País, Le Monde, The Guardian e Der Spiegel foram os principais veículos por ele escolhidos para repercutir segredos diplomáticos que criaram – e continuarão a criar – embaraços ao governo Obama e saias justas à sua secretária de Estado, Hillary Clinton. Sintomático que um expoente do que autodesigna jornalismo científico, claramente gerado nos meios digitais, tenha requerido a experiência e tradição da velha imprensa para “filtrar” dezenas desses documentos e torná-los acessíveis com um mínimo de contextualização possível às massas da sociedade.

Preso por supostos crimes sexuais ocorridos na Suécia, Julian Assange teve inicialmente seu pedido de fiança negado. O recebimento de fundos em contas do WikiLeaks foi literalmente bloqueado pela Mastercard, Visa, PayPal e Amazon. Todas, grandes multinacionais estadunidenses.

No caso do Brasil, onde a grande imprensa tenta nos vender a todo custo a impressão de que a liberdade de expressão está com suas horas contadas, nada de substancial foi publicado, seja na forma de editoriais ou não, em defesa do australiano. E, no entanto, concordo integralmente quando o cineasta Michael Moore o descreve como “um pioneiro da liberdade de expressão, do governo independente e da revolução digital do jornalismo”.

A grande novidade em nosso Brejo da Cruz foi, com grande possibilidade de acerto, a importância assumida pela WikiLeaks, seu impressionante grau de articulação e mobilização e seu recado aos Senhores Tradicionais da Mídia, como a dizer: “Baby, e nós… ainda nem começamos!”

Por Washington Araújo, que é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email – wlaraujo9@gmail.com

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/)

ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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