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Brasil poderia ter superado a pobreza há 20 anos

Se as políticas de desenvolvimento social tivessem acompanhado o crescimento da economia há décadas, a pobreza estaria extinta há pelo menos 20 anos, pondera o economista Marcio Pochmann. O presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) avalia que a presidente Dilma Rousseff tem condições de cumprir sua principal promessa de campanha: superar a miséria.

Um estudo do Ipea divulgado no início do ano prevê que a pobreza extrema seja erradicada no Brasil até 2016.

– A possibilidade de superarmos a pobreza é algo que faz parte da agenda de superação do próprio subdesenvolvimento. O que nós estamos vendo agora é um avanço mais rápido do padrão social e por isso que o Brasil consegue ter esse indicativo de superação da pobreza nos próximos cinco ou seis anos.

Em entrevista a Terra Magazine, Pochmann destaca o desenvolvimento dos últimos anos e os programas sociais do governo Lula.

– Eu acho que nós só podemos comparar o desempenho brasileiro deste ano com o que nós vivenciamos na primeira metade da década de 70, com o chamado Milagre Econômico. Mas esse crescimento de agora tem distribuição de oportunidades.

Apesar dos elogios, ele acredita que Dilma terá desafios maiores. Entre eles, lidar com novas características da economia como o aumento da população idosa e o crescimento da importância do setor de serviços. Além disso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega – que continuará na pasta -, já anunciou a necessidade de cortes nos gastos públicos nos próximos anos.

Para Pochmann, o corte deve ser nos gastos improdutivos, como os provocados pelos altos juros.

– Nós vínhamos num ritmo bastante acelerado, crescendo acima de 7% ao ano. E possivelmente teremos um crescimento menor para 2011. Ao redor de 5%, o que já é bastante grande olhando o período recente do Brasil. Uma coisa é o custeio, outra coisa é o investimento. Espero que essas decisões considerem o teor do investimento, que é crucial.

Leia a entrevista na íntegra.

Terra Magazine – A ascensão social e o crescimento da classe C nos últimos anos foram destacados no governo Lula. A que isso se deve?

Marcio Pochmann – Se nós olharmos ao longo do século 20, o Brasil foi uma das nações que mais cresceu do ponto de vista econômico, ampliando a base material que permitiu que deixássemos de ser um país agrícola e nos transformássemos num país industrial. A despeito desse avanço econômico, os avanços sociais foram relativamente pequenos quando a gente olha o conjunto da população. O Brasil não fez o conjunto das reformas que os outros países fizeram, não fez reforma agrária, não fez reforma social, não fez reforma tributária. É natural que sem essas reformas não pudessem ser mais bem distribuídos os ganhos que o Brasil obteve. Apesar dessa característica de um processo muito concentrador, nós sempre tivemos uma forte mobilidade social. É uma característica do capitalismo brasileiro. Mas nas décadas de 80 e 90 essa mobilidade foi reduzida. Era cada vez mais difícil que os filhos de classe média conseguissem reproduzir o padrão de seus pais. O que nós temos nesta primeira década do século 21 é a forte mobilidade social. O desafio do próximo governo é como abrir as oportunidades não apenas para a base da pirâmide social, mas também acima dos níveis intermediários.

Como assim?

Isso depende não apenas do crescimento da economia, mas do tipo e da natureza do crescimento. Porque crescer é importante, mas depende do tipo. O desenvolvimento fundado na produção de commodities permite a economia crescer, mas as oportunidades, a qualidade das ocupações é diminuta. A expansão de setores de maior valor agregado pode permitir a contratação de pessoas com salários maiores.

No final de 2009, o senhor disse em entrevista a Terra Magazine que 2010 seria o melhor ano para o Brasil. Foi, de fato?

Eu acho que nós só podemos comparar o desempenho brasileiro deste ano com o que nós vivenciamos na primeira metade da década de 70, com o chamado Milagre Econômico. Só que esse desempenho de 2010 é diferente daquele. Nós crescemos um pouco menos, mas esse crescimento de agora tem distribuição de oportunidades. Com saída da pobreza de parcela significativa da população e ampliação das oportunidades escolares. Um país que está crescendo sem depender do mercado externo, contrário do que era no Milagre Econômico. É muito mais saudável o que está acontecendo neste ano de 2010. Especialmente pelo número de empregos formais, que é uma coisa impressionante.

A presidente Dilma fez uma promessa de erradicar a miséria. Isso é possível? Como?

Quando nós falamos em nova classe média no Brasil, causamos a falsa impressão de que se trata de uma classe média com padrão de vida europeu. Isso não é verdade, estamos num país que carrega as condições de um país subdesenvolvido. A possibilidade de superarmos a pobreza é algo que faz parte da agenda de superação do próprio subdesenvolvimento. É estranho que o Brasil – já sendo a oitava economia do mundo na década de 70 – tivesse 40% da sua população vivendo na condição de pobreza. Nós poderíamos ter superado a pobreza há 20 anos. É bastante peculiar no Brasil o disparate entre a base material e econômica que o país possui e o padrão social. O que nós estamos vendo agora é um avanço mais rápido do padrão social e por isso que o Brasil consegue ter esse indicativo de superação da pobreza nos próximos cinco ou seis anos. Isso é viável. É evidente que precisa crescer e sofisticar melhor as políticas sociais, mas não é impossível.

E quais os desafios, então?

Cada vez mais a gente vem enfrentando a nova pobreza. Ela é caracterizada, em primeiro lugar, pela transição demográfica que nós estamos vivendo. Um processo acelerado de envelhecimento dos brasileiros. Infelizmente o Brasil ainda não está preparado para lidar com uma parcela significativa da população em condição de pobreza. Temos 3 milhões de pessoas com mais de 80 anos e em 2030 pode ter cerca de 20 milhões de pessoas com 80 anos ou mais. Isso significa considerar um fundo público de políticas nesse segmento e políticas de saúde nessa direção.

Também estamos vivendo uma transição do ponto de vista da organização da economia, que está cada vez mais centrada nos serviços. Isso não quer dizer que a indústria e a agricultura não sejam importantes, mas nós vamos gerar emprego é no setor de serviços. Isso pressupõe uma nova forma de olhar essas ocupações, pressupõe olhar o conhecimento como a principal forma de manejo. E nós temos problemas sérios na educação.

A necessidade já anunciada pelo ministro Guido Mantega de fazer cortes nos gastos públicos pode prejudicar os investimentos na área social?

Nós vínhamos num ritmo bastante acelerado, crescendo acima de 7% ao ano. E possivelmente teremos um crescimento menor para 2011. Ao redor de 5%, o que já é bastante grande olhando o período recente do Brasil. Uma coisa é o custeio, outra coisa é o investimento. Espero que essas decisões considerem o teor do investimento, que é crucial uma vez que o investimento é a melhor política para conter a inflação. O investimento permite ampliar a capacidade produtiva gerando mais produtos e serviços e evitando uma inflação de demanda.

O senhor acha que seja necessário reduzir os gastos públicos?

Sim. Se olharmos o gasto como um todo, incluída a despesa com juros, eu não tenho dúvida. Nós temos todas as condições de reduzir a despesa pública, especialmente aquela que é improdutiva para o país: a despesa com os juros. O Brasil está gastando de 5% a 6% do PIB. Isso é um gasto elevadíssimo, um absurdo.

A economia já cresce o suficiente para que seja possível haver ajuste fiscal sem que isso afete o crescimento da economia?

Eu acredito que nós já abandonamos essa fase de ajuste fiscal. Essa política sofreu uma derrota nas últimas três eleições. O Brasil, de uns tempos para cá, trocou o ajuste fiscal pelo desenvolvimento. O que está em jogo neste momento é: quais são as condições macroeconômicas para garantir o desenvolvimento brasileiro. As finanças públicas são o meio, não o fim. Nos anos 90, o ajuste fiscal era o fim. O governo estava organizado para o ajuste fiscal. E lamentavelmente o que nós vimos foi um aumento do endividamento público, especialmente comparado ao PIB. E o aumento da carga fiscal. Hoje o que estamos verificando é que a dívida pública caiu. E não porque teve ajuste fiscal, mas porque a produção cresceu mais rapidamente.

Por Dayanne Sousa.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4860380-EI6579,00-Pochmann+Brasil+poderia+ter+superado+a+pobreza+ha+anos.html

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Dilma dará tratamento diferente aos gastos públicos

As primeiras declarações da nova equipe econômica da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), destacaram a necessidade de um ajuste fiscal e redução de gastos públicos. Para Antonio Corrêa de Lacerda, ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e professor-doutor em Economia da PUC-SP, “o governo Dilma será diferente do governo Lula no tratamento dado aos gastos públicos”. O economista explica sua avaliação em entrevista a Terra Magazine:

– As condições que o Brasil inicia esse mandato são totalmente diferentes das condições em que começaram outros mandatos. Isto se dá pelo volume de reservas que nós temos, a situação da economia em crescimento, e por outro lado alguma pressão inflacionária. Acho ser preciso dar um tom na política econômica para este determinado momento em que estamos.

Lacerda avalia que o momento agora pede “ajuste fiscal, calibrar economia para reduzir juros, e – muito importante – corrigir o câmbio”. Segundo o economista, a questão cambial influi no fortalecimento da indústria nacional. “É uma questão fundamental”, completa.

Nesta quarta-feira (24), foi confirmada a equipe econômica do próximo governo. Guido Mantega segue no Ministério da Fazenda, Alexandre Tombini foi nomeado para a presidência do Banco Central (BC) e Miriam Belchior para o Ministério do Planejamento.

Leia a entrevista:

Terra Magazine – O que o senhor achou da nova equipe econômica escolhida por Dilma?

Antonio Corrêa de Lacerda – Gostei do perfil da nova equipe. A grande vantagem é que foi feita uma renovação com certa continuidade.

Por quê?

Guido Mantega foi mantido na Fazenda e ele foi o grande articulador da política econômica do governo no pós-crise. E Tombini, que já estava no BC – portanto é experiente, é da casa e tem uma excelente formação -, foi agregado. No Planejamento, Miriam já tem um bom entrosamento com Dilma e conduz o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Sobre as primeiras declarações do trio, com que olhos o senhor avalia os discursos mais fiscalistas e de contenção de gastos do governo?

As primeiras declarações deles foram muito positivas, no sentido de garantir o que já foi conquistado e ao mesmo tempo se comprometer com novos avanços.

O discurso de Mantega foi bastante fiscalista e durante a campanha Dilma dizia não ser necessário um ajuste fiscal.

Isso. Mas na verdade o ajuste que tem que ser feito é mais qualitativo do que quantitativo.

Como assim?

Ao contrário de países como Irlanda, Portugal e Grécia – que têm déficits públicos superiores a 10% do PIB e uma dívida pública superior a 100% do PIB – o Brasil tem um déficit relativamente baixo, algo em torno de 2,5% do PIB. E o grande componente do nosso déficit decorre da taxa de juros, que é o custo do financiamento. Portanto, eu acho que está correta a mensagem que eles passaram. Haverá um ajuste fiscal.

E uma pressão inflacionária também.

É, e o ajuste será um dos elementos para combater essa pressão inflacionária. Então eu acho que está correto o rumo das declarações.

Tanto em campanha, quanto em começo de mandato, se discute muito a redução dos gastos públicos. O ministro da Fazenda defendeu corte de gastos e Miriam Belchior reiterou a afirmação, dizendo que precisarão fazer “mais com menos recursos”. Isso não deveria ser uma premissa na administração pública? Se fosse simples, Lula já não teria adotado esta política?

São situações diferentes. Em primeiro lugar, eu não vejo continuidade neste sentido. Acho que o governo Dilma será diferente do governo Lula no tratamento dado aos gastos públicos. Em segundo lugar, a situação hoje é totalmente diferente. As condições em que o Brasil inicia esse mandato são totalmente diferentes das condições em que começaram outros mandatos. Isto se dá pelo volume de reservas que nós temos, pela situação da economia em crescimento, e por outro lado, alguma pressão inflacionária. Acho ser preciso dar um tom na política econômica para este determinado momento. E o momento agora do Brasil é com ajuste fiscal, calibrar economia para reduzir juros, e – muito importante – corrigir o câmbio, que é uma questão fundamental.

Para favorecer a indústria nacional?

Exatamente.

A dívida pública subiu 1,15%.

Neste caso, o principal é fazer o ajuste fiscal e reduzir juros, mantendo o crescimento econômico. Assim, será reduzida a relação dívida/PIB, de aproximadamente 40% para perto de 30%, em quatro ou cinco anos. Este é um projeto a longo prazo. Não é desesperador uma dívida de 42%, é plenamente administrável.

Qual seria o patamar ideal?

Seria 30% para o padrão brasileiro. A grande vantagem do Brasil é que não teremos que sacrificar o crescimento da economia para fazer o ajuste fiscal. Podemos ter um ajuste fiscal light, de qualidade, sem prejudicar o crescimento e com uma inflação relativamente estável.

O senhor acredita que diante desta perspectiva o Banco Central pode não só trabalhar com o regime de metas de inflação, mas incluir também outras variáveis na sua adoção de medidas?

Acredito que a tendência será está. Quer dizer, sem abrir mão do regime de metas de inflação, mas aperfeiçoá-lo para ter uma visão mais holística do processo, incluindo outros fatores, inclusive o câmbio.

Por Marcela Rocha.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4811179-EI6579,00-Lacerda+Dilma+dara+tratamento+diferente+aos+gastos+publicos.html

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