O vice-presidente da República, José Alencar, afirmou, nesta quarta-feira, que o Brasil está preparado e em boas condições para enfrentar qualquer problema que possa vir do exterior e que venha eventualmente prejudicar os financiamentos das empresas nacionais. “O Brasil possui um aparato muito bom na área creditícia. Possui, por exemplo, o BNDES que é o banco de desenvolvimento econômico e social. Ele está preparado estruturalmente e também com recursos para financiar as empresas brasileiras”, sublinhou.
José Alencar fez esta avaliação após reunir-se, nesta quarta-feira, com o presidente Lula e outros ministros do governo para analisar a situação da crise financeira americana. Nos últimos dias o mundo assiste à uma onda de falências que já quebrou 22 instituições financeiras, entre elas os chamados bancos de investimento, corretoras, inclusive a seguradora AIG (American International Group). Esta situação já é considerada a maior crise desde a grande depressão de 1929 e foi provocada pela especulação desenfreada que se intensificou nos EUA, após a desregulamentação do setor bancário, na década de 90.
Para o vice-presidente, o papel do setor público brasileiro é fundamental para garantir a continuidade do projeto de desenvolvimento nacional. “Não haverá problemas de crédito”, disse. “O país possui o Banco do Brasil, que no caso de crédito para a exportação dá condições ao exportador brasileiro de competir lá fora em igualdade de condições com qualquer outro exportador que esteja oferecendo algumas condições de prazo de pagamento”, prosseguiu Alencar. A meta do governo para as exportações brasileiras neste este ano é de US$ 202 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A meta anterior tinha sido fixada em US$ 190 bilhões. A elevação representa um crescimento de 25,7% em relação ao ano passado. Deste total. Cerca de US$ 100 bilhões necessitam de financiamento.
“O Brasil tem condições de oferecer esse financiamento”, garantiu Alencar. “E o governo está atento para que a nossa economia continue crescendo. Obviamente sem se descuidar da questão da estabilidade da moeda”, destacou o vice-presidente. Ele defendeu também que entre as medidas necessárias para o País enfrentar a crise financeira internacional, “está o fortalecimento do BNDES”.
“O BNDES é um banco raro. São poucos os bancos que têm seus recursos e estão emprestando dinheiro a 6,25% ao ano”, disse o vice-presidente, na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo ele, “não faltam recursos” para se fortalecer o BNDES. Em rápida entrevista após a cerimônia de entrega da Medalha do Conhecimento – 2008, na sede da CNI, Alencar declarou que “o Brasil tem condições excepcionais de atravessar a crise”, mas, para garantir boas condições durante a turbulência, precisa fortalecer seu mercado interno e não deixar faltarem recursos para financiar, a custos econômicos, as exportações e a produção interna.
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Oposição quer colocar o país a reboque da crise americana
Brasil tem a oportunidade de crescer de forma independente, com nossas próprias forças, nossos recursos e nosso Estado
Nos últimos dias, a mídia foi tomada pelos rumores, aliás, já esperados, de que a crise americana irá arrastar o Brasil, de que o crescimento será reduzido – “no máximo 1 ou 2%”, se é que haveria crescimento – de que a escassez de crédito ameaça as nossas exportações (como se dependêssemos necessariamente dos bancos externos para obter linhas de crédito) e outras histórias de quem tem a cabeça colonizada.
Naturalmente, destacou-se, nesse réquiem servil, a contumaz senhorita Leitão, segundo a qual o mundo pode acabar por “falta de liderança dos EUA”. Melhor seria se ela arrumasse uma liderança para a sua casa…
Na verdade, só há uma forma inevitável de que nós sejamos arrastados por essa torrente de sujeira que está indo pelo ralo nos EUA: colocar o nosso barco para navegar dentro dela.
Certamente, Obama e os democratas terão a oportunidade, ao ganhar as eleições, de implementar um programa de recuperação dos EUA – foi o que fez Roosevelt, a partir de 1933. Mas, enquanto isso, não há como achar que um pacote de US$ 700 bilhões para os fracassados da especulação irá resolver qualquer problema, nem que haja qualquer outra coisa pela frente na economia norte-americana que não seja o desastre. Pelo contrário.
O jornalista alemão Gabor Steingart, correspondente da “Der Spiegel” em Washington, publicou recentemente um artigo muito interessante sobre o assunto, a começar pelo título: “Estados Unidos da América: o país onde o fracasso é recompensado”.
“Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental”, diz Steingart. “As companhias de cartão de crédito dos Estados Unidos não estão em uma situação significativamente melhor do que os bancos. Elas também venderam o futuro e até mesmo uma parcela do período posterior a ele”.
E continua:
“A indústria automobilística norte-americana também se encontra seriamente combalida e tem dificuldades para estender as suas linhas de crédito no mercado aberto. A indústria perdeu mais de 300 mil empregos desde 1999. Mas qual é o benefício disto se são os gerentes – e não os trabalhadores – os culpados pela crise? A enorme conta dos Estados Unidos com a compra de petróleo – cerca de US$ 500 bilhões – é atualmente paga com dinheiro emprestado pela China. A cada dia útil, a dívida externa dos Estados Unidos aumenta em quase US$ 1 bilhão”.
Daí, a conclusão de Steingart, muito significativa para uma revista insuspeita de tendências à esquerda, como a “Der Spiegel”: “o capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser”.
E, realmente, apesar desse capitalismo sempre ter sido uma “selva selvagem”, há elementos de perversão quase inacreditáveis – não por existirem, como existem, em outros países, mas por terem sido pescados da vida criminal e transformados, por lei, em dogma: “Segundo a legislação tributária dos Estados Unidos, a compensação na forma de ações e garantias é taxada em menos da metade do índice mais elevado de impostos. Como resultado, a taxa tributária que incide sobre os rendimentos de muitos banqueiros é inferior àquela a que estão sujeitos os salários das suas secretárias”.
Sobre o pacote de Bush, diz Steingart: “O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água”.
Em suma, segundo o secretário do Tesouro, Henry Paulson – sócio do Goldman Sachs, um dos principais bancos de Wall Street que estão à beira do abismo (aliás, um pouco além da beira) – os US$ 700 bilhões para os especuladores não serão tirados do dinheiro que a população paga em impostos, mas de empréstimos feitos pelo Tesouro. Empréstimos feitos a quem? Aos contribuintes dos EUA, ou seja, ao povo. Pretende-se que a população, endividada até os cabelos e já com a poupança expropriada ou em fase de expropriação, pague seus impostos (a uma taxa que é o dobro daquela dos banqueiros) e ainda “empreste” compulsoriamente dinheiro ao governo para que este o entregue aos bancos falidos.
Entende-se, assim, porque, na última pesquisa de opinião, nada menos do que 80% dos consultados declararam-se contra o pacote de Paulson/Bush. Trata-se de um plano de devastação do país e da forma mais segura de provocar uma comoção social – sem que nada, absolutamente nada, seja resolvido, e tudo piore em escala gigantesca, até porque o rombo dos bancos é um buraco negro, insaciável na voracidade por dinheiro do público.
Essa é a situação. Atrelarmo-nos à especulação americana, tal como defendem alguns, é levar o nosso país para a catástrofe – e sem necessidade alguma, numa crise que não fabricamos, tendo a alternativa de crescer de forma independente, com nossas forças, nossos recursos, nosso Estado, e intercâmbio com quem acharmos que nos convém.
Por CARLOS LOPES.
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