Dificuldades que serão enfrentadas decorrentes da crise financeira e econômica, alternativas para evitar maiores estragos em cada país e a importância da integração da América do Sul foram os temas abordados pelo secretário de Estado do Planejamento e Coordenação Geral paranaense, Enio Verri, no seminário internacional “Crise – Rumos e Verdades”, nesta quarta-feira (10), em Curitiba. Ele participou da primeira mesa-redonda do dia no evento promovido pelo governo do Paraná, cuja programação segue até a quinta-feira (11), no Canal da Música.
Ao apresentar uma visão pessoal e não a da administração pública estadual, conforme fez questão de frisar, Verri, que é professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutor em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), disse acreditar que a atual crise vai aprofundar o processo de integração sul-americana. “Nossos países vão conversar muito mais e não tenho dúvidas de que vamos construir políticas mais rápidas e incisivas, fortalecendo esse processo”, afirmou.
Ele lembrou que a integração não tem a ver somente com o fluxo comercial, mas também com a construção social, e vai desenhar a União de Nações Sul-Americanas (Unasul). “Essa é a saída mais sólida”, observou. “Para isso, serão necessários harmonia mínima de nossas políticas macroeconômicas, o controle do capital especulativo – que é um debate que temos que ampliar – e uma integração política”, ressaltou. A partir da integração política, segundo Verri, será possível discutir outras questões, como as das áreas industriais, da saúde e da educação.
O secretário avaliou que a integração deve ser pensada também no âmbito de relacionamento com países de outros continentes, como a África e a Europa. “Isso levaria a uma grande diferença, para daí sim discutirmos a soberania norte-americana e chegarmos a um enfrentamento dela. Essa parceria com países de outras regiões é que vai permitir que façamos a revisão do papel dos Estados Unidos na nova ordem mundial”, destacou.
MEDIDAS – Segundo Enio Verri, não há dúvidas que os países sul-americanos enfrentarão grandes dificuldades com a crise atual. “Ela é fruto de pelo menos duas décadas de políticas neoliberais”, opinou. Ele salientou que é preciso pensar em políticas para cada país, além das alternativas coletivas. “Uma delas é ampliar, mais do que nunca, o investimento em infra-estrutura, que vai gerar a dinâmica necessária para o nosso desenvolvimento. Outra medida é a redução da taxa de juros, que incentivaria o investimento produtivo e o capital nacional. Também é preciso pensar no consumo do mercado interno”, enumerou.
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Economista sugere que EUA tomem medidas de apoio ao mercado interno
Franklin Serrano, economista carioca que participa das discussões promovidas pelo Governo do Estado disse, ao contrário de muitos outros palestrantes do seminário Crise: Rumos e Verdades, que a aposta na multipolaridade não é, neste momento, a melhor saída para o combate aos efeitos da crise global. A afirmação foi feita nesta terça-feira (9), durante o painel “Crise e o papel da China, EUA, Rússia e Índia”. Ele propõe uma intervenção efetiva do governo dos Estados Unidos para ajudar os setores prejudicados e estabilizar a economia americana. “A política de crédito americana está retraída”, disse.
De acordo com o doutor em economia, formado pela Universidade de Cambridge, não houve colapso do dólar e o déficit americano não causou males significativos à economia dos países envolvidos na crise. “Os déficits externos americanos facilitaram e foram bons pra os outros países. Se existe um grupo de economias que querem fazer superávit é bom que exista uma que aceite ter um déficit”, explicou.
Segundo Serrano muitos dos países que participam do G20 dependem do dólar. “Por isso é difícil apostar em ações multilateriais”, afirmou. Ele explicou que uma busca por dólares agora atrapalhará as negociações mundiais sobre crédito. “O dólar não está colapsado”, reiterou. “O perigo é chegar nas negociações sob termos muito complicados, porque países como o Brasil estão precisando da estabilidade do dólar muito mais do precisava antes da crise”, disse, alertando para a multipolaridade “simpática”. “Vai ser mais fácil achar aliados aqui dentro do que os interesses nacionais e financeiros deles”, disse.
Para Franklin Serrano o que está aprofundando a gravidade da crise nos Estados Unidos é a reticência do Banco Central Americano em destinar recursos públicos para salvar os setores mais prejudicados, como a indústria automobilística, fato que tem gerado discussões no Congresso norte-americano nas últimas semanas.
“O Estado deve ter políticas de gerenciamento de crises muito fortes para não criar novos conflitos”, disse, referindo-se ao choque que os empréstimos podem criar entre setores que se sintam mais ou menos beneficiados. “A intervenção do Estado é indispensável”, completou. Segundo Serrano está havendo uma grande confusão sobre o uso de recursos públicos. “Não é hora de punir os acidentados”, disse.
Segundo o economista, os Estados Unidos podem sair desta crise mais fortalecidos do que entraram. “A compra de títulos não vai mexer com as reservas americanas”, disse. Franklin afirmou que a retração da política de crédito americana é um problema, já que é o dólar que regula o câmbio internacional. “É preciso que o governo americano aposte em uma política expansionista. O problema é a paralisia política-econômica americana, que está ligada ao período de transição do país”, disse.
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Crise abre espaço para ascensão de ordem mundial multipolar, diz analista alemão
O mundo precisa de nova arquitetura de segurança tanto quanto de uma nova arquitetura financeira e uma nova ordem econômica, disse nesta terça-feira (9) o analista de estratégia e política internacional alemão Michael Liebig, em sua participação no seminário internacional “Crise — Rumos e Verdades”, organizado pelo Governo do Paraná em Curitiba.
Liebig, editor do portal www.solon-line.de, disse acreditar que a crise abre espaço para o nascimento de um mundo multipolar, com a ascensão do G-20, a “chance e a obrigação” da União Européia assumir um papel moderador e um recuo do poderio dos Estados Unidos, “devido à excepcional severidade dessa crise”. “Não compartilho da visão negativa de alguns colegas aqui sobre o G-20. Provavelmente as críticas são corretas, mas ainda assim o G-20 é a formalização da morte do G-7”, afirmou.
“O mundo, em termos de potenciais novas potências, é mais diverso do que jamais foi. Então podemos de um mundo multipolar. E não tivemos um mundo multipolar até agora, na história moderna”, falou Liebig. “A crise originada e centralizada nos EUA aprofundou e seguirá aprofundando mudanças na correlação de forças entre os atores políticos e econômicos mundiais. Já temos um sistema global multipolar, mas não uma ordem. O desafio — e não sei quanto tempo ele levará para ser atingido — agora é criar uma ordem global multipolar sustentável”, argumentou.
“Uma nova ordem econômica mundial e uma nova arquitetura financeira sustentáveis demandam uma nova arquitetura global de segurança. Essa nova arquitetura de segurança irá envolver, necessariamente, tópicos como estruturas de segurança obsoletas que datam dos dias da Guerra Fria, arsenais nucleares, proliferação nuclear, bases militares estrangeiras — e não imagino que os EUA, por razões econômicas, estejam em posição de manter mais de 750 bases militares em cada canto do mundo. Esse deverá se tornar um tópico urgente em todo o globo”, disse Liebig.
O alemão disse também que não acha que uma recessão global é conseqüência inevitável da crise. “Para além de lidar com a crise imediata, é preciso tratar de produzir novos paradigmas econômicos, de um novo pensamento econômico. E esse novo paradigma tem de ser mais que uma simples negação mecânica do neoliberalismo, tem de abrir novas avenidas na teoria econômica”, defendeu.
Liebig também comparou o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, ao ex-líder russo Mikhail Gorbachev. “Obama se elegeu falando em mudança, mas não foi claro quanto ao conteúdo dessa mudança. Gorbachev falava em Perestroika, em mudança, mas também não era claro sobre o que queria dizer”, justificou.
“Não creio que veremos grandes iniciativas por uma nova arquitetura financeira partirem do governo de Barack Obama. Porque os EUA estão muito enrolados com os problemas em seu sistema financeiro, na sua economia real, não haverá muito tempo para eles pensarem numa nova ordem na economia mundial. Pelo contrário, acredito que dos EUA partam atitudes de desestímulo, de bloqueio a tais iniciativas”, falou o alemão.
Liebig participou da mesa “Crise e o Papel da China, EUA, Rússia e Índia”, que também teve a participação do diretor de Estudos Avançados da Academia de Ciências da Rússia, Yuri Gromyko, e de Franklin Serrano, professor-adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Leia os principais trechos da exposição de Michael Liebig.
UM MUNDO MULTIPOLAR
“Os EUA continuarão a potência militar líder pela próxima década, mas, devido à excepcional severidade dessa crise, terão seu poderio reduzido. A noção de globalização também é problemática. 15 anos de globalização geraram uma estranha dialética, em que de um lado temos uma enorme e crescente diversidade e de outro uma enorme e crescente conformidade, ou mesmo uniformidade. Mas a diversidade está lá. O mundo, em termos de potenciais novas potências, é mais diverso do que jamais foi. Então, podemos de um mundo multipolar. E não tivemos um mundo multipolar até agora, na história moderna.”
“A Alemanha, que deve ser o país que mais depende das exportações no mundo, mais inclusive que a China, há 15 anos tinha nos EUA os compradores de 15% de sua produção. Hoje, eles respondem por apenas menos de 6%. Ao mesmo tempo, exporta para a Rússia, Europa oriental, China, Índia, América Latina, cada vez mais. Isso representa um potencial significativo.”
“A crise originada e centralizada nos EUA aprofundou e seguirá aprofundando mudanças na correlação de forças entre os atores políticos e econômicos mundiais. Já temos um sistema global multipolar, mas não uma ordem. O desafio — e não sei quanto tempo ele levará para ser atingido — agora é criar uma ordem global multipolar sustentável.”
“Uma nova ordem econômica mundial e uma nova arquitetura financeira sustentáveis demandam uma nova arquitetura global de segurança. Essa nova arquitetura de segurança irá envolver, necessariamente, tópicos como estruturas de segurança obsoletas que datam dos dias da guerra fria, arsenais nucleares, proliferação nuclear, bases militares estrangeiras — e não imagino que os EUA, por razões econômicas, estejam em posição de manter mais de 750 bases militares em cada canto do mundo. Esse deverá se tornar um tópico urgente em todo o globo.”
“Desde 2007, quando a crise se instala, A União Européia — paradoxalmente, dada a sua complexa estrutura e aparentemente enfadonho mecanismo de funcionamento — tem a chance e a obrigação de exercer um papel moderador nesse mundo multipolar, dos pontos de vista econômico, financeiro e de segurança, uma vez que tem uma especial e maleável relação com os principais atores globais — a Rússia, os EUA, o Brasil, a China, Índia, entre outros.”
“O sistema multipolar atual, de certa forma, nasce em 1998, quando se falou num triângulo estratégico de cooperação entre Rússia, China e Índia. Não se levou a sério. Então, em 2001, a Organização de Cooperação de Xangai foi formada, entre Rússia, China e países da Ásia Central, observados pelo Irã e pela Índia. Também não foram levados a sério. Peguemos os Bric — que também não foram levados a sério, ainda que isso esteja mudando agora. No primeiro encontro de líderes dos Bric, em maio, mal havia cobertura internacional.”
“Não compartilho da visão negativa de alguns colegas, aqui, sobre o encontro do G-20. Provavelmente, as críticas são corretas, mas ainda assim o G-20 é a formalização da morte do G-7. Devemos ser mais cuidadosos ao ver isso — o G-7 não é mais o grupo liderado pelos EUA dirigindo os interesses econômicos e financeiros de todo o mundo. O mundo precisa de nova arquitetura de segurança — abrangendo de Vancouver (no extremo oeste do Canadá) a Vladivostok (principal porto russo na costa do Oceano Pacífico) — tanto quanto precisa de uma nova arquitetura financeira e de uma nova ordem econômica.”
CRISE: A RECESSÃO GLOBAL NÃO É INEVITÁVEL
“A crise econômica que irrompe em agosto de 2007 é principalmente a crise do sistema financeiro e da economia real dos EUA. É a crise de um modelo particular de capitalismo, um capitalismo orientado pelo mercado financeiro, em oposição ao capitalismo orientado pela economia real, que ainda é predominante na Europa continental. Nos EUA, 40% dos lucros das corporações vêm do setor financeiros. Na Alemanha, eles são apenas 8%.”
“Não acredito que seja inevitável uma depressão global como resultado dessa crise originária nos EUA. Ela pode ser evitada, se as ações certas forem tomadas. As condições econômicas, financeiras, sociais, culturais de outros países são muito diferentes das dos EUA ou da Grã-Bretanha.”
“Sei que a opinião dominante diz que, se os EUA caem, arrastam o mundo com eles. Também me impressiona e choca pensar no que essa crise centralizada nos EUA significa para um país como o México, que faz parte do Nafta, ou o Canadá. Mas a Europa não está no Nafta, nem a América Latina, ou a Rússia.”
A PERESTROIKA DE OBAMA
“Para um alemão que viu de perto as mudanças dos anos 1980, a queda do Muro de Berlim, como eu, Barack Obama se parece muito com Gorbachev. Ele fala em mudança, mas não é muito específico no conteúdo dessa mudança. Gorbachev falava em Perestroika, em mudança, mas também não era claro sobre o que queria dizer. Espero sinceramente que Obama não repita o caminho de Gorbachev, que não terminou bem, para dizer o mínimo.”
“Não creio que veremos grandes iniciativas por uma nova arquitetura financeira partirem do governo de Barack Obama. Porque os EUA estão muito enrolados com os problemas eu seu sistema financeiro, na sua economia real, não haverá muito tempo para eles pensarem numa nova ordem economia mundial. Pelo contrário, acredito que dos EUA partam atitudes de desestímulo, de bloqueio a tais iniciativas. Isso pode ser um problema, se os outros atores globais de um mundo mais multipolar tiverem clareza de sua própria agenda e, em vez de simplesmente esperar e reagir ao que vem de Washington, definirem uma plataforma para uma agenda comum para discutir com o governo norte-americano.”
“Ao mesmo tempo, espero ver inúmeras iniciativas dos EUA fora do eixo econômico, em questões de política externa, de segurança. Espero atitudes surpreendentes, que atraiam atenção para si e desviem os olhos do mundo do campo econômico. Não me surpreenderia se o presidente Barack Obama anunciasse, por exemplo, no aniversário dos 60 anos da primeira conferência da Otan, a redução unilateral do arsenal nuclear do país para mil ogivas. O mundo ficaria encantado, hipnotizado.”
UM NOVO PARADIGMA ECONÔMICO
“Para além de lidar com a crise imediata, é preciso tratar de produzir novos paradigmas econômicos, de um novo pensamento econômico. E esse novo paradigma tem de ser mais que uma simples negação mecânica do neoliberalismo, tem de abrir novas avenidas na teoria econômica, e nesse seminário temos visto muita food for thought. No desenho de uma nova arquitetura financeira mundial, as linhas básicas estão na Declaração de Modena.”
“‘Agora, cada pessoa responsável e pensante no setor financeiro deve ter percebido que o mercado financeiro internacional se tornou um monstro. Precisamos colocar um espelho na frente do mercado financeiro, ele que desgraçou a si mesmo. Ainda espero uma clara e audível mea culpa.’” Essas palavras são do presidente alemão, Horst Köhler, há uma ou duas semanas. Podemos até nos perguntar — que diabos esse homem está dizendo, se chefiava o FMI até há alguns anos? Mas o que quero deixar claro é que o paradigma mudou ao longo da crise. Ouvimos e vemos coisas inimagináveis seis ou doze meses atrás. E estou certo de que seguirá sendo assim.”
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