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Presidenta Dilma é a grande vencedora nas eleições municipais

Surpreendendo a todos que acreditaram no estereótipo de que ela seria pouco afeita às articulações políticas, Dilma movimentou-se com uma perícia equiparável à ação dos principais políticos brasileiros, um grupo historicamente restrito. Não só conseguiu evitar o descontentamento e a temida desagregação de sua base de apoio, como logrou contentar a quase todos, desferindo golpes fatais sobre a oposição. O artigo é de Ricardo Musse.

Ricardo Musse (*)

(*) Artigo publicado originalmente no blog São Paulo para tod@s

Perdoem-me meus amigos da revista Carta Capital, mas se há um grande vencedor nas eleições municipais de 2012 é a presidente Dilma Roussef.

Ela conseguiu se desvencilhar com desenvoltura da armadilha inerente a uma disputa local na qual os partidos da base quase inevitavelmente tendem a se confrontar com certa dose de virulência. Surpreendendo a todos que acreditaram no estereótipo (reforçado pelo seu marketing pessoal) de que ela seria pouco afeita às articulações políticas, Dilma movimentou-se com uma perícia equiparável à ação dos principais políticos brasileiros, um grupo historicamente restrito. Não só conseguiu evitar o descontentamento e a temida (e muitas vezes anunciada) desagregação de sua base de apoio, como logrou contentar a quase todos, desferindo golpes fatais sobre a oposição.

A avaliação das eleições municipais não pode deixar de considerar uma antítese que lhe é constitutiva, de antemão. Os eleitores decidem o voto em função de fatores e prioridades locais, mas, ao fazê-lo elegem partidos que são, por definição, nacionais. Grosso modo, podemos agrupar as forças em disputa em três grandes blocos: o de oposição (DEM, PSDB, PPS), o da assim chamada base aliada (PMDB, PSB, PDT, PRB, PP etc.), e o constituído pelo PT e seu aliado mais próximo, o PCdoB.

Os resultados também podem ser vistos como uma aferição das forças regionais que se organizam para a obtenção, no próximo pleito, dos governos estaduais, sobretudo os dados referentes às capitais e ao número total de prefeituras e votos conquistados em cada unidade da federação. Nas capitais, em geral, a disputa se polariza entre o grupo que detém o poder no município e o que controla o estado. Quando o mesmo grupo detém ambos, a polarização se dá com a oposição regional, que se capacitou para tanto pela eleição anterior ou que se fortalece para a próxima.

É a partir das interconexões entre esses dois planos que se torna possível avaliar em que medida os resultados eleitorais reforçam ou enfraquecem os projetos dos atores que se posicionam para a eleição presidencial de 2014.

Para demonstrar minha tese de que as eleições reforçaram o cacife de Dilma, vou ater-me aqui, ao resultado das dez capitais de maior população, que concentram uma fatia expressiva do eleitorado brasileiro e, por conseguinte, as ações dos políticos de expressão nacional.

O objetivo primordial da presidente foi construir alianças que possibilitassem uma distribuição não muito desigual, entre os partidos aliados, do comando das prefeituras das principais cidades. No desenho ensaiado no início do ano, o condomínio principal do poder seria assim distribuído: a cabeça de chapa no Rio de Janeiro ficaria com o PMDB, em São Paulo com o PT e em Belo Horizonte com o PSB. A ensaiada rebelião do PSB, insuflada por Aécio Naves, foi debelada por meio de um acordo tácito pelo qual Dilma e Lula se comprometeram a não participar das campanhas em Fortaleza e Recife, cidades nas quais o embate entre o PT e o PSB decidiria as eleições.

A resposta a Aécio se fez presente sob a forma da bem sucedida pacificação do PT mineiro, juntando as alas, até então adversárias, do ministro Fernando Pimentel e do ex-ministro Patrus Ananias. Embora Lacerda tenha sido vitorioso, o desempenho de Patrus, lançado na última hora, contra um candidato à reeleição com gestão bem avaliada (em parte graças a parcerias firmadas com programas do governo federal) e a vitória do PT em grandes cidades do estado, indicam que Dilma, no mínimo, tende a dividir o voto dos mineiros, colocando em dúvida o alegado trunfo de Aécio de que Minas se uniria em torno de sua candidatura a presidente.

O aviso ao PSB pode ser resumido mais ou menos assim: o partido de Eduardo Campos e Ciro Gomes pode contar com a neutralidade de Dilma e Lula nas disputas pelo poder local e estadual com o PT, desde que não esteja aliado ao PSDB. Além de Belo Horizonte, isso ficou claro em Curitiba, onde dois candidatos da base aliada, tiraram do segundo turno o atual prefeito do PSB. As dificuldades das chapas PSB-PSDB em Minas e no Paraná, foram um alerta ao PSB de que o papel que a mídia lhe imputa de ser o fiel da balança em 2014 pode resultar numa operação de alto risco.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, o governador Sergio Cabral e o PMDB devem parte de seu êxito a Dilma. Ela agraciou com um ministério, retirando-o da corrida eleitoral, o bispo Marcelo Crivella, do PRB, cuja candidatura provavelmente levaria a disputa ao segundo turno. Diga-se de passagem que a aliança PT-PMDB consolida-se ainda mais com o apoio recíproco nas grandes metrópoles – Rio, Belo Horizonte e São Paulo.

Dilma contentou também aliados de menor força eleitoral, como o PDT. Em Porto Alegre, o PT lançou, só para constar, um candidato desconhecido e absteve-se de impulsionar a candidata de seu mais fiel aliado, o PC do B, facilitando a reeleição em primeiro turno de José Fortunati, amigo pessoal da presidente. No mesmo movimento, reforçou-se a ala trabalhista comandada por Brizola Neto, diminuindo o poder de fogo dos dissidentes Cristovão Buarque e Miro Teixeira, e o do neodissidente Carlos Lupi.

Afora Goiânia, onde a CPMI sobre as atividades criminosas e políticas de Carlos Cachoeira minaram o poder do governador Marconi Perillo e a disputa foi resolvidas no primeiro turno com a reeleição do prefeito do PT, nas outras capitais de grande porte, Manaus, Salvador e São Paulo, a disputa em segundo turno se dará entre candidatos da base aliada e da oposição. Com um detalhe que pode ser decisivo: a soma dos votos dos candidatos alinhados ao Palácio do Planalto no primeiro turno forma uma maioria nunca menor que 60% dos votos.

Belém é um caso à parte. O candidato do governador, do PSDB, enfrentará no segundo turno um ex-petista, hoje no Psol. A necessidade de aglutinar apoio pode gerar um cenário inusitado no qual o candidato do Psol venha a contar com o apoio da presidente e do PT. Para Dilma seria uma oportunidade de granjear simpatias com a parcela do eleitorado que se decepcionou com seu apoio incisivo a Eduardo Paes contra Marcelo Freixo.

Por fim, Dilma se fortaleceu também com a ofensiva da mídia e do Poder Judiciário contra o PT, fato aliás recorrente em todas as eleições desde 1982, para não lembrar do banimento do PCB pelo STF, em 1947, mantido durante todo o período democrático anterior ao golpe de 1964. Se a pauta conjunta desses setores – hoje, incontestavelmente, os dois principais polos de aglutinação e intervenção das forças conservadoras e de oposição ao programa de mudanças instaurado desde o primeiro governo Lula – não derrotou o PT, não deixou de minar sua expansão. Na medida em que o PT não obtém a hegemonia eleitoral que lhe caberia por conta do êxito e reconhecimento público desse programa, o cenário torna-se ainda mais favorável para a candidata Dilma. Evitando o risco de ficar refém do Partido dos Trabalhadores, ela se posiciona como uma política cuja capacidade de transferir votos só é sobrepujada por Luis Inácio Lula da Silva, o mais popular dos líderes brasileiros.

(*) Ricardo Musse é professor do departamento de sociologia da USP.

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21043

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Os novos humanistas e a nova catequese

Políticos e governantes de extração mais humanista, presentes em partidos do campo da chamada esquerda, tais como PT, PCdoB, PSB e PSOL, vem pouco a pouco mudando o jeito de pensar e governar esse país. A prioridade hoje está, finalmente, centrada nas classes menos abastadas e favorecidas.

Lula Miranda

Uma nova “catequese” se faz necessária. É preciso ter “paciência jesuítica” e explicar, para assim deixar bem claro a todos os cidadãos brasileiros, um por um, do mais rico ao mais pobre, do mais letrado àquele que ainda dá os passos iniciais nas primeiras letras; que existem hoje, de forma cristalina e inequívoca, duas correntes distintas na política brasileira: os humanistas e os patrimonialistas. E essa velha nova catequese é missão para educadores, jornalistas, escritores, religiosos e de todos os homens e mulheres de bem desse país. Vamos a ela, pois.

Aqueles a que chamo aqui de “humanistas” são indivíduos, que, como indica o próprio conceito, priorizam, em seus pensamentos e ações, o ser humano – não o patrimônio ou o capital. São aqueles políticos e governantes cujos planos de governo são voltados para criar e pôr em prática políticas públicas voltadas, em primeiro lugar, para cuidar dos homens, das mulheres, das crianças e dos idosos mais carentes da sociedade. Políticas públicas na área da saúde, da educação, da habitação, da cultura – da seguridade, em síntese.

“Patrimonialistas”, como também já revela o próprio nome, são os que dão uma maior ênfase ao direito escritural (de posse) à propriedade em detrimento da fundamental função social desta. Os que mandam a polícia escorraçar, utilizando-se quase sempre de gratuita violência, sem-teto e sem-terra que ocupam propriedades em ruínas nos centros urbanos ou terras devolutas e improdutivas no campo – muitas delas abandonadas pelos seus proprietários ou a serviço da especulação imobiliária. “Patrimonialistas” foram responsáveis pela irreparável vergonha de “Pinheirinho”.

Os “patrimonialistas” são os políticos velhos – não exatamente na idade, mas no espírito. Velhos e velhacos. Caducos. Os coronéis (ou seus legítimos herdeiros), os inapropriadamente chamados “liberais”; aqueles que arruínam o patrimônio público em vez de edificá-lo e fortalecê-lo; aqueles que nos vendem a terceirização e a precarização do trabalho como a panaceia que irá curar todos os problemas do capitalismo ou de um (in)certo “custo Brasil”. São os mesmos das privatizações, da chamada “privataria”; aqueles que, ladinos, confundem o público com o privado; os que, “exemplarmente”, mandam prender o pobre miserável que rouba um frango ou um reles shampoo num supermercado, mas que na calada da noite encomendam habeas corpus e ordenam a soltura de banqueiros bandidos e dos filhos criminosos da elite.

Para os “humanistas” os gastos sociais são definidos como prioridade absoluta e são considerados “investimento” – e não propriamente “custo” ou “despesa”. Alguns princípios e conceitos da economia são então subvertidos e melhorados por essa nova maneira de ver e pensar o mundo. O abstrato conceito de FELICIDADE torna-se variável a ser mensurada, juntamente com o crescimento do PIB, como elemento indissociável na busca do desenvolvimento dos povos. Para os “humanistas”, existirá déficit da Previdência enquanto existirem idosos que não possuam a mínima renda necessária a uma sobrevivência digna.

Para estes, o retórico e estatístico “déficit habitacional” ganha concretude doída na desumana vergonha de se testemunhar, nas grandes cidades, homens, mulheres, crianças e idosos morando em favelas e no abandono das sarjetas.

É característico do ideário de determinados partidos políticos e governantes “humanistas”, por exemplo, políticas compensatórias de garantia de uma renda mínima ao cidadão; o acesso à Universidade franqueado aos chamados “filhos da pobreza”; os cartões de passe que integram ônibus, metrô e trem (do tipo “bilhete único” na cidade de São Paulo); escolas como os CEUS (também em SP) ou os antigos CIEPs (no RJ de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola); projetos na área da moradia popular; políticas inclusivas como as das cotas para negros e pobres etc. Já os “patrimonialistas” condenam, com indisfarçável veemência, aquilo que chamam de “bolsa-esmola”; são contrários às cotas; priorizam a construção de grandes obras viárias (grandes vias marginais, viadutos e pontes), shopping centers; preconizam o Estado-mínimo e um mercado autorregulador [baseado no ultrapassado conceito da “mão invisível”, do pensador clássico do liberalismo Adam Smith – portanto, do séc. XVIII].

O leitor certamente já fez a óbvia associação: os “humanistas” estão no campo da “esquerda”; já os “patrimonialistas” representam o campo da “direita”. Sei que até pode lhe parecer uma espécie de “pedagogia da obviedade”, que todo o mundo já sabe disso, “cousa e lousa”. Você se espantaria em saber que a maioria dos brasileiros ainda não tem plena consciência dessa suposta “obviedade” que trago aqui à baila; que existem jornalistas, historiadores e intelectuais que andam pregando por aí que “já não existe mais esse negócio de esquerda e direita”. Mas eu lhe asseguro: é de suma importância fazer essa separação e sedimentar/cristalizar esse entendimento na população em geral, essa distinção essencial entre “patrimonialistas” e “humanistas”. Aqueles que servem ao deus mercado (e aos seus próprios interesses) e aos que servem à vida, às pessoas; que buscam o bem-estar comum.

Políticos e governantes de extração mais humanista, presentes em partidos do campo da chamada esquerda, tais como PT, PCdoB, PSB e PSOL, vem pouco a pouco mudando o jeito de pensar e governar esse país. A prioridade hoje está, finalmente, centrada nas classes menos abastadas e favorecidas. Assim, lenta e gradualmente, vai-se diminuindo a enorme dívida social que este país tem para com os seus cidadãos.

É previdente, pois, que relembremos e que “ressignifiquemos” esses conceitos já tão desgastados pelo tempo e pelo mau uso, e corrompidos por ardilosos sofismas, por pregadores “malandros”.

Espalhe essa boa nova por aí! Temos todos uma missão a cumprir na construção de um novo Brasil: defender e difundir o ideário desses novos humanistas, realizar essa nova “catequese”. Não podemos retroceder à época dos políticos velhacos, dos coronéis – com sua “caridade” e chibata.

Lula Miranda é poeta e cronista. Foi um dos nomes da poesia marginal na Bahia na década de 1980. Publica artigos em veículos da chamada imprensa alternativa, tais como Carta Maior, Caros Amigos, Observatório da Imprensa, Fazendo Média e blogs de esquerda.

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=5809

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