Após implodir a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o vídeo expondo o lado machista e autoritário do enteado, Michelle Bolsonaro (PL) tem mostrado em publicações nas redes sociais que não deve retroceder em sua estratégia, que teve conhecimento do marido, Jair Bolsonaro (PL).
Na madrugada desta sexta-feira (26), após Flávio desencadear estratégia para tentar conter os danos dos ataques, Michelle publicou um versículo bíblico nos stories de seu Instagram em uma mensagem direta ao enteado e aos aliados dele.
“A falsa testemunha não ficará impune e o que profere mentiras perecerá”, diz o Salma 34:13, publicado pela ex-primeira-dama.

A mensagem é um recado direto para o enteado, que derreteu na intenção de votos do eleitorado evangélico diante das mentiras sobre a relação com Daniel Vorcaro. A análise foi feita pelo bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, em entrevista ao jornal O Globo antes da divulgação do vídeo de Michelle.
“Evangélico é intransigente com mentira. A pior coisa que tem é uma coisa ser dita e a realidade ser outra. Ele deveria ter falado sobre o assunto desde o início”, disse Rodovalho sobre Flávio na mesma entrevista em que defendeu Michelle como nome do clã à Presidência, dizendo que esperava falar sobre isso com Jair.
Reviravolta
A mensagem cifrada de Michelle na madrugada desta sexta-feira revela que não retrocedeu em sua estratégia após uma publicação errada de mensagem anterior, em que diz não ter “raiva de ninguém”.
“Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada. Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno”, escreveu Michelle.
A mensagem foi interpretada por aliados de Flávio Bolsonaro como uma espécie de “bandeira branca”, já que a madrasta terminou o texto com “fiquem em paz”.

No entanto, Michelle já havia antecipado que não deve ceder mesmo diante de um recuo do enteado.
A ex-primeira-dama teria como guarida o aval de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, que chegou a elogiar a “coragem” dela para expor a briga.
Michelle também teria avisado Bolsonaro sobre o vídeo. O marido teria ficado calado, em uma leitura de aliados dela de que houve consentimento do ex-presidente aos ataques ao próprio filho.
Um interlocutor próximo ao clã afirmou à coluna de Malu Gaspar, n’O Globo, que não seria possível dizer que Bolsonaro autorizou a iniciativa, mas que ele a compreendeu. “Ele está na Faixa de Gaza. Deixou ela desabafar”, disse esse aliado.
Vice mulher para conter danos
O episódio abriu uma crise familiar pública que acelerou, segundo aliados do senador, a decisão de anunciar uma mulher como candidata a vice-presidente em até três semanas, numa tentativa de conter a sangria eleitoral entre mulheres e evangélicos, dois segmentos onde os números de pesquisa já vinham em queda antes mesmo do vídeo.
No vídeo divulgado na noite de 24 de junho, Michelle Bolsonaro descreveu em detalhes o que classificou como uma humilhação imposta pelo enteado. Segundo ela, Flávio retornou uma ligação e foi “muito ríspido”, a “desrespeitou” e a “tratou mal ao telefone”, dizendo que ela “havia chegado ontem” na política e não entendia nada do assunto, sugerindo que ela deveria ficar fora das decisões partidárias. “Diante dessa humilhação, respondi que tudo bem”, afirmou Michelle, que descreveu a situação como uma “punhalada”.
A ex-primeira-dama não se limitou a relatar o episódio da ligação. Ela também acusou Flávio e aliados, incluindo o coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), de trabalharem para vetar três indicações femininas ao Senado que ela havia feito: a senadora Carol De Toni (PL-SC), a deputada Bia Kicis (PL-DF) e a prefeita Priscila Costa (PL-CE).
Segundo Michelle, o PL teria direito a 17 vagas femininas pela regra dos 30% nas candidaturas, e o bloqueio a essas três nomes revelaria, nas palavras dela, machismo e autoritarismo dentro da própria cúpula do partido.
Impacto na pré-campanha e no eleitorado
Antes mesmo do vídeo de Michelle, os números já sinalizavam deterioração. Levantamento da Nexus/BTG apontou que a rejeição a Flávio Bolsonaro subiu de 50% para 52% em um mês, com a resistência mais acentuada entre mulheres, segmento em que o senador registrava 56% de rejeição.
A pesquisa BTG/Nexus de 15 de junho mostrou que Lula ampliou a vantagem sobre Flávio de 1 para 9 pontos percentuais em apenas 20 dias: na medição de 25 de maio, Lula marcava 31% contra 30% do senador; vinte dias depois, o presidente foi a 35% enquanto Flávio caiu para 26%. Entre as mulheres, segundo a mesma pesquisa Nexus, Lula abria 20 pontos de vantagem, liderando por 49% a 29%.
O quadro entre os evangélicos era igualmente preocupante antes da crise familiar. A pesquisa Atlas Bloomberg, divulgada em 19 de maio, mostrou que o apoio de Flávio nesse eleitorado havia caído de 65,4% em março para 50,9% após a revelação do caso BolsoMaster, quando vieram a público áudios em que o senador cobrava do banqueiro Daniel Vorcaro parte dos US$ 24 milhões prometidos para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em março, Lula marcava 14% entre evangélicos; com o desgaste acumulado, chegou a 25%, segundo a Atlas Bloomberg.
O vídeo de Michelle foi elaborado justamente para atingir esses dois segmentos já fragilizados. A ex-primeira-dama tem forte penetração entre mulheres evangélicas e bolsonaristas, e sua fala sobre desrespeito e machismo reforçou uma narrativa que a pré-campanha de Flávio tinha dificuldade de rebater sem aprofundar o problema. O efeito combinado das duas crises, o caso Vorcaro e o embate familiar, colocou a candidatura diante de um desafio eleitoral sem resposta simples.
Texto: Plinio Teodoro
Fonte: Revista Fórum