Macaco, olha o teu rabo! – Um artigo de Paulo Nogueira Batista Jr.
Por Autor
O artigo do NY Times sobre supostos excessos alcoólicos do presidente Lula é de estarrecer. Baseia-se em fofocas. O que não é bem o caso quando esse assunto envolve o presidente dos EUA. Ou alguém esqueceu aquela vez em que Bush supostamente engasgou com um pretzel?
Desculpe, leitor, a vulgaridade do título. Mas temos que “keep up with the times” (ficar em sintonia com os tempos). No caso, com o New York Times. O celebrado jornal publicou, anteontem, extensa reportagem sobre supostos excessos alcoólicos do presidente da República do Brasil. A repercussão por aqui foi tremenda, como seria de esperar.
Bem. Sabemos que tudo está decaindo. Mas a reportagem do New York Times é de estarrecer. Baseia-se essencialmente em fofocas, boatos e piadinhas.
O autor é correspondente do jornal no Brasil. Vejamos os seus métodos. Alguns brasileiros começam a se perguntar se “a predileção do presidente Lula por bebidas fortes estaria afetando o seu desempenho no cargo”. Assim começa o texto.
Quem são esses brasileiros? “Líderes políticos e jornalistas”, segundo o correspondente. Que líderes? O único mencionado é Leonel Brizola. Os jornalistas citados como fontes pelo correspondente do jornal americano são Cláudio Humberto, profissional de reputação sabidamente ilibada, e um colunista da revista Veja, Diego Mainardi, uma espécie de sub-sub-Paulo Francis…
Outro argumento poderoso do correspondente: o presidente do Brasil passou anos de sua vida liderando sindicatos de trabalhadores, “um ambiente famoso pelo alto consumo de álcool”. E, para arrematar a perfídia, a comparação com Jânio Quadros, presidente muito chegado à bebida, que não terminou o seu mandato…
A matéria bem que poderia ser usada em faculdades de comunicação como exemplo de jornalismo vagabundo e – quem sabe? – politicamente motivado. Por outro lado, há um aspecto da questão que não pode ser esquecido. A reportagem do New York Times é uma excelente oportunidade para recorrer ao velho bordão: “Macaco, olha o teu rabo!”.
No caso do presidente Bush, não há especulação. Não é preciso apelar para rumores e intrigas. O próprio Bush, em encontro na Casa Branca com líderes religiosos, reconheceu o problema:
“You know, I had a drinking problem. Right now, I should be in a bar in Texas, not the Oval Office. There is only one reason that I am in the Oval Office and not in a bar: I found faith. I found God. I am here because of the power of prayer”.
(“Os senhores sabem, eu tive um problema de alcoolismo. Neste momento, deveria estar num bar no Texas, e não no Salão Oval. Só há uma razão para eu estar no Salão Oval e não num bar: encontrei a fé. Encontrei Deus. Estou aqui por causa do poder da oração”.)
Esses comentários foram transcritos em livro recente do escritor americano Norman Mailer (“Why are We at War?”, Random House, 2003), que os considera muito perigosos. Foi Kierkegaard, lembra Mailer, quem primeiro advertiu que nunca podemos saber aonde nossas orações vão parar e de onde as respostas virão – quando pensamos estar mais próximos de Deus, podemos estar ajudando o Diabo.
O pior é que, como dizem os americanos, “old habits die hard” (hábitos antigos custam a morrer). Há indicações de que o presidente dos EUA talvez não tenha superado inteiramente o seu problema. Em 2002, por exemplo, aconteceu o cômico episódio do desmaio presidencial. O mundo inteiro ficou sabendo. Bush estava em casa sozinho, assistindo um jogo de futebol americano na televisão e comendo pretzels (uma espécie de biscoito, normalmente salgado), acompanhado de seus dois cachorros. Um perfeito cenário de classe média americana. De repente, o presidente desmaia e vai ao solo!
Não houve como esconder o episódio, uma vez que a queda provocou forte contusão no seu rosto. A imprensa mundial precipitou-se em especulações. O presidente dos EUA teria tido uma recaída? Ah, mas o companheiro Bush é imbatível. Deu explicações que entraram para o anedotário político americano. Atribuiu o desmaio a não ter mastigado cuidadosamente os pretzels. “Portanto, ouçam suas mães”, recomendou, “nunca engulam um pretzel sem mastigar bem”.
Bush garantiu não ter ficado muito tempo desacordado. Como podia saber, se estava só? O presidente não teve dúvidas: “É que quando recobrei a consciência, os meus cachorros, Barney e Spot, estavam na mesma posição, apenas com uma expressão preocupada”.
Não pense, leitor, que estou aqui fazendo alguma caricatura. Essas foram as explicações, assim foram publicadas por todos os jornais e agências de notícias na ocasião. A verdade é que o atual presidente dos EUA é uma caricatura ambulante.
A imprensa brasileira bem que poderia fazer um levantamento, especulativo que fosse, sobre quantas o presidente americano havia entornado quando tomou a fatídica decisão de invadir o Iraque.
Para terminar, gostaria de declarar que o nosso presidente tem, sim, o direito de tomar umas e outras, de vez em quando, e de patrocinar os seus churrascos (também condenados na matéria do New York Times). A pressão do cargo é fenomenal. Além disso, Lula não é um cínico perfeito e acabado, tipo Fernando Collor ou Fernando Henrique Cardoso. Deve estar sofrendo, imagino, com as decisões que vem sendo levado a tomar. O ínfimo aumento do salário mínimo, por exemplo, deve ter saído a fórceps.
E, por último, nem sempre o álcool atrapalha tanto assim: Churchill era muito chegado à bebida, talvez tanto quanto Jânio Quadros.
Hitler, por outro lado, era, além de abstêmio, antitabagista e vegetariano.
Paulo Nogueira Batista Jr., economista e professor da FGV-EAESP, é autor do livro “A Economia como Ela É …” (Boitempo Editorial, 3ª edição, 2002). Escreve às terças-feiras na Agência Carta Maior(http://agenciacartamaior.uol.com.br). E-mail: pnbjr@attglobal.net
Artigo colhido no sítio www.cut.org.br
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Comentários
Por Mhais• 13 de maio de 2004• 14:25• Sem categoria
MACACO, OLHA O TEU RABO! – UM ARTIGO DE PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Macaco, olha o teu rabo! – Um artigo de Paulo Nogueira Batista Jr.
Por Autor
O artigo do NY Times sobre supostos excessos alcoólicos do presidente Lula é de estarrecer. Baseia-se em fofocas. O que não é bem o caso quando esse assunto envolve o presidente dos EUA. Ou alguém esqueceu aquela vez em que Bush supostamente engasgou com um pretzel?
Desculpe, leitor, a vulgaridade do título. Mas temos que “keep up with the times” (ficar em sintonia com os tempos). No caso, com o New York Times. O celebrado jornal publicou, anteontem, extensa reportagem sobre supostos excessos alcoólicos do presidente da República do Brasil. A repercussão por aqui foi tremenda, como seria de esperar.
Bem. Sabemos que tudo está decaindo. Mas a reportagem do New York Times é de estarrecer. Baseia-se essencialmente em fofocas, boatos e piadinhas.
O autor é correspondente do jornal no Brasil. Vejamos os seus métodos. Alguns brasileiros começam a se perguntar se “a predileção do presidente Lula por bebidas fortes estaria afetando o seu desempenho no cargo”. Assim começa o texto.
Quem são esses brasileiros? “Líderes políticos e jornalistas”, segundo o correspondente. Que líderes? O único mencionado é Leonel Brizola. Os jornalistas citados como fontes pelo correspondente do jornal americano são Cláudio Humberto, profissional de reputação sabidamente ilibada, e um colunista da revista Veja, Diego Mainardi, uma espécie de sub-sub-Paulo Francis…
Outro argumento poderoso do correspondente: o presidente do Brasil passou anos de sua vida liderando sindicatos de trabalhadores, “um ambiente famoso pelo alto consumo de álcool”. E, para arrematar a perfídia, a comparação com Jânio Quadros, presidente muito chegado à bebida, que não terminou o seu mandato…
A matéria bem que poderia ser usada em faculdades de comunicação como exemplo de jornalismo vagabundo e – quem sabe? – politicamente motivado. Por outro lado, há um aspecto da questão que não pode ser esquecido. A reportagem do New York Times é uma excelente oportunidade para recorrer ao velho bordão: “Macaco, olha o teu rabo!”.
No caso do presidente Bush, não há especulação. Não é preciso apelar para rumores e intrigas. O próprio Bush, em encontro na Casa Branca com líderes religiosos, reconheceu o problema:
“You know, I had a drinking problem. Right now, I should be in a bar in Texas, not the Oval Office. There is only one reason that I am in the Oval Office and not in a bar: I found faith. I found God. I am here because of the power of prayer”.
(“Os senhores sabem, eu tive um problema de alcoolismo. Neste momento, deveria estar num bar no Texas, e não no Salão Oval. Só há uma razão para eu estar no Salão Oval e não num bar: encontrei a fé. Encontrei Deus. Estou aqui por causa do poder da oração”.)
Esses comentários foram transcritos em livro recente do escritor americano Norman Mailer (“Why are We at War?”, Random House, 2003), que os considera muito perigosos. Foi Kierkegaard, lembra Mailer, quem primeiro advertiu que nunca podemos saber aonde nossas orações vão parar e de onde as respostas virão – quando pensamos estar mais próximos de Deus, podemos estar ajudando o Diabo.
O pior é que, como dizem os americanos, “old habits die hard” (hábitos antigos custam a morrer). Há indicações de que o presidente dos EUA talvez não tenha superado inteiramente o seu problema. Em 2002, por exemplo, aconteceu o cômico episódio do desmaio presidencial. O mundo inteiro ficou sabendo. Bush estava em casa sozinho, assistindo um jogo de futebol americano na televisão e comendo pretzels (uma espécie de biscoito, normalmente salgado), acompanhado de seus dois cachorros. Um perfeito cenário de classe média americana. De repente, o presidente desmaia e vai ao solo!
Não houve como esconder o episódio, uma vez que a queda provocou forte contusão no seu rosto. A imprensa mundial precipitou-se em especulações. O presidente dos EUA teria tido uma recaída? Ah, mas o companheiro Bush é imbatível. Deu explicações que entraram para o anedotário político americano. Atribuiu o desmaio a não ter mastigado cuidadosamente os pretzels. “Portanto, ouçam suas mães”, recomendou, “nunca engulam um pretzel sem mastigar bem”.
Bush garantiu não ter ficado muito tempo desacordado. Como podia saber, se estava só? O presidente não teve dúvidas: “É que quando recobrei a consciência, os meus cachorros, Barney e Spot, estavam na mesma posição, apenas com uma expressão preocupada”.
Não pense, leitor, que estou aqui fazendo alguma caricatura. Essas foram as explicações, assim foram publicadas por todos os jornais e agências de notícias na ocasião. A verdade é que o atual presidente dos EUA é uma caricatura ambulante.
A imprensa brasileira bem que poderia fazer um levantamento, especulativo que fosse, sobre quantas o presidente americano havia entornado quando tomou a fatídica decisão de invadir o Iraque.
Para terminar, gostaria de declarar que o nosso presidente tem, sim, o direito de tomar umas e outras, de vez em quando, e de patrocinar os seus churrascos (também condenados na matéria do New York Times). A pressão do cargo é fenomenal. Além disso, Lula não é um cínico perfeito e acabado, tipo Fernando Collor ou Fernando Henrique Cardoso. Deve estar sofrendo, imagino, com as decisões que vem sendo levado a tomar. O ínfimo aumento do salário mínimo, por exemplo, deve ter saído a fórceps.
E, por último, nem sempre o álcool atrapalha tanto assim: Churchill era muito chegado à bebida, talvez tanto quanto Jânio Quadros.
Hitler, por outro lado, era, além de abstêmio, antitabagista e vegetariano.
Paulo Nogueira Batista Jr., economista e professor da FGV-EAESP, é autor do livro “A Economia como Ela É …” (Boitempo Editorial, 3ª edição, 2002). Escreve às terças-feiras na Agência Carta Maior(http://agenciacartamaior.uol.com.br). E-mail: pnbjr@attglobal.net
Artigo colhido no sítio www.cut.org.br
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