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Por 14:05 Notícias

Morales atende à demanda histórica, diz Emir Sader

Sociólogo elogia decisão do presidente boliviano e critica a “direita brasileira” que, por meio da imprensa, “tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira”
“Um país que não tem o controle de seus recursos dificilmente vai poder definir seus destinos”. Essa é a avaliação do sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Emir Sader, sobre o decreto assinado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, dia 1º de maio, que nacionaliza a exploração das reservas de gás natural e petróleo do país. Em entrevista ao Brasil de Fato, o sociólogo critica a “direita brasileira” que, por meio da imprensa, “tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira”. Para Sader, a assinatura do decreto não só é uma vitória dos movimentos sociais do continente, como representa um fortalecimento da integração latino-americana.
Brasil de Fato – A Bolívia anunciou a nacionalização da exploração de gás e petróleo no país. Qual o significado da medida para os movimentos sociais bolivianos?
Emir Sader – A nacionalização dos recursos energéticos é uma reivindicação histórica dos movimentos sociais bolivianos e representa uma medida em defesa da soberania do povo boliviano. A nacionalização é importante para a discussão do tema enérgetico em escala mundial. É uma maneira de a Bolívia encontrar melhores condições de participar desse processo. Se tivesse propriedades privadas no setor de gás, não teria condições de ter uma participação soberana, com uma definição do seu povo a respeito do que fazer no processo de integração energética regional. Essa é uma dimensão muito importante no processo de integração regional.
BF – Há um contexto sul-americano favorável para a nacionalização dos recursos energéticos na Bolívia, visto que o presidente da Argentina reestatizou o serviço de água e o presidente da Venezuela Hugo Chávez também utiliza o sistema de empresas mistas?
Sader – Com certeza. O próprio Brasil está se orgulhando da sua auto-suficiencia em petróleo. Um país que não tem o controle de seus recursos dificilmente vai poder definir seus destinos. Não queremos a definição de um país, mas de continente como um todo. A nacionalização significa tirar esses recursos da mão de empresas como a Repsol também. A Petrobras vai ter que encontrar uma maneira (certamente encontrará), de colaboração, para que o Brasil participe da integração não somente por meio de projetos gerais, mas também na relação bilateral solidária, e mutuamente dependente do Brasil com a Bolivia e vice-versa.
Bf – Essa é uma medida em defesa da soberania boliviana, que atende os interesses das ruas e uma demanda histórica?
Sader – Duas reivindicações fundamentais que levaram à vitória de Evo Morales. A convocação da Assembléia Constituinte, com a refundação do Estado boliviano e a nacionalização dos recursos energéticos. Ele está fazendo as duas coisas , por isso tem um nível de popularidade altíssimo, que vai continuar crescendo. Essa é a vitória dos movimentos sociais bolivianos que não apenas criticaram e resistiram, mas construíram seu projeto partidário. O Movimento ao Socialismo (MAS) (partido de Morales) é um exemplo de movimentos sociais do continente.
BF -A imprensa brasileira está pedindo que o governo tome medidas drásticas contra a Bolívia. Como fica a situação do Brasil?
Sader – A direita brasileira, que domina a imprensa, há muito tempo está com essa história porque defende os interesses da globalização, da internacionalização. Ela está furiosa com o gasoduto. E junto com esse tema, tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira e um fracasso da política externa da Petrobras. Na verdade, a nacionalização dos recursos da Bolívia é um sucesso da política externa brasileira. A América Latina hoje precisa de mais integração. Essas debilidades da política externa brasileira são decorrentes de termos levado pouco adiante o Mercosul. Por exemplo, a Bolívia se integrar à Alternativa Boliviariana das Américas (Alba) é uma vitória extraordinária. E a colaboração que o Brasil pode dar a esse processo é por meio de medidas como o Parlamento do Mercosul, a Moeda Única do Mercosul, a ampliação da Comunidade Sul-Americana de Nações.
A tendência é muito favorável, e não só na América Latina. Em todo o mundo, há uma preocupação com os recursos energéticos. Imagine só o gasoduto. Ele vai trazer gás para as casas do nordeste e centro-oeste brasileiro. E isso com um recurso energético que custa a metade do que custa o petróleo. É um avanço importante no processo de integração.
BF – De que maneira essa medida pode afetar o Brasil e sua economia?
Sader – Pode haver problemas imediatos de abastecimento ou de preços. Nada muito significativo. O mais importante é que, para além dessa conjuntura, fica explicitado que somos interdependentes entre Bolívia, Venezuela e Brasil. A Venezuela precisa do mercado brasileiro, que precisa do gás da Bolívia.
BF – Como está o panorama da integração regional com a entrada da Bolívia na Alba, a saída da Venezuela da Comunidade Andina das Nações (CAN) e sua entrada no Mercosul?
Sader – São avanços importantes. Consolida um pólo com uma tendência anti-capitalista, que é a Alba. E isola, dentro do possível, os países andinos que fizeram tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Também é necessário incorporar urgentemente a Venezuela como um membro pleno, não só para fortalecer, mas para criar alternativas mais amplas para países como o Uruguai que estão sendo cobiçados por acordos com México e Estados Unidos. Também para que o Mercosul não seja esse “joguinho comercial” estreito entre corporações empresariais do Brasil e da Argentina, que ficam disputando mercado.
BF- Há espaço para um Mercosul mais social? É possível ampliar a pauta do bloco como o presidente da Venezuela está propondo?
Sader – A Alba está demonstrando que isso é possível. E o potencial econômico que o Brasil, a Venezuela e Argentina, que são as maiores potências econômicas da América Sul, têm poderíamos ter uma integração com uma dimensão enorme. Veja o intercâmbio de politicas sociais entre Venezuela e Cuba. Veja mesmo o que o Brasil propôs à Bolívia, levar o modelo do Sistema Único de Saúde (SUS), que é um bom modelo de saúde pública. É preciso ampliar a integração social porque ela vai possibilitar ampliar a dimensão do processo de integração.
BF -Existe margem de manobra dentro do Mercosul, diante dessa crise entre Argentina e Uruguai, a ameaça de Tabaré Vázquez de sair do Mercosul?
Sader – Enquanto houver uma relação empresarial e comercial entre Brasil e Argentina, vai ter altos e baixos. Assim, pode favorecer Paraguai e Uruguai ou não, mas temos que colocar na nossa cabeça que o processo de integração é um projeto político, e para isso é indispensável construir áreas num mundo multipolar. É indispensável a integração do continente em todos os sentidos da palavra. Só assim podemos criar novas áreas de jogo. No esquema atual, há um empurra-empurra de disputa de comércio entre Brasil e Argentina. A entrada da Venezuela já desmancha essa bipolaridade que tem sido negativa, e integra um país que tem vocação de integração continental evidente através da Telesul, Petrosul, Petrocaribe e outras iniciativas.
Fonte: Brasil de Fato

Por 14:05 Sem categoria

Morales atende à demanda histórica, diz Emir Sader

Sociólogo elogia decisão do presidente boliviano e critica a “direita brasileira” que, por meio da imprensa, “tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira”

“Um país que não tem o controle de seus recursos dificilmente vai poder definir seus destinos”. Essa é a avaliação do sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Emir Sader, sobre o decreto assinado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, dia 1º de maio, que nacionaliza a exploração das reservas de gás natural e petróleo do país. Em entrevista ao Brasil de Fato, o sociólogo critica a “direita brasileira” que, por meio da imprensa, “tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira”. Para Sader, a assinatura do decreto não só é uma vitória dos movimentos sociais do continente, como representa um fortalecimento da integração latino-americana.

Brasil de Fato – A Bolívia anunciou a nacionalização da exploração de gás e petróleo no país. Qual o significado da medida para os movimentos sociais bolivianos?
Emir Sader – A nacionalização dos recursos energéticos é uma reivindicação histórica dos movimentos sociais bolivianos e representa uma medida em defesa da soberania do povo boliviano. A nacionalização é importante para a discussão do tema enérgetico em escala mundial. É uma maneira de a Bolívia encontrar melhores condições de participar desse processo. Se tivesse propriedades privadas no setor de gás, não teria condições de ter uma participação soberana, com uma definição do seu povo a respeito do que fazer no processo de integração energética regional. Essa é uma dimensão muito importante no processo de integração regional.

BF – Há um contexto sul-americano favorável para a nacionalização dos recursos energéticos na Bolívia, visto que o presidente da Argentina reestatizou o serviço de água e o presidente da Venezuela Hugo Chávez também utiliza o sistema de empresas mistas?
Sader – Com certeza. O próprio Brasil está se orgulhando da sua auto-suficiencia em petróleo. Um país que não tem o controle de seus recursos dificilmente vai poder definir seus destinos. Não queremos a definição de um país, mas de continente como um todo. A nacionalização significa tirar esses recursos da mão de empresas como a Repsol também. A Petrobras vai ter que encontrar uma maneira (certamente encontrará), de colaboração, para que o Brasil participe da integração não somente por meio de projetos gerais, mas também na relação bilateral solidária, e mutuamente dependente do Brasil com a Bolivia e vice-versa.

Bf – Essa é uma medida em defesa da soberania boliviana, que atende os interesses das ruas e uma demanda histórica?
Sader – Duas reivindicações fundamentais que levaram à vitória de Evo Morales. A convocação da Assembléia Constituinte, com a refundação do Estado boliviano e a nacionalização dos recursos energéticos. Ele está fazendo as duas coisas , por isso tem um nível de popularidade altíssimo, que vai continuar crescendo. Essa é a vitória dos movimentos sociais bolivianos que não apenas criticaram e resistiram, mas construíram seu projeto partidário. O Movimento ao Socialismo (MAS) (partido de Morales) é um exemplo de movimentos sociais do continente.

BF -A imprensa brasileira está pedindo que o governo tome medidas drásticas contra a Bolívia. Como fica a situação do Brasil?
Sader – A direita brasileira, que domina a imprensa, há muito tempo está com essa história porque defende os interesses da globalização, da internacionalização. Ela está furiosa com o gasoduto. E junto com esse tema, tenta dizer que houve um fracasso da política externa brasileira e um fracasso da política externa da Petrobras. Na verdade, a nacionalização dos recursos da Bolívia é um sucesso da política externa brasileira. A América Latina hoje precisa de mais integração. Essas debilidades da política externa brasileira são decorrentes de termos levado pouco adiante o Mercosul. Por exemplo, a Bolívia se integrar à Alternativa Boliviariana das Américas (Alba) é uma vitória extraordinária. E a colaboração que o Brasil pode dar a esse processo é por meio de medidas como o Parlamento do Mercosul, a Moeda Única do Mercosul, a ampliação da Comunidade Sul-Americana de Nações.
A tendência é muito favorável, e não só na América Latina. Em todo o mundo, há uma preocupação com os recursos energéticos. Imagine só o gasoduto. Ele vai trazer gás para as casas do nordeste e centro-oeste brasileiro. E isso com um recurso energético que custa a metade do que custa o petróleo. É um avanço importante no processo de integração.

BF – De que maneira essa medida pode afetar o Brasil e sua economia?
Sader – Pode haver problemas imediatos de abastecimento ou de preços. Nada muito significativo. O mais importante é que, para além dessa conjuntura, fica explicitado que somos interdependentes entre Bolívia, Venezuela e Brasil. A Venezuela precisa do mercado brasileiro, que precisa do gás da Bolívia.

BF – Como está o panorama da integração regional com a entrada da Bolívia na Alba, a saída da Venezuela da Comunidade Andina das Nações (CAN) e sua entrada no Mercosul?
Sader – São avanços importantes. Consolida um pólo com uma tendência anti-capitalista, que é a Alba. E isola, dentro do possível, os países andinos que fizeram tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Também é necessário incorporar urgentemente a Venezuela como um membro pleno, não só para fortalecer, mas para criar alternativas mais amplas para países como o Uruguai que estão sendo cobiçados por acordos com México e Estados Unidos. Também para que o Mercosul não seja esse “joguinho comercial” estreito entre corporações empresariais do Brasil e da Argentina, que ficam disputando mercado.

BF- Há espaço para um Mercosul mais social? É possível ampliar a pauta do bloco como o presidente da Venezuela está propondo?
Sader – A Alba está demonstrando que isso é possível. E o potencial econômico que o Brasil, a Venezuela e Argentina, que são as maiores potências econômicas da América Sul, têm poderíamos ter uma integração com uma dimensão enorme. Veja o intercâmbio de politicas sociais entre Venezuela e Cuba. Veja mesmo o que o Brasil propôs à Bolívia, levar o modelo do Sistema Único de Saúde (SUS), que é um bom modelo de saúde pública. É preciso ampliar a integração social porque ela vai possibilitar ampliar a dimensão do processo de integração.

BF -Existe margem de manobra dentro do Mercosul, diante dessa crise entre Argentina e Uruguai, a ameaça de Tabaré Vázquez de sair do Mercosul?
Sader – Enquanto houver uma relação empresarial e comercial entre Brasil e Argentina, vai ter altos e baixos. Assim, pode favorecer Paraguai e Uruguai ou não, mas temos que colocar na nossa cabeça que o processo de integração é um projeto político, e para isso é indispensável construir áreas num mundo multipolar. É indispensável a integração do continente em todos os sentidos da palavra. Só assim podemos criar novas áreas de jogo. No esquema atual, há um empurra-empurra de disputa de comércio entre Brasil e Argentina. A entrada da Venezuela já desmancha essa bipolaridade que tem sido negativa, e integra um país que tem vocação de integração continental evidente através da Telesul, Petrosul, Petrocaribe e outras iniciativas.

Fonte: Brasil de Fato

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