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Por 20:52 Sem categoria

Apertem os cintos: o embate eleitoral começou

A campanha comecou, para valer. Os dois grandes competidores mostram suas armas, revelando cada campo sua forca e suas fraquezas. Ninguém ganhará na véspera, dado o arsenal de que dispõem cada campo.

Nem mesmo a situação econômica e social inquestionavelmente positiva bastará para eleger a candidata que diretamente representa esse quadro altamente positivo. Basta recordar como Lula, mesmo com grande apoio às políticas sociais do governo, teve que enfrentar um segundo turno contra Alckmin. E que a ampla vitória obtida no segundo turno foi o resultado, por um lado, das posições antineoliberais assumidas por Lula naquele momento – especialmente contra as privatizações de FHC -, assim como operações políticas que ajudaram claramente a reverter o quadro tendencialmente favorável a Alckimin (que crescia e poderia chegar a estar na frente numa primeira pesquisa para o segundo turno).

Por um lado, Lula conseguiu o apoio de Sergio Cabral, recém eleito governador do Rio, enquanto Alckmin dava o passo equivocado de conseguir a adesao de Garotinho. Esse duplo movimento mudou o quadro, que poderia ter, na primeira pesquisa do segundo turno, um empate técnico, pela projeção das tendências do final do primeiro turno.

Em resumo, é preciso fazer política, manter a iniciativa, fazer o jogo de esgrima cotidiano que uma campanha tão desigual em termos de poder de divulgação requer, se se quer derrotar esse monopólio privado da mídia.

Na eleição de 2006 a oposição tratou de nem discutir os programas do governo. É certo que buscava desqualificar as políticas sociais do governo, dizendo que o bolsa família era um programa “assistencialista”, que “comprava” pobres, que se fazia com que ficassem dependentes das “esmolas” do Estado. Não se opunha alternativas, buscava se deslocar a discussão para outro plano, como se faz agora.

O foco da ação opositora era as denúncias de “corrupção” do governo, de inchaço do Estado, de uso da máquina estatal com fins partidários. De tal forma que foi decisivo o uso da imagem do maço de notas no final do primeiro turno – em que o Jornal Nacional cometeu a brutalidade de não noticiar o maior acidente aéreo do Brasil, já noticiado pelo Jornal da Band antes, para dar destaque àquela imagem, que foi importante para conseguir a passagem para o segundo turno.

Foi, portanto, a combinação das realizações do governo mais as iniciativas políticas é que levaram à vitória de Lula no segundo turno.

Seria possível Dilma triunfar baseada nas realizações do governo? É possível, mas não seguro. Basta um exemplo: pesquisa do jornal Valor com grandes empresários demonstrou que a grande maioria deles está a favor das políticas do governo, mas essa mesma grande maioria diz que votará no Serra.

Por outro lado, está claro que a mídia está disposta a fazer de tudo, superando os limites de tudo o que fez até agora. Um dos limites que foi superado já é o da não divulgação de pesquisa que não lhes seja favorável. A FSP criticou na véspera os critérios de perguntas da pesquisa do Vox Populi, seus leitores estavam implicitamente informados de que havia uma pesquisa Vox Populi em andamento. Mas nem a FSP, nem O Globo, nem o Estado, deram o resultado da pesquisa. As pessoas não foram informadas que a diferença entre os outros dois tinha baixado de 8 pontos para 3. Não se transformou em um fato político. Não basta então haver pluralidade de pesquisas, será necessário construir canais alternativos de difusão, para paliar minimamente o fracasso da política de comunicação do governo.

Ficam claro os temas em que a oposição vai centrar sua campanha, que não será sobre o governo Lula, que eles têm que aceitar que é um governo de sucesso. Ficarao tentando dizer que o que tem de bom o governo teria vindo do governo FHC, mas os ataques se concentrarão na suposta falácia do PAC.

O centro mesmo serão os ataques à Dilma: seria autoritária, agressiva, descontrolada, incapaz de “controlar o PT”, nunca dirigiu um governo, foi “terrorista”, etc., etc. Para isso já tem usado os instrumentos mais torpes, seja a ficha falsa da Dilma, versões distorcidas de declarações (quantas vezes já se leu sobre “gafes” da Dilma e do Lula).

Não é Dilma que tem que envolver-se nas polêmicas. Ela tem que lidar sobretudo com a agenda positiva. Lula e os outros dirigentes políticos é que devem fazer a polêmica. E uma ágil e criativa coordenação de campanha que coordene efetivamente a campanha, com todas as contingências que ela venha a ter. Agil, porque se combaterá ao ritmo da internet e dos jornais diários. E criativa, porque se combate em brutal desigualdade de condições com os meios de que dispõem o bloco direitista.

A pauta da campanha deve ser a comparação dos dois governos, o que, por si só, revelará como Serra não será a continuidade do governo Lula, mas a retomada do programa do bloco tucano-demista. Mas, além disso, a campanha terá outros entreveros, com a oposição tentando descaracterizar essa comparação e buscando centrar a campanha na comparação de trajetórias, que na ótica bastarda da oposição, significa acusações pessoais a Dilma.

A nova campanha da Globo, com artistas cantando “O Brasil pode mais” – exatamente o slogan do Serra -, na comemoração dos seus 45 (numero dos tucanos) anos, dá uma idéia da fusão entre mídia privada e campanha eleitoral da direita. É obvio que, mesmo se tivesse sido produzida muito antes, passaram duas semanas entre o lançamento do slogan do Serra e a veiculação da propaganda, tempo suficiente para se darem conta da “coincidência”. Não será a única. Para derrotá-los é preciso dispor de uma direção dinâmica e aberta aos intercâmbios com todos que participam dela, de uma rede alternativa de difusão e de muita criatividade. O fundamental nós temos: um governo com realizações inquestionavelmente superior ao dos tucanos, em todos os quesitos, uma excelente candidata e uma plataforma de futuro enraizada no que já se está fazendo.

Por Emir Sader.

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Vade retro, Tucanás!

A fórmula tradicional do exorcismo se aplica a essa crendice grotesca de que “o que há de bom no governo Lula, o Serra vai continuar”, que vem sendo afirmada pelos marqueteiros do candidato do PSDB. Pois o que há de bom no governo Lula é tudo o que tucano detesta.

A fórmula tradicional do exorcismo se aplica a essa crendice grotesca de que “o que há de bom no governo Lula, o Serra vai continuar”.

Pois o que há de bom no governo Lula é o que tucano detesta: transferência de renda (imagine se fosse redistribuição!), política energética de longo prazo, diálogo ambiental, política social como definida como investimento e não como gasto público, ampliação do ensino superior, aumento real do salário mínimo (isso, então, dá urticária em tucano). E também política externa independente, é claro.

O ideal para o tucanato é algo como o governo Dutra de antigamente, que deixou o povão cinco anos sem um único reajuste sequer do salário mínimo. E que se alinhava com a “direita moderna” no plano internacional.

“Diz-me quem és, e te direi com quem vais andar”, diz uma adaptação adequada de outro tradicional ditado popular. Afinal, por exemplo, a oposição em peso votou contra a entrada da Venezuela no Mercosul, até mesmo contra a própria oposição venezuelana, cujo líder veio a Brasília implorar pela adesão. Já imaginaram um tucano da gema aplaudindo aproximação com Venezuela, Bolívia, Uruguai, Equador, etc.?

O sentimento tucanês é o de que existe um mundo “civilizado”, para o qual o Brasil deve voltar completamente o rosto e tudo o mais. Esse mundo “civilizado”, exemplar, é a parte “civilizada” da Europa, dos Estados Unidos e, quando muito, do Japão. Ideal político tucânico privilegia o que os diplomatas enunciam como o “circuito Elizabeth Arden”, formado por Londres, Paris, Roma e Washington. O resto? Imagine! África? Nem pensar. América Latina? Coisa de bugre! Ou então de caudilho hispano-hablante. Claro, para esse mundo tucanopensante, já há ou houve alguns indícios de civilização neste terceiro mundo, como nos bairros periféricos de Johannesburgo, habitados pelos herdeiros ou descendentes do apartheid, ou gente como Piñera, no Chile, Vargas Llosa no Peru, Uribe na Colômbia, Vicente Foz no México, e assim por diante.

O problema é conceitual e é bem antigo, mas agora se agravou. É claro que para esse mundo o problema central se deu no momento em que o presidente Geisel colocou Azeredo da Silveira nas Relações Exieriores, provocando a ascensão dos então chamados “barbudinhos” no Itamaraty. Havia de tudo entre os “barbudinhos”, até os que não usavam barba, mas eles eram, sobretudo, de uma geração diferente da que se alinhava automaticamente com a direita mundial nos tempos da Guerra Fria. Houve quem se alinhasse mais com a política de Sarney, ou de Fernando Henrique, e tinham todo o direito de faze-lo, assim como houve quem preferisse as inflexões que vieram à tona com o governo Lula, e também tinham todo o direito de faze-lo.

Acontece que o que era para ser uma inflexão tornou-se um estilo com vida própria, e fez o Brasil dar um salto no plano internacional. Como a imprensa mundial não liga muito para o que dizem os jornais reacionários do Brasil, para a maior parte da mídia internacional o Brasil é um sucesso social, econômico e político (e ela não poupa crítica a nossos problemas), sem falar no cultural.

Isso o espírito tucaneiro, contido em seu vulcão adormecido, não pode nem consegue engolir nem perdoar. Por isso, se o tucanês voltar a ser a linguagem do Planalto, a emenda vai ser pior do que o remendo. O governo Fernando Henrique vai parecer uma flor de independência, diante do que viria por aí, tal é a sanha de se “corrigir” os rumos do “populismo bonapartista” de Lula no exterior. E no interior do país também.

Por Flávio Aguiar, que é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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