Os ricos, à base da astúcia, da força e da injustiça, ainda detêm poder político a lhes assegurar vantagens. Aos pobres, resta a resistência
Por: Mauro Santayana – Publicado em 13/11/2012
Para quem acompanha a história brasileira contemporânea, as eleições municipais não surpreenderam. Não se registraram hegemonias, mas uma nova geração de políticos emergindo, entre os quais Fernando Haddad, em São Paulo, Gustavo Fruet, em Curitiba, Antonio Carlos Magalhães Neto, em Salvador. Registrando-se o nítido crescimento do PT, é de se notar, ainda, que os outros dois grandes vencedores do pleito – pelos candidatos que patrocinaram –, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador Eduardo Campos (PSB-PE), são também homens jovens, líderes em seus estados, e potenciais candidatos à Presidência.
Cabe a essa geração devolver aos cidadãos o respeito pela atividade política, perdido nos anos de arbítrio, nos atribulados decênios de retorno ao poder civil, dentro das dificuldades normais de um Estado democrático de direito, e na vergonhosa entrega do patrimônio nacional aos estrangeiros por Fernando Henrique.
A política existe para administrar os conflitos, não para provocá-los. É certo que a paixão pelas ideias e a ambição do mando são inerentes aos homens. O conflito básico se dá, como se constata ao longo da História, entre os ricos e os pobres. Os ricos, além dos bens materiais, normalmente detêm o poder político, que lhes assegura a situação de vantagem. Aos pobres, nessa divisão imposta pela astúcia, pela força e pela injustiça, resta a resistência. O jogo da política se faz nesse confronto dialético, que se disfarça em programas partidários e na retórica parlamentar. No Brasil as coisas não são diferentes.
Há, no entanto, que se considerar a situação internacional. O Brasil, desde o descobrimento, é cobiçado pelas potências internacionais. Foi assim que as grandes nações europeias do seu tempo, como franceses e holandeses, quiseram deslocar os portugueses. Depois, com mais astúcia, os ingleses passaram a controlar nossa economia, sem os desgastes de uma ocupação militar. Com o Tratado de Methuen, assinado com Portugal em 1703, a Inglaterra habilmente se assenhoreou do mercado das colônias portuguesas. Nem a Independência brasileira tocou no fundamental. Mediante os empréstimos e as concessões, continuamos a ser uma colônia inglesa. O declínio da Inglaterra e a ascensão dos Estados Unidos provocaram a segunda troca de dominadores. É necessário livrar-se desse domínio e, ao mesmo tempo, impedir que a China venha a revezá-los.
A tarefa dessa nova geração é manter e aperfeiçoar o sistema democrático, realizar, com o ímpeto de sua vitória, as reformas políticas que a nação exige, de forma a reestruturar (ou, mesmo, refundar) a República, com a real independência e equilíbrio entre os três poderes; restaurar a prevalência do Estado e ampliar a soberania nacional, por meio da solidariedade interna; dedicar-se com prioridade à educação, à ciência e à tecnologia; retomar o controle dos setores estratégicos da economia; e construir forças militares suficientemente poderosas. Só assim estaremos preparados para dissuadir qualquer intervenção estrangeira, aberta ou dissimulada.
Para cumprir todo esse programa necessário, os novos dirigentes terão de reanimar a juventude e assegurar a credibilidade no processo político. Mesmo que seja impossível a absoluta limpeza ética na administração pública, os líderes deverão agir de forma radical contra os peculatários, os corruptores e os corruptos.
O governo Dilma deu o grande passo na racionalização da economia, ao colocar os bancos em seu devido lugar, mediante a redução dos juros e o alinhamento das instituições financeiras públicas aos projetos nacionais de desenvolvimento. Resta fechar a evasão tributária pela via dos paraísos fiscais. Manter esse programa, como determinação de Estado, é o que convém ao Brasil e aos novos líderes, que, pelo que se pode prever, estarão no centro e na esquerda do espectro político. Se o povo quiser, a direita estará condenada a demorado exílio histórico.
Artigo colhido no sítio http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/77/as-eleicoes-e-a-esquerda/view
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Força e fraqueza do partido da mídia
Muito tempo depois que a mídia alternativa já havia caracterizado a velha mídia como o partido da direita e a executiva da Folha confessasse que eles assumiam esse papel pela fraqueza dos partidos da oposição, o campo politico foi ficando cada vez mais configurado esse papel de partido político. Qualquer conjuntura política só pode ser compreendida levando em conta esse papel.
Que vantagens e que desvantagens tem um partido-mídia? Valendo-se da brutal concentração monopolista da mídia brasileira, que articula jornais, revistas, rádios, TV abertas e a cabo, além de páginas de internet, possui um poder de definir as agendas centrais do país e suas interpretações.
No período político atual, a questão central para o partido-mídia é a desqualificação do Estado, de sua capacidade reguladora, indutora do crescimento e dos seus correlatos – partidos, política, parlamentos, com a apologia – implícita ou explícita – do mercado, como alocador de recursos.
Essa foi a tese central do neoliberalismo, na qual se apoiou a direita para reatualizar-se, modernizar-se, conquistar espaços e forças políticas e ideológicas nas décadas passadas. Foi essa tese que promoveu a ascensão das lideranças de Reagan, Thatcher, Felipe Gonzalez, Mitterrand, Menem, FHC, entre outros, derrotando a esquerda no debate, no momento do fim da URSS e da passagem de um mundo bipolar a um mundo unipolar.
A desqualificação da economia planificada e centralizada, do socialismo, das organizações populares, da ideia de que as soluções para os problemas das sociedades não vem de alternativas coletivas, mas da concorrência individual, de uns contra outros, no mercado – foram corolários dessa visão de mundo, centrada no consumir e não no cidadão, na mercantilização e não nos direitos.
A opção do tema da corrupção vai exatamente nessa direção: denunciar, ao mesmo tempo, o Estado, os governos, os políticos, os partidos, a esquerda, as lideranças populares, a prioridade das políticas sociais. E, automaticamente, anistiar ou exaltar o mercado, as empresas, os empresários, os consumidores.
A vantagem do partido-mídia é poder falar todo o tempo, todos os dias, várias vezes ao dia, por escrito, oralmente e pelas imagens. Ocupa todos os espaços que pode. Os jornais tem tiragens cada vez menores, mas dão a pauta para os outros órgãos – rádios, tvs, multiplicando sua audiência.
Porem, os efeitos imediatos são ilusórios. Se conseguem acionar o imaginário de uma certa camada da população, esta é cada vez menor, de idade cada vez maior, de extração cada vez menos popular. Tanto assim que conseguem pífios resultados eleitorais. Conseguem queimar as imagens dos políticos em geral – não sendo poupados nem os que o partido-mídia apoia -, mas não conseguem traduzir isso em votos.
Políticos petistas, por exemplo, podem ser afetados, mas o Lula e a Dilma – que personificam governos que deram certo, que aparecem para a população como os responsáveis pelas transformações positivas que o Brasil vive, não são tocados por essas campanhas – como as pesquisas da semana passada revelaram.
Essa a principal limitação do partido-mídia, a ponto que a Globo, que tem sua principal base de operações no Rio – com jornais, revistas, rádios, TVs aberta e a cabo, internet – há tempos que não consegue eleger nem prefeito da cidade, nem governador do Estado, nem sequer senadores.
O partido-mídia tem assim capacidade de provocar desgastes políticos, mas não pode se tornar partido politico com capacidade de organizar bloco de forças hegemônicas, de conquistar capacidade de disputar governo. Daí a decepção que provoca nos seus promotores as intensas campanhas que desenvolvem, que aumentam a “indignação” nos que já são adeptos das suas teses, sem conquistar novas adesões.
É o que aconteceu com a recente campanha contra o Lula e a Dilma. Depois de intensas denúncias, fizeram pesquisas – Ibope e Datafolha -, confiantes que poderiam colher resultados que demonstrassem sua capacidade de convencer a opinião pública.
Os resultados foram decepcionantes para eles. Os políticos continuam com sua imagem deteriorada, mas todos os políticos, não apenas os denunciados. Porém, Lula e Dilma se situam acima de tudo isso, como os únicos grandes líderes políticos do país, favoritos destacados para ganhar as próximas eleições.
Artigo colhido no sítio http://www.fpa.org.br/artigos-e-boletins/artigos/forca-e-fraqueza-do-partido-da-midia
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Nota de conjuntura X
O recente resultado das eleições municipais demonstrou que o PT se tornou uma competente máquina eleitoral, mas necessita fortalecer sua intervenção na disputa política mais geral. A estratégia dos setores democráticos e populares deve também considerar a importância da organização e mobilização social em busca de transformações mais profundas de acordo com o programa partidário
A conjuntura internacional em novembro teve como principais fatos a reeleição do presidente Barack Obama, nos EUA, a crise europeia e seus novos desdobramentos, o ataque israelense à Faixa de Gaza, a realização do 18º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), o início das negociações da 18ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP 18) e a situação pré-eleitoral em alguns países latino-americanos.
Obama foi reeleito presidente dos EUA por pequena margem de votos sobre seu oponente do Partido Republicano, Mitt Romney, conforme previam as pesquisas eleitorais. Tendo em vista a atual situação econômica americana, o impasse no controle do Congresso e a provável saída do governo de, pelo menos, dois importantes secretários de seu primeiro mandato, Hillary Clinton, do Departamento de Estado, e Timothy Geithner, do Departamento do Tesouro, as conjecturas dos analistas repousam sobre as perspectivas para seu segundo governo em nível nacional, bem como internacional, particularmente em relação à América Latina. De modo geral, entretanto, as avaliações apontam para a manutenção da política implementada nos últimos quatro anos, o que para o Brasil e outros países em desenvolvimento não é promissor, considerando-se as sucessivas “enxurradas” de dólares no mercado financeiro internacional pelo Banco Central americano, a política agressiva dos EUA no Oriente Médio e o apoio a dois golpes de Estado na América Latina, Honduras e Paraguai.
Na Europa a crise está mais aguda com o crescimento do desemprego, que em países como Grécia e Espanha alcançou média de 25% e o dobro disso entre os jovens. Os desdobramentos políticos são uma combinação do fortalecimento de tendências separatistas em determinadas regiões, como o País Basco e a Catalunha na Espanha, com o desencanto dos jovens com a política e suas instituições, além do crescimento da extrema direita em países como a Grécia. No entanto, o movimento sindical realizou uma greve geral supranacional, convocada pela Confederação Europeia de Sindicatos (CES), contra as políticas de austeridade, com paralisações simultâneas na Grécia, Espanha, Portugal e Itália, acompanhadas de manifestações de apoio em outros países.
O ataque israelense a Gaza ocorreu mais uma vez com o objetivo de fortalecer o governo da situação, desta vez formado pela coalizão liderada pelo partido Likud, de direita, em preparação para as eleições parlamentares em janeiro, e tornou o ambiente na região ainda mais tenso, tendo em vista o atual conflito interno na Síria, as sanções aplicadas ao Irã e as ameaças de ataque de Israel a este país, bem como os desdobramentos da chamada Primavera Árabe em países como o Egito, onde os fundamentalistas islâmicos acumulam cada vez mais força. Alguns alentos, porém, vêm da decisão da Assembleia-Geral da ONU, que elevou a Palestina ao status de Estado observador, da realização do Fórum Social Palestina Livre em Porto Alegre e da aproximação política entre o Hamas, que hoje controla a Faixa de Gaza, e o Fatah, que preside a Autoridade Palestina e governa os territórios palestinos na Cisjordânia. Todavia, a possibilidade de retomada séria das negociações de paz entre israelenses e palestinos nesse quadro ainda está distante.
O Partido Comunista da China concluiu seu 18º Congresso, com a participação de 2.268 delegados e a preocupação central de aprovar resoluções que reduzam a brecha entre os chineses mais ricos e os mais pobres, bem como entre os que vivem no campo e os que vivem na cidade. Algumas dessas resoluções poderão provocar conflitos internos, em razão da previsão de algumas regulações do setor privado na China. No entanto, um possível aumento da demanda interna de consumo no país poderá beneficiar as exportações brasileiras. No Congresso, foi eleito o novo secretário-geral do PCC, Xi Jinping, que também ocupará a Presidência da China a partir de março de 2013, em substituição a Hu Jintao. O próximo primeiro-ministro em substituição ao atual, Wen Jiabao, será Li Keqiang.
A COP 18, iniciada em 26 de novembro com conclusão de trabalhos em 7 de dezembro, não apresentou perspectivas de avanços nas negociações de um acordo climático, tendo em vista a complexidade do tema diante do agravamento da crise na Europa e dos processos políticos recentes nos EUA e na China, três atores importantes da conferência. Além disso, a escolha de Doha, capital de um importante produtor de petróleo como o Qatar, já era de antemão um indicador da falta de ambição em relação a acordos para conter emissões de CO₂. A COP 19 se realizará na Polônia em 2013.
Em alguns países na América Latina, como Paraguai, El Salvador e Chile, iniciaram-se os processos preparatórios para as eleições presidenciais em 2013. É preocupante, porém, a desunião da esquerda que se verifica nesses países em relação à escolha dos candidatos, que no caso paraguaio já provocou a divisão da Frente Guasú, com apresentação de duas candidaturas presidenciais. É importante que o PT e o Foro de São Paulo tentem contribuir para ampliar a unidade das forças progressistas no continente.
No Brasil, devemos considerar, principalmente, os aspectos econômicos e políticos da conjuntura. Em relação à economia houve várias medidas relevantes adotadas pelo governo nos últimos meses, como desoneração da folha de pagamentos, isenções fiscais temporárias, redução da taxa de juros, melhoria do câmbio, entre outras, para estimular a retomada do crescimento. No entanto, mesmo com o aumento do crescimento do PIB no quarto trimestre, dificilmente este atingirá 4% neste ano, conforme esperado. Há vários fatores possíveis para isso, como a retração econômica nos países desenvolvidos em crise, que não só extrapolou a previsão como se estendeu a outras regiões. No aspecto interno, percebe-se que apesar da queda dos juros no país, não houve o crescimento esperado do crédito. Os bancos públicos se saíram bem na disputa com o setor financeiro privado para provocar a queda do spread, mas esta não foi suficiente diante do poder do oligopólio financeiro, em que apenas quatro bancos privados hegemonizam o mercado. A mobilização pela queda do custo do crédito, portanto, deveria prosseguir.
Aguarda-se o resultado da proposta governamental de redução das tarifas de energia elétrica e seu impacto sobre a indústria. No entanto, já se verifica a existência de centenas de emendas parlamentares às medidas legislativas que essa redução demanda e uma resistência grande por parte das próprias empresas produtoras ou distribuidoras de eletricidade.
Um problema concreto que já assinalamos em notas anteriores diz respeito à necessidade de ampliar a taxa de investimentos no Brasil, mas verifica-se pouca disposição do setor privado em contribuir nesse sentido. Algumas hipóteses para isso incluem desde uma possível recusa de setores empresariais em cooperar com o governo do PT até a possibilidade de estar ocorrendo uma readequação do setor privado às novas taxas de remuneração do investimento, pois com a queda dos juros o espaço para o tradicional “rentismo” de fato se reduziu, e às novas regras de concessões, entre outras, o que aumentaria a precaução diante da nova conjuntura.
Além disso, há o “gargalo” das regras herdadas do passado que norteiam o investimento público em obras de infraestrutura, como licitação, controle, pagamentos, entre outras, que provocam sérios atrasos na execução de projetos e problemas de gestão em importantes órgãos públicos, entre os quais DNIT e Valec.
Por sua vez, os meios de comunicação dominantes, em sua permanente campanha de oposição ao PT e ao governo, vaticinam sempre o pior cenário na economia, com previsões de baixo crescimento e aumento do “estatismo”. Neste aspecto, por exemplo, apresentam as mudanças nas concessões do setor elétrico como uma reestatização das empresas, omitindo que as atuais tarifas de energia elétrica no Brasil se situam muito acima do preço médio mundial por quilowatt-hora desde que o processo de privatização do setor se iniciou, na década de 1990.
É importante que os ministros de governo, parlamentares do PT e dirigentes partidários assumam o debate sobre a economia com a sociedade, inclusive com os articulistas da mídia, pois as mudanças de que necessitamos no campo econômico são estruturais, como a questão tributária, por exemplo. Além desse fator, há outros que são relevantes para os problemas de produtividade, como o câmbio, a oligopolização de preços, a falta de investimentos em qualificação profissional, entre outros.
A grande imprensa, porém, aventa apenas a liberalização da economia e agora fala cada vez mais em “desregulação” da legislação trabalhista, encontrando ressonância inclusive em algumas instâncias governamentais na discussão da competitividade, tendo em vista que, no atual ambiente de taxa de desemprego menor, os salários tendem a subir. No entanto, o custo do trabalho no Brasil, apesar dos avanços na formalização e contratação do trabalho, ainda é muito baixo em termos internacionais.
Na área política, registramos que os trabalhos da Comissão Nacional da Memória e Verdade, bem como algumas decisões judiciais contrárias à violação dos direitos humanos durante a ditadura militar, têm produzido efeitos importantes, como o maior engajamento da opinião pública e mais de oitenta ações do Ministério Público sobre os casos de sequestros e desaparecimentos, que esperamos contribuam para uma redefinição dos termos da anistia política.
O recente resultado das eleições municipais demonstrou que o PT se tornou uma competente máquina eleitoral, mas necessita fortalecer sua intervenção na disputa política mais geral. Sucessivamente derrotada no enfrentamento no campo político partidário, eleitoral e parlamentar, a estratégia da direita está se deslocando para o campo judicial, em conluio com os meios de comunicação que, cada vez mais, assumem papel de oposição política. O STF, por sua vez, também tenta assumir cada vez mais a condução da política, como demonstraram suas posições em relação à anistia política, à “ficha limpa”, e agora no julgamento da Ação Penal 470, eivado de irregularidades jurídicas para atingir importantes personalidades políticas do PT, como bem denunciou a recente nota da Executiva Nacional do partido.
O atual episódio das investigações da Polícia Federal envolvendo a AGU e o escritório da Presidência da República em São Paulo certamente foi iniciado para fornecer mais elementos para fortalecer essa linha de judicialização da política. A iniciativa do procurador-geral da República de ampliar o número de indicados pelo Ministério Público Federal para oito dos catorze integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público também visa fortalecer sua posição, pela maioria absoluta de votos, para evitar questionamentos a seu desempenho, uma vez que sua atuação tem se dado de acordo com esquema montado pelas forças conservadoras.
A resposta tem de ser igualmente política e passa por uma agenda de mudanças estruturais, como a reforma política, particularmente, o financiamento público de campanhas eleitorais e a democratização dos meios de comunicação.
A popularidade do governo está em alta, pois, apesar dos obstáculos econômicos mencionados, o desemprego diminuiu ao longo dos últimos anos. Contudo, por mais relevante que seja essa redução, não pode ser a única “âncora” para o sucesso do governo e do partido perante a população.
A estratégia dos setores democráticos e populares deve também considerar a importância da organização e mobilização social em busca de transformações mais profundas de acordo com o programa partidário. Em pouco tempo a disputa eleitoral estará posta novamente e, além dos temas já mencionados, há outras questões muito sérias que exigem nossa intervenção, como o crescimento da insegurança e do crime organizado.
É fundamental buscar sempre a melhor sinergia possível entre as posições do PT e as iniciativas governamentais para que se possa avançar durante o governo Dilma além das conquistas dos dois mandatos de seu antecessor. A inauguração dos mandatos municipais no início de janeiro também representa uma oportunidade para aprofundar o programa partidário e as experiências de boa governança que o PT acumulou ao longo dos anos.
*Grupo de Conjuntura da Fundação Perseu Abramo é composto por economistas, cientistas políticos e dirigentes partidários e lideranças dos movimentos sociais, convidados pela diretoria da FPA periodicamente para discutir acontecimentos nacionais e internacionais e suas consequências na situação política, econômica e social do país. Esse texto é uma síntese de reunião realizada em 26 de novembro
Artigo colhido no sítio http://www.fpa.org.br/artigos-e-boletins/artigos/nota-de-conjuntura-x
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Para entender o xadrez da política
Vamos entender o xadrez político atual.
Há um jogo em que o objetivo maior é capturar o rei – a Presidência da República. O ponto central da estratégia consiste em destruir a principal peça do xadrez adversário: o mito Lula.
Na fase inicial – quando explodiu o “mensalão” – havia um arco restrito e confuso, formado pela velha mídia e pelo PSDB e uma estratégia difusa, que consistia em “sangrar” o adversário e aguardar os resultados nas eleições presidenciais seguintes.
A tática falhou em 2006 e 2010, apesar da ficha falsa de Dilma, do consultor respeitado que havia acabado de sair da cadeia, dos 200 mil dólares em um envelope gigante entrando no Palácio do Planalto, das FARCs invadindo o Brasil e todo aquele arsenal utilizado nas duas eleições.
A partir da saída de Lula da presidência, tentou-se uma segunda tática: a de construir um mito anti-Lula. À falta de candidatos, apostou-se em Dilma Rousseff, com seu perfil de classe média intelectualizada, preocupações de gestora, discrição etc. Imaginava-se que caísse no canto de sereia em que se jogaram tantas criaturas contra o criador.
Não colou. Dilma é dotada de uma lealdade pessoal acima de qualquer tentação.
O “republicanismo”
Mas as campanhas sistemáticas de denúncias acabaram sendo bem sucedidas por linhas tortas. Primeiro, ao moldar uma opinião pública midiática ferozmente anti-Lula.
Depois, por ter incutido no governo um senso de republicanismo que o fez abrir mão até de instrumentos legítimos de autodefesa. Descuidou-se na nomeação de Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), abriu-se mão da indicação do Procurador Geral da República (PGR) e descentralizaram-se as ações da Polícia Federal.
Qualquer ação contra o governo passou a ser interpretada como sinal de republicanismo; qualquer ação contra a oposição, sinal de aparelhamento do Estado.
Caindo nesse canto de sereia, o governo permitiu o desenvolvimento de três novos protagonistas no jogo de “captura o rei”.
STF
Gradativamente, formou-se uma bancada pró-crise institucional, composta por Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, e Luiz Fux, à qual aderiram Celso de Mello e Marco Aurélio de Mello. Há um Ministro que milita do lado do PT, José Antonio Toffolli. E três legalistas: Lewandowski, Carmen Lucia e Rosa Weber.
O capítulo mais importante, nesse trabalho pró-crise, é o da criação de um confronto com o Congresso, que não terá resultados imediatos mas ajudará a alimentar a escandalização e o processo reiterado de deslegitimação da política.
Para o lugar de César Peluso, apostou-se em um ministro legalista, Teori Zavascki. Na sabatina no Senado, Teori defendeu que a prerrogativa de cassar parlamentares era do Parlamento. Ontem, eximiu-se de votar. Não se tratava de matéria ligada ao “mensalão”, mas de um tema constitucional. Mesmo assim, não quis entrar na fogueira.
Procuradoria Geral da República (PGR)
Há claramente um movimento de alimentar a mídia com vazamentos de inquéritos. O último foi esse do Marcos Valério ao Ministério Público Federal.
Sem direito à delação premiada, não haveria nenhum interesse de vazamento da parte de Valério e seu advogado. Todos os sinais apontam para a PGR. Nem a PGR nem Ministros do STF haviam aceitado o depoimento, por não verem valor nele. No entanto, permitiu-se o vazamento para posterior escandalização pela mídia.
Gurgel é o mais político dos Procuradores Gerais da história recente do país. A maneira como conquistou o apoio de Demóstenes Torres à sua indicação, as manobras no Senado, para evitar a indicação de um crítico ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), revelam um político habilidosíssimo, conhecedor dos meandros do poder em Brasília. E que tem uma noção do exercício do poder muito mais elaborada que a do Ministro da Justiça e da própria Presidente da República. Um craque!
Polícia Federal em São Paulo
Movimento semelhante. Vazam-se os e-mails particulares da secretária Rosemary Noronha. Mas mantém-se a sete chaves o relatório da Operação Castelo de Areia.
O jogo político
De 2005 para cá, muita água rolou. Inicialmente havia uma aliança mídia-PSDB. Agora, como se observa, um arco mais amplo, com Ministros do STF, PGR e setores da PF. E muito bem articulado agora porque, pela primeira vez, a mídia acertou na veia. A vantagem de quem tem muito poder, aliás, é essa: pode se dar ao luxo de errar muitas vezes, até acertar o caminho.
Daqui para frente, o jogo está dado: um processo interminável de auto-alimentação de denúncias. Vaza-se um inquérito aqui, monta-se o show midiático, que leva a desdobramentos, a novos vazamentos, em uma cadeia interminável.
Essa estratégia poderia ter uma saída constitucional: mais uma vez “sangrar” e esperar as próximas eleições.
Dificilmente será bem sucedida no campo eleitoral. Mas, com ela, tenta-se abortar dois movimentos positivos do governo para 2014:
1. É questão de tempo para as medidas econômicas adotadas nos últimos meses surtirem efeito. Hoje em dia, há certo mal-estar localizado por parte de grupos que tiveram suas margens afetadas pelas últimas medidas. Até 2014 haverá tempo de sobra para a economia se recuperar e esse mal-estar se diluir. Jogar contra a economia é uma faca de dois gumes: pode-se atrasar a recuperação mas pratica-se a política do “quanto pior melhor” que marcou pesadamente o PT do início dos anos 90. Em 2014, com um mínimo de recuperação da economia, o governo Dilma estará montado em uma soma de realizações: os resultados do Brasil Sorridente, resultados palpáveis do PAC, os efeitos da nova política econômica, os avanços nas formas de gestão. Terá o que mostrar para os mais pobres e para os mais ricos.
2. No campo político, a ampliação do arco de alianças do governo Dilma.
Há pouca fé na viabilidade da candidatura Aécio, principalmente se a economia reagir aos estímulos da política econômica. Além disso, a base da pirâmide já se mostrou pouco influenciada pelas campanhas midiáticas.
À medida que essa estratégia de desgaste se mostrar pouco eficaz no campo eleitoral, se sairá desses movimentos de aquecimento para o da luta aberta.
Próximos passos
Aí se entra em um campo delicado, o do confronto.
Ao mesmo tempo em que se fragilizou no campo jurídico, o “republicanismo” de Lula e Dilma minimizou o principal discurso legitimador de golpes: a tese do “contragolpe”. Na Argentina, massas de classe média estão mobilizadas contra Cristina Kirchner devido à imagem de “autoritária” que se pegou nela.
No Brasil, apesar de todos os esforços da mídia, a tese não pegou. Principalmente devido ao fato de que, quando o STF achou que tinha capturado o PT, já havia um novo em campo – de Dilma Rousseff, Fernando Haddad, Padilha – sem o viés aparelhista do PT original. E Dilma tem se revelado uma legalista até a raiz dos cabelos e o limite da prudência.
Aparentemente, não irá abrir mão do “republicanismo”, mas, de agora em diante, devidamente mitigado. E ela tem um conjunto de instrumentos à mão.
Por exemplo, dificilmente será indicado para a PGR alguém ligado ao grupo de Roberto Gurgel.
Espera-se que, nas próximas substituições do STF, busquem-se juristas com compromissos firmados e história de vida em defesa da democracia – e com notório saber, peloamordeDeus. De qualquer modo, o núcleo duro do STF ainda tem muitos anos de mandato pela frente.
Muito provavelmente, baixada a poeira, se providenciará um Ministro da Justiça mais dinâmico, com mais ascendência sobre a PF.
Do outro lado do tabuleiro, se aproveitará os efeitos do pibinho para iniciar o processo de desconstrução de Dilma.
Mas o próximo capítulo será o do confronto, que ocorrerá quando toda essa teia que está sendo tecida chegar em Lula. E Lula facilitou o trabalho com esse inacreditável episódio Rosemary Noronha.
Esse momento exigirá bons estrategistas do lado do governo: como reagir, sem alimentar a tese do contragolpe. E exigirá também um material escasso no jogo político-midiático atual: moderadores, mediadores, na mídia, no Judiciário, no Congresso e no Executivo, que impeçam que se jogue mais gasolina na fogueira.
Artigo colhido no sítio http://www.fpa.org.br/artigos-e-boletins/artigos/para-entender-o-xadrez-da-politica